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Postado em 21-03-2016
Arquivado em (Artigos) por vitor em 21-03-2016 00:40


DEU NO EL PAIS

Afonso Benites
Carla Jiménez
Brasília / São Paulo

No dia da posse do segundo mandato da presidenta Dilma um grupo barulhento chamava a atenção, ao lado da fila de cumprimentos à mandatária. Empresários, políticos e cônjuges empunhavam seus celulares para tirar selfies com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O ano de 2014 começava como sempre. Lula era o centro das atenções mesmo quando os holofotes cabiam a sua sucessora. Depois de entrar no alvo da Lava Jato, porém, Lula passou por um escrutínio que atingiu o ápice com a revelação dos áudios mostrando possíveis ilegalidades numa conversa entre a presidenta Dilma e o ex-presidente Lula e com outros interlocutores do PT que estão em Brasília.

Pelas gravações, o Brasil e o mundo acabaram conhecendo o que o ex-presidente pensa de verdade sobre diversos assuntos por meio de áudios repetidos a exaustão em todos os noticiários.O homem que foi chamado de “O Cara” pelo presidente Barack Obama, em 2009, hoje se vê rebaixado a pixuleco, um caricato boneco inflável vestido de presidiário que toma conta das manifestações pró-impeachment pelo Brasil. Se já era considerado um ladrão por metade do país, os áudios, repetidos à exaustão nos noticiários e até em memes da internet, endossam ainda mais as certezas de quem despreza a figura de Lula e injetou dúvidas em muitos dos que confiavam nele, muito embora o protesto desta sexta, 18, contra o impeachment, tenha mostrado que o Brasil continua, como sempre, dividido.

Os áudios são um tiro de canhão nas intenções do Governo de restaurar a confiança de que o país poderia encontrar uma saída para a crise política. Ao contrário, aumentou o clima de suspeitas sobre o ex-presidente, ainda que o juiz Sérgio Moro tenha afirmado, inicialmente, que “não há nenhum indício nos diálogos ou fora deles de que estes [fatos] citados teriam de fato procedido de forma inapropriada”, conforme explica no despacho para esclarecer sua decisão de tornar públicos os grampos.

Na leitura das gravações obtidas pela equipe de Moro, porém, saltam duas suspeitas, segundo os investigadores: 1) que o ex-presidente pediu que o Governo interferisse em um processo contra ele junto ao Supremo Tribunal Federal e; 2) que Dilma agilizou a nomeação dele para lhe dar a prerrogativa de foro privilegiado. No primeiro áudio tornado público, Dilma avisou Lula que enviava o termo de posse de ministro para ele usar só “em caso de necessidade”, um argumento que não caiu bem para a Justiça, e na sequência, para a opinião pública.

O Planalto deu sua explicação, dizendo que a conversa da presidenta transcorreu nesse sentido “uma vez que o novo ministro, Luiz Inácio Lula da Silva, não sabia ainda se compareceria à cerimônia de posse coletiva”. Por isso a presidenta teria encaminhado “para sua assinatura o devido termo de posse. Este só seria utilizado caso confirmada a ausência do ministro.”

O argumento do Governo é polêmica, assim como a condução do grampo de Moro. Esse debate jurídico, porém, ficou em segundo plano e frustrou a costura que Lula vinha fazendo para chefiar a Casa Civil. A posse dele fora suspensa e uma enxurrada de ações judiciais ainda tramitavam em foros de todo país pedindo que ele não se tornasse ministro. Foram mais de 50 na primeira instância e uma dezena no STF. Na sexta, foi a vez do ministro do Supremo Gilmar Mendes suspendeu a nomeação e devolver o processo de Lula a Curitiba.

Antes de ser empossado na quinta-feira passada, Lula vinha numa maratona de conversas, que terminaram com uma lista de exigências apresentadas na noite de terça-feira e na manhã de quarta. As principais delas foram autonomia para atuar junto a parlamentares, montar sua própria equipe no ministério e, principalmente, em dar uma “guinada” no Governo Dilma Rousseff – o que seria uma minirreforma ministerial e de mudanças de rumos na economia, movimentos que já eram tratados de Plano Lula. Seria o início de um terceiro Governo do ex-metalúrgico, dizem funcionários do Palácio do Planalto, congressistas e até alguns ocupantes de ministérios.

Nos diálogos com a presidenta, Lula chegou a pedir a Dilma a cabeça do ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, e do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini. Ouviu um não (disse que eles estão mais dentro do que nunca). Mas as negativas da presidenta acabaram por aí. Sempre chamando Lula de presidente durante uma entrevista coletiva surpresa em que comunicou a chegada de seu novo auxiliar, Rousseff negou publicamente que haverá mais mudanças em seu primeiro escalão.

Nos bastidores, contudo, era dado como certo que os ministérios das Relações Exteriores, da Comunicação Social, da Educação e dos Esportes teriam trocas nas próximas semanas. Entre os cotados estariam o jornalista Franklin Martins e o diplomata Celso Amorim.

