mar
19


Tarcisio Meira: brilho no começo de “Velho Chico”…


…Dilma e Lula: agora é tarde.

ARTIGO DA SEMANA

“Velho Chico”: antídoto da TV no ninho de serpentes

Vitor Hugo Soares

As imagens, diálogos, desempenhos e direção das cenas de abertura de “Velho Chico”, somados ao desenrolar dos primeiros capítulos do novo folhetim das 9h, da TV Globo, apontam para outro marco da teledramaturgia nacional, no meio da crise política, moral e econômica, e da geléia geral que os jornais do Brasil e do mundo anunciam. Não poderiam ser mais belos, ardentes e emblemáticos, em sua composição cênica e conteúdo de textos e contextos humanos, amorosos, religiosos e sociais. Magnífico painel, também, de desempenhos artísticos, a começar pela breve mas gloriosa passagem de Tarcísio Meira.

Pelo empolgante cartão de visita, a nova história levada à telinha, por Benedito Ruy Barbosa, tem um atrativo a mais: apresenta-se como oportunidade – cada vez mais rara nestes dias de tumultos, diálogos rasteiros e escatológicos de governantes, ministros, parlamentares, ex-primeira dama, que até então parecia um túmulo de silencio e recatamento, entre outros -, para confrontar e refletir sobre “dois brasis” que há décadas se encaram sem se ver mutuamente.

O de Brasília (da presidente sob tutela e quase desvario, como se viu nesta sexta-feira, 18, em Feira de Santana) e o de Paulo Afonso: simbólica cidade nordestina relegada ao esquecimento, na tríplice divisa da Bahia com Alagoas e Pernambuco.

Esquecimento que este jornalista imagina, há muitas décadas, ser algo venenoso e grosseiramente proposital. Política, administrativa e ideologicamente planejado, em razão da origem getulista do lugar onde nos anos 50 se construiu,no esturricado Nordeste, a hidrelétrica da CHESF. Marco da engenharia nacional, da modernização e desenvolvimento do País, da visão governamental em perspectiva de futuro, além da força insuperável de seus trabalhadores e da sua gente.

Tudo o que governos, administradores e partido míopes (para dizer o mínimo) – do tipo dos que nos comandam atualmente – mais abominam, estupidamente. Afinal, julgam-se os criadores e fundadores de tudo, ou quase. Não só pensam como propagam, a exemplo do que fez Dilma, ontem, na Bahia, que o Brasil começou no ABC paulista, ou mais propriamente, há cerca de 14 anos, quando Lula, fundador e guia do PT aportou no Palácio do Planalto.

Digo em imitação e tributo ao conterrâneo jornalista Sebastião Nery, na magnífica introdução de “Rompendo o Cerco” (dos discursos, pensamentos em Decálogo do Estadista, de Ulysses Guimarães) repetido no título de seu livro mais recente: “Ninguém me contou, eu vi”. Nascido nas barrancas baianas do São Francisco, vivi os melhores e mais reveladores anos da minha infância e formação na cidade de Santo Antonio da Glória, município que abrigava Paulo Afonso como um de seus distritos – no Governo Getúlio Vargas – quando começou a formação do formigueiro humano na beira da cachoeira, para a construção da barragem monumental e da usina da Companhia Hidrelétrica do São Francisco.

Estava na praça central da Vila Poty, aos 10 anos de idade, quando o serviço de alto falante local deu a notícia do suicídio de Vargas. Jamais vi, no coração de uma cidade e nos olhos de um povo, tamanha dor e consternação. Vi, em seguida, o presidente Dutra continuar a construção e estava na mesma praça no dia em que o presidente Café Filho desceu no aeroporto para inaugurar a obra monumental.

Depois vieram anos seguidos de esforços políticos e ideológicos de governos diferentes, (em fases ditatoriais ou democráticas), para jogar tudo isso no fosso do esquecimento mais medíocre e sorrateiro. Coisa de serpentes, de jararacas, para usar como referência a cobra da mod aneste quase final de Quaresma de um Brasil em transe.

De repente, eis que a novela das nove redescobre o rio da minha aldeia, e coloca Brasília e Paulo Afonso diante um do outro, com toda a força histórica e simbologias. A exemplo do folhetim “Lampião e Maria Bonita”, com todos os conflitos das grandes paixões amorosas e da política, no Raso da Catarina, deserto nordestino e santuário ecológico, habitat de serpentes, mas também de doces umbus, araticuns e outras frutas típicas. Ao lado de belas flores exóticas que nascem e crescem à beira de cavernas, onde Lampião e seus cangaceiros se abrigavam das “volantes” policiais, e Maria Bonita se enfeitava no pouso entre combates.

