J.C. Teixeira Gomes(Joca):brava e digna
travessia de um jornalista e escritor aos 80…


…e Lula, depois da condução coercitiva
pela Aletheia para depor na Lava Jato

ARTIGO DA SEMANA

Teixeira Gomes, 80: jornal, livro, marqueteiros, Aletheia

Vitor Hugo Soares

Bate vigorosamente na porta dos 80 o jornalista e escritor João Carlos Teixeira Gomes. “Dito assim parece à toa”, mas o verso do samba famoso, sobre feitiço e paixões, me vem providencialmente à memória na incrível sexta-feira (4), da Operação Aletheia (a busca da verdade): vigésima quarta etapa da Lava Jato, conduzida, de Curitiba, pelo juiz Sérgio Moro. Agentes da Polícia Federal chegam no apartamento do ex-presidente Lula, na região do ABC paulista – berço do PT há 36 anos, festejados na semana passada – em cumprimento ao principal dos mais de 40 mandados diversos, no vasto circuito da propina e das suspeitas de perversa corrupção praticada em conluio de agentes públicos e privados, em São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia.

E o que tem a ver com isso Teixeira Gomes, filho orgulhoso e homônimo do lendário goleiro do Esporte Clube Bahia, nos tempos de glória do antigo e extinto Campo da Graça, dos grandes embates do futebol baiano? Perguntarão alguns leitores mais apressados e menos informados. Muito a ver, respondo e garanto.

Conheço tão de perto, e de tão longa data, o personagem principal deste artigo que não tenho dúvidas em afirmar: Joca (assim é chamado, com carinho e admiração), será o primeiro a entender e aceitar as justificativas para a divisão do espaço dedicado a ele, com a operação da PF que mexe com os nervos do PT, do Planalto e do País . Ainda que resmungue, ele conhece, proclama e acata, como poucos da sua profissão e crença no jornal, no livro e na verdade (ontem e hoje ) a força de “Sua Excelência, o Fato”, na sábia denominação de Charles De Gaulle.

Ontem (4) fui tirado da cama, bem cedo, pelo telefonema da vibrante irmã jornalista, que avisa sobre a movimentação “da Federal”. Ligo de imediato a TV no canal privado Globo News.Começo, então, a acompanhar a cobertura nervosa mas eficiente (imagens, informações, comentários opinativos). Logo em seguida, helicópteros começam a sobrevoar bem diante da janela do apartamento onde moro, em um bairro de classe média de Salvador, a poucos metros do heliporto de uma unidade do Exército, na VIª Região. Ultimamente, para mim, este tem sido um termômetro seguro da temperatura política e social. Sinal barulhento de que alguma coisa de grave acontece ou repercute na Cidade da Bahia, de onde escrevo estas linhas semanais.

Na mosca! Ou tiro e queda, se preferirem.

Assim, em meio à tensão e ambiência tão comuns e recorrentes na profissão que abracei, preparo-me para acompanhar, mais uma vez, outra encrenca nacional, com passagem por meu portão. E, ao mesmo tempo, cumprir a pauta que havia me proposto na véspera: compor um perfil pessoal da figura, do caráter profissional e da trajetória de vida de João Carlos Teixeira Gomes, o teimoso e inveterado resistente da imprensa, da cultura, do ensino e das letras em sua terra.

Mestre do discurso impresso da Bahia e do Brasil, que festeja semana que vem (09/03) seu aniversário de nascimento do modo e jeito que ele mais gosta: produtivo, irrequieto, barulhento, provocativo e cercado de polêmicas por todos os lados. O evento comemorativo coincide com o lançamento do novo livro e acontece a partir das 16h30, na Livraria Cultura, do Salvador Shopping.

O último dos moicanos da imprensa de resistência, antes da invasão dos meios de comunicação, em geral, pelos “hunos marqueteiros” (primeiro na Bahia dos anos 70/80 e depois no País), tornando cada vez mais difícil separar o que é informação e o que é propaganda. Notícias ou fofocas. Economia ou negociatas vulgares. Políticos, governantes e homens públicos e estadistas ou meras celebridades e aventureiros de ocasião. Embusteiros, palavra preferida de sua pena implacável para fustigar canalhas. Desvios eticamente intoleráveis, contra os quais JC Teixeira Gomes (como ele assina seus textos ultimamente) briga e se insurge desde sempre.

E assim ele festeja a chegada aos oitenta. Na quarta-feira, 9, coincidindo com a nova idade, vai lançar “A Brava Travessia”: Memórias, Viagens e Artigos do Pena de Aço”.

Gregório de Mattos, o Boca de Brasa, de quem Joca Teixeira Gomes é um dos maiores e mais reconhecidos estudiosos da obra, não teria feito melhor.

“É um longo percurso, marcado por muitos momentos difíceis, pois grande parte da minha militância verificou-se sob a ditadura militar, quando eu chefiava o “Jornal da Bahia”, definiu Joca em entrevista ao jornal Tribuna da Bahia. Encurto o caminho para não me tornar cansativo e repetitivo. Outros dirão mais e melhor sobre o poeta, o romancista, o ensaísta, o contista, o acadêmico e o professor de inúmeras gerações na UFBA. Vibrante, inspirado, fulgurante no que fala e no que escreve, como assinalou Joaci Góes em artigo brilhante, sobre o aniversariante, publicado na TB.

