Velho Chico:Xangai, o violeiro nordestino de bombachas


CRÔNICA

Um violeiro estrangeiro no Velho Chico

Janio Ferreira Soares

Com as recentes reformas neste centenário edifício de tantos contratempos e opiniões, já nem sei dizer se sou feliz ou não, já nem sei pra quem eu dou meu coração, ops, perdão, cantarolei a música errada. O que eu queria dizer é que já nem sei se no exato momento em que estas linhas estiverem impressas, a novela Velho Chico terá estreado ou não. Só sei que, a exemplo de outras produções globais (Lampião e Maria Bonita, Padim Ciço, Amores Roubados…), mais uma vez Paulo Afonso e Região servem de locação para as belíssimas imagens da trama, proporcionando aos milhares de brasileiros uma ótima oportunidade de conhecer nossos charmes e relevos que, aposto, despertarão nos telespectadores um misto de “que lugar lindo!” com “onde fica isso?”, acrescentado por pitadas de “como faço pra ir até lá?”. Antes, porém, alguns parênteses se fazem necessários.

Noite alta, céu risonho e um desses amigos que não carecem hora me manda a seguinte mensagem: “Ô seu escribazinho que não amarra nem o cadarço do Kichute do porteiro do edifício de João Ubaldo, você já viu a propaganda da novela Velho Chico com um violeiro estrangeiro singrando o rio numa canoa? Só digo uma coisa: se a intenção era desmoralizar a classe, os sacanas conseguiram. Espero urgente algumas linhas a respeito. Bjs”.

Como um soldado raso diante da ordem de um sargento manco, imediatamente pus-me a pesquisar tal imagem e finalmente pude ver na telinha a causa de tamanha revolta. Tranquilamente recostado na proa de um barco à vela, um barbudo com um chapéu pantaneiro, botas de cano alto, bombacha, camisa de mangas bufantes e empunhando um violão na caixa dos peitos, entoa versos num som bastante familiar. Apuro os ouvidos, limpo a vista e quando junto a voz à pessoa tomo um susto e exclamo: “valei-me meu São Francisco!, mas que diabo Xangai tá fazendo fantasiado de Teixeirinha?”.

Prontamente transmiti minha solidariedade ao incomodado amigo, inclusive lembrando-o que a Globo deveria, sim, fazer uma dessas correções que neguinho faz quando divulga uma falsa informação, simplesmente admitindo que alguém errou no figurino do nosso itapebiense, que, sem mais nem menos, deixou de ser o velho violeiro nativo das margens do Córrego do Jundiá, para virar um, sei lá, gaiteiro dos pampas, provavelmente amancebado com alguma guria parente de Kleyton e Kledir. Aliás, a permanecer nessa toada, periga nos próximos capítulos um pescador puxar uma rede lotada de salmão, robalo e um imenso King Crab, que serão servidos num churrasco num acampamento farroupilha sob goles de chimarrão.

Para findar, tergiversarei. É que enquanto me preparava para as tecladas finais, recebi a triste notícia das mortes do percussionista pernambucano Naná Vasconcelos e do quinto Beatle, George Martin. Embora incrédulo, estou tentado a acreditar que a ida simultânea desses dois gênios só pode ter sido ideia do comandante dessa zorra toda que, cansado de ouvir Yesterday e Hey Jude em morgados arranjos de harpas e oboés, resolveu dar um toque de maracatu pra sacudir o marasmo celestial na hora do chá das cinco. Soube até que o nosso Tim Maia anda vibrando e já mandou avisar que se receber um indulto do anjo decaído, deixa as funções de síndico do purgatório e talvez compareça na hora do dueto com Chico Science. O firmamento vai tremer.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, no lado baiano do Rio São Francisco. O artigo é publicado originalmente no jornal A Tarde, “centenário edifício de tantos contratempos e opiniões” a que se refere o autor no início do texto.

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Comentários

luis augusto on 16 Março, 2016 at 14:58 #

Ô Vítor, tira minha cara de telas indevidas. E por incrível que pareça, foi agora que notei o sobrenome: você é parente de Jânio?


vitor on 16 Março, 2016 at 17:01 #

Ô Luis, obrigado por despertar este desatento editor em dia de loucura total em Brasília. Pior quando em dias assim eu escrevia meu nome na hora de creditar o artigo de Ivan de Carvalho. BP acaba de mudar as fachadas no artigo do grande cronista do Rio São Francisco, com os devidos pedidos de desculpas ao autor.Quanto ao parentesco é uma história que requer ambiência especial e algumas garrafas de cerveja e boa comida (da beira do Velho Chico ou da Baia de Todos os Santos) de acompanhamento. E de preferência com vc, eu e Janio juntos. Só posso adiantar que, antes de fundar o BP, fui a Paulo Afonso com Margarida e um casal de amigos, para convidar Janio para ser o primeiro colaborador do site blog. A farra do convite, no cenário da novela Velho Chico, só dá para contar também pessoalmente.OK?

co


luis augusto on 16 Março, 2016 at 21:52 #

Ok, aguardaremos, brincaremos no regato…
E eu ainda estou tão estarrecido com o dia que nem escrevi.


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