No começo da novela, o Brasil atravessa o ano de 1968, aquele que não terminou. E aparece um rio que não existe mais: as águas correm fartas, caudalosas e livres como as que passavam quase no quintal da casa da minha infância em Glória. A cidade original, por sinal, também desapareceu. Foi tragada pelas águas do lago artificial formado quando da construção de uma das usinas da CHESF, já na época da ditadura. A Nova Glória virou um bairro na periferia de Paulo Afonso. E aí se inicia a exploração selvagem, predatória e devastadora do rio.

Que só se agrava ao passar do tempo: o rio se transforma em reservatório de exploração político eleitoral e grossa corrupção no conluio do antes públicos com grandes empreiteiras privadas, principalmente nos últimos 14 anos dos governos petistas de Lula e Dilma. Anos do engodo do projeto de transposição das águas do São Francisco. “Velho Chico”, a novela, começa a se desfiar a partir de uma lenda, “que une a história do rio com o foco da trama”, sintetiza o autor. “Uma índia chora de saudade de seu grande amor, um guerreiro. Das suas lágrimas, surge a nascente do São Francisco”, escreve uma comentarista de TV. Em 1968, (época retratada no início da novela) as águas do rio eram fartas. Muitas famílias castigadas pela seca foram para as regiões banhadas pelo São Francisco, fugindo da fome, da sede, da miséria. A partir de uma lenda, a novela une a história do rio com o foco da trama, o amor.

Na telinha, o impacto de realidade na abertura do novo folhetim da Globo. Caetano Veloso canta “Tropicalia”, uma composição marcante gravada em 68, com a força, intensidade e atualidade de uma música que o baiano de Santo Amaro da Purificação tivesse feito ontem: “Sobre a cabeça os aviões/ Sob os meus pés, os caminhões/ Aponta contra os chapadões, meu nariz./ Eu organizo o movimento/ Eu oriento o carnaval/ Eu inauguro o monumento/ No planalto central do país”.

E segue “Velho Chico” em seus primeiros e significativos momentos. De impacto, relevância e simbologias, ainda mais marcantes pelas possibilidades de reflexões e comparações que o folhetim oferece, nestes dias de março de 2016, nesta semana de revelações, espantos e explosões indignadas nas ruas do Brasil. Mais que recomendável uma novela assim. No tempo em que as serpentes andam soltas e que o procurador Deltan Dellagnol, da Lava Jato, define, com ajuda do juiz Sérgio Moro, como época da “guerra desleal e subterrânea, travada nas sombras, longe dos tribunais”.

Que “Velho Chico” e a força do rio da minha aldeia (mesmo que sangrando de morte) ajudem a lançar luzes sobre os atuais tortuosos e temerários caminhos do Brasil. A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares@1.com.br

Be Sociable, Share!

Comentários

luiz alfredo motta fontana on 19 Março, 2016 at 8:43 #

Caro VHS

O rio que não mais existe, o sonho que terminou sem nos intimar do fato, a ingenuidade em acreditar-se organizador de movimentos, são aromas e sabores que jorram neste palco em LED.

Atordoa, banaliza, homenageia, negaceia, mas ainda é a aldeia. Aquela em 68, e esta em rede e bytes. Esta surpreende a cada esquina, emite sinais confusos, garante a ressaca antes mesmo do primeiro gole.

A Bahia, saiu às ruas, ontem, vestiu o asfalto de vermelho, ecoou palavras de ordem, tugiu, mugiu, tomou as praças, as calçadas, os becos, espantou os gatos trôpegos, baniu os cães vadios.

Em nome de que Francisco ou Chico saiu a Bahia?

“Por mor de que”?

Pela varanda conquistada por Wagner?

Pela fala chula de Lula?

Pelo banzo do crédito fácil?

O que quis dizer a Bahia em vermelho?

Dilmês, esta língua soluçante, encontrou no Pelourinho a mais perfeita tradução?

Lula, mimetizado em jararaca desperta marés benfazejas?

Caro VHS, algo fora de lugar vertia da tela em LED, nao era o rio, não era Francisco, não era Chico, nem Dorival, não tinha o dengo de Gal, não tinha a fronte de Bethânia, não era a elegância de Gordurinha, não era poesia de Batatinha.