A matemática feita pela presidenta e pelos ministros Jaques Wagner e Ricardo Berzoini foi de que era possível encampar alguns nomes de Lula, mas era necessário garantir o espaço de outros que até agora foram fiéis à Dilma e ao PT. Neste grupo estão o próprio Wagner, que virou chefe de gabinete da presidenta, cargo que agora tem status de ministro, e Edinho Silva, da Secretaria de Comunicação Social que pode ir para Esportes.

Além da lealdade desses dois, a preocupação dos petistas era garantir a prerrogativa de foro privilegiado deles. Como foram citados no escândalo da Lava Jato, se perdessem os cargos de ministros, ambos poderiam ser julgados pelo juiz Sérgio Moro, da Justiça Federal do Paraná. Mantendo a função, só ficariam sob o crivo do Supremo Tribunal Federal, assim como Lula.

No cardápio de medidas discutidas por Rousseff e Lula nos últimos dois dias havia um possível uso de reservas internacionais do país para a criação de um fundo destinado às obras de infraestrutura, saneamento e energia, além da ampliação da concessão de créditos. Essas questões foram levantadas pelo PT em seu último encontro nacional no mês passado.

A primeira delas não foi aceita de pronto pela presidenta, que as chamou de especulação. “Jamais teremos uma pauta de uso dessas reservas para algo que não seja proteção do país contra flutuações internacionais. E as reservas, também, elas podem ter um papel em relação à dívida, mas elas não são a forma adequada de se solucionar questões de investimento”. A segunda (que trata dos créditos) deverá ter novidades em breve, conforme aliados do Governo.

Todos esses planos estão em suspenso, num momento em que as gravações romperam pontes importantes para Lula. O ex-presidente se vê agora entre um impeachment aparentemente inevitável de sua sucessora, e a tarefa de salvar sua biografia.

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Comentários

luis augusto on 21 Março, 2016 at 7:32 #

Dá gosto ler um balanço tão esclarecedor do quadro como esse do El País. Aproveito-o para dizer ao caro Jader algumas palavras que ele me solicitou no comentário ao artigo de Jânio de Freitas em artigo anterior.

Admiro seu posicionamento, sinceridade e engajamento, mas a monstruosidade da situação (em tamanho e forma) torna irrelevantes tecnicalidades outras. É como – caso tenha ocorrido mesmo – se um pequeno deslize servisse para encobrir milhões de outros e proteger pessoas que não tiveram o zelo devido com o dinheiro público que lhe foi confiado.

Ouso dizer, como força de expressão, que se Fernando Henrique, em quem jamais votei, tivesse roubado tanto, não seria tão grave quanto o PT e Lula.

Lula teve três votos meus, o PT teve mais de 20, portanto me sinto pelo menos insuspeito para qualquer crítica.

Por Lula fiz campanha no segundo turno de 89 e no primeiro de 98. Já em 2002, com uma ideia mais consolidada, dizia a meu querido colega Adilson Borges, petista roxo, na Redação de A Tarde, que nele votaria no segundo turno “sob ressalvas” e, de fato, me decepcionei logo no início do governo com a volta da propaganda de cigarro na Fórmula 1.

O PT exigia autocrítica de quem quisesse filiar-se e simplesmente não interagia com outras forças políticas, sendo famosa a prática do partido de só receber apoio, jamais dar. A legenda se construiu como a guardiã feroz da ética e da defesa dos verdadeiros interesses populares e contentou em construir isso que temos aí, que não era meu sonho de juventude (há muitas décadas).

No passado a enxergávamos como um instrumento importante na luta do povo brasileiro, talvez sem compreender a extensão da definição do velho Brizola, de que se tratava da “UDN de tamancos”.

Por minha posição, por coincidência, fui chamado por um colega esquerdista de “udenista”, enquanto eu acho que a UDN nunca conseguiria desmoralizar a esquerda brasileira como Lula e o PT conseguiram.


luis augusto on 21 Março, 2016 at 14:06 #

Caro Jader, peço que leia, nesta matéria, mensagem provocada por você. Perdi a anterior, mais apropriada. Abraços, Luís.


Vanderlei on 21 Março, 2016 at 18:45 #

Lula já está condenado pela opinião pública brasileira. Independentemente do Juiz Sérgio Moro e do STF. O Brasil não o quer mais. Ele é carta fora do baralho para o futuro do país. Sejam quais forem as suas “grandes realizações”. Como diz no popular, “ele cuspiu no prato que comeu”!
Minha correspondência publicada no “O Estado de São Paulo”, do Lula já está condenado pela opinião pública brasileira. Independentemente do Juiz Sérgio Moro e do STF. O Brasil não o quer mais. Ele é carta fora do baralho para o futuro do país. Sejam quais forem as suas “grandes realizações”. Como diz no popular, “ele cuspiu no prato que comeu”! Minha manifestação, publicada, no último domingo, no jornal O Estado de São Paulo, no forum dos leitores.


Vanderlei on 21 Março, 2016 at 18:46 #

Lula já está condenado pela opinião pública brasileira. Independentemente do Juiz Sérgio Moro e do STF. O Brasil não o quer mais. Ele é carta fora do baralho para o futuro do país. Sejam quais forem as suas “grandes realizações”. Como diz no popular, “ele cuspiu no prato que comeu”!


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