Diante dos fatos nacionais referidos na abertura deste artigo sobre a Aletheia escolho, antes do ponto final,o João Carlos Teixeira Gomes tempestuoso e profético, o jornalista ao lado do qual caminhei muitas léguas e de cujos ensinamentos e exemplos bebo anos a fio. Orgulhosamente.

O Teixeira Gomes, por exemplo, deste trecho do discurso de saudação na cerimônia de posse de Joaci Góes na Academia de Letras da Bahia (presente o saudoso João Ubaldo Ribeiro), em setembro de 2009:

“O poder no Brasil nunca está a serviço da sociedade e sim de grupos que o detém… Predomina hoje no país, mais do que nunca, a ideologia do oportunismo, acintosa e corrosiva, promovida por conhecidos e diariamente citados políticos desavergonhados, íntimos dos cofres públicos e privados. Só não os cito nominalmente aqui, porque além de notoriamente conhecidos, não pretendo perturbar com revelações óbvias este clima de confraternização e de festa”.

“Mas todo momento é importante quando se trata de denunciar e combater as fraudes das instituições e o esvaziamento da Democracia. A consciência social não pode acomodar-se e deve agir como instrumento de libertação”…

Bravo! Esse é Joca, Pena de Aço, que a Bahia conhece e aprendeu a querer bem e admirar. O Brasil também, mais ainda nesta encruzilhada da travessia de combate contra a corrupção, o embuste e busca da verdade.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Chico Bruno on 5 Março, 2016 at 7:25 #

Bravo! O amigo está a cada dia mais afiado. Tem tudo a ver entre o discurso de Joca com a Operação Aletheia.


luiz alfredo motta fontana on 5 Março, 2016 at 9:32 #

Caro VHS

Manhã singela, afinal é sábado!

O acordar sob o chuveiro, única forma de aceitar o abandono do sonho, café, o cigarro, a tv ligada em algum noticiário, são atos preparatórios para o sorrir ao sorver o artigo da semana.

Esta sexta-feira foi longa, começou em 2014, para muitos, para este poeta distraído começou quando Dom Evaristo Arns resolveu ser o primeiro “João Santana” de Lula. a mistificação irrompeu nas salas ditas cordatas e cordeiras.

A sexta-feira foi longa, lembrei de um velho hábito, adquerido quando bares ainda eram zonas livres de pensamento, quando os eflúvios do álcool produzem ruídos estranhos, em que pelejas emocionais substituem o doce prazer do diálogo fraterno, o melhor é, discretamente, ausentar-se da mesa fervilhante, ganhar a calçada, por instantes, acender um cigarro, sentir a brisa, distrair-se com o passos apressados da moça em saia estampada em retorno a um eventual amor antigo, ou o esgueirar de um gato vadio em muro próximo. Depois, com passos lentos, retornar à mesa, caso lhe perguntem: -Não é mesmo?. Sorria, o sorriso é magia, não contém sim, muito menos não, e acalma.

A sexta-feira continua, intensa, feia, fétida, pesada, sufocante, veio para ficar, ou melhor para enterrar mitos, mistificadores, malandros, safos e seguidores, bem ou mal intencionados.

Dilma ou Lula, qual destas duas figuras, dignas de filmes noir, irá quedar-se, inerte e sem esperança, num destes becos sujos e sem saída, em primeiro lugar?

Abraçados, dificilmente, não lhes tinge o caráter a fraternidade, gestos incondicionais não lhes são naturais, soçobrarão isolados um do outro, resta saber a ordem cronológica.

Quanto aos Arns, continuarão, ávidos por heróis, entorpecidos pelo canto de sereias que não mais existem, cambaleantes em linhas retas do vazio.

Caro VHS!

Que esta sexta-feira, travestida de agosto, encontre em breve, seu fim, sem glória, sem brilho. simplesmente dissipe-se, levando consigo, criadores e criaturas, medos e gemidos, falsos brilhantes e discursos vazios.

Tim Tim!!!
(Que bom que Jocas existam, são mais necessários que Arns)


Jader martins on 5 Março, 2016 at 12:22 #

Jader martins on 5 Março, 2016 at 12:37 #

Para o gaudio de poetas e seresteiros , o sequestro de Lula segundo Rodrigo Viana :

http://www.revistaforum.com.br/rodrigovianna/palavra-minha/37794/


Taciano Lemos de Carvalho on 5 Março, 2016 at 15:48 #

Sequestro? Sequestro foi o do Amarildo? Em que não houve ordem judicial. E também de milhares de pobres nas cidades brasileiras.

Juízes federais rebatem qualquer alegação de ofensa à democracia e à Constituição na Operação Lava Jato
http://www.ajufe.org/imprensa/noticias/juizes-federais-rebatem-qualquer-alegacao-de-ofensa-a-democracia-e-a-constituicao-na-operacao-lava-jato/

Nota à imprensa
Procuradores da República repudiam suposta politização da Operação Lava Jato
http://anpr.org.br/noticia/4475


Jader martins on 5 Março, 2016 at 17:07 #

O Amarildo não é aquele que fez o gol contra o Chile na copa de 1962?
https://www.youtube.com/watch?v=E68cx2W45ak


Taciano Lemos de Carvalho on 5 Março, 2016 at 18:53 #

Esse Amarildo da Copa foi famoso, ninguém o sequestrou, muito menos o matou. Até substituiu Pelé muito bem na Copa do México.

O outro é esse aí do link abaixo. Um ajudante de pedreiro. Sequestrado pelo Estado e assassinado. Até hoje não