Era viscoso, era vermelho, era cego, era enjoo, era fel, era marisco vencido, era tosco, era aborrecido. era vermelho sem história, era fala sem mensagem, era Lula, e era na Bahia!

Ontem a Bahia foi às ruas e não era nenhum Chico.

Era vermelho e não era Exu, era entidade e não Orixá, era, sabe-se lá o que, e por mor de que?

VHS, Wagner virou trilha em Itapoã?

Na Paulista é compreensível, sindicatos transformaram-se em burras abarrotadas de erário desviado. Marcham unidos, em forma, fazem ruido, e faz sentido.

O sonho, o rio, tornaram-se ilusões em LED.


Mariana Soares on 19 Março, 2016 at 10:39 #

Lindo texto, meu irmãos!!!
Arrefece a alma em meio a tanta insanidade, escuridão e desesperança.
Quanto à questão levantada pelo Poeta, embora não dirigida a mim, tomo a liberdade e a ousadia de tentar responder.
A Bahia não saiu às ruas de vermelho apenas do dia de ontem, ela sempre encheu as urnas do PT de voto…
Talvez, tivéssemos a esperança de que os baianos, ou melhor, “boa” parte deles, tivessem acordado diante de tanta corrupção e os males que trazem com ela, praticados pelos atuais hóspedes do poder…
Não foi isso que aconteceu, contudo.
Mas, como diz Caetano, cada um sabe a dor e alegria de ser como é.
Cada um defende a bandeira que acredita e é bom que seja assim…Democracia é o que queremos!


luiz alfredo motta fontana on 19 Março, 2016 at 11:14 #

Cara Mariana, nenhuma ofensa ao baianos, apenas estranhei, nessa quadra, depois de tudo revelado, depois do rei nu, da rainha submissa, a manifestação de ontem em Salvador foi a mais expressiva, sem sombra de dúvida. Apesar da varanda wagneriana.

Não compreendo tantos sindicalistas em Salvador, a economia ai é muito diversa de São Bernardo e outros santos daqui. O ninho desta organização criminosa é paulista, mas, proporcionalmente, ontem era baiana.

Foi o que estranhei, assim como rio não mais existe, não há motivos para tamanha procissão com ídolos errados, especialmente quando a “reza” é chula.


luiz alfredo motta fontana on 19 Março, 2016 at 11:35 #

Resta a pergunta:

O que nos move?
Nosso vazio é tão vasto que aceita degenerados de toda espécie?
O que nos move?


Chico Bruno on 19 Março, 2016 at 18:00 #

Democracia não corre perigo. Não vai haver golpe. Por uma simples razão, vivemos os ares positivos da democracia.
Uns querem o impeachment, outros não, pois acham que vão trocar seis por meia dúzia. Existe ainda uma maioria que está preocupada com a corrosão dos salários pela inflação.
Portanto, o ato de hoje em defesa da democracia é uma estratégia política dos que defendem a continuidade do ‘status quo’ no Executivo.
A questão é: com impeachment ou sem não vamos encontrar uma saída.
Por isso, sugiro que seja feito um plebiscito paralelamente as eleições municipais deste ano para decidir à parada.
Coisa assim: se o não vencer, Dilma continua. Se vencer o não, Dilma sai e assume por 90 dias o presidente do STF que convoca uma nova eleição presidencial para 31 de janeiro.


luiz alfredo motta fontana on 19 Março, 2016 at 18:11 #

Tradução, para que Constituição se somos tão criativos?
João Santana faria a campanha plebiscitaria?


luiz alfredo motta fontana on 19 Março, 2016 at 18:19 #

Tradução, esqueçamos a Constituição, declaremos Lula inimputável, tal qual os loucos de todo gênero.

Para o bem, ou para o mal, é hora de seguirmos os ritos previstos.

Ou, em transe mistico, nos declararemos todos venezuelanos. Culparemos Tio Sam e iremos em frente, ao som de uma salsa dissonante!

Dilma, Lula, e seus asseclas, são apenas crianças levadas. Olvidemos suas estrepolias!


Janio on 20 Março, 2016 at 13:33 #

Vitor, querido, você, com toda experiência de flechadas e cambumbas nas águas do Kaxacá, foi na mosca (ou no surubim, se preferir) nesse belo texto. A cerveja geladíssima, o carinho e aquele tucunaré na brasa estão sempre às margens e à disposição. Traga o pantoprazol, que o meu pode acabar.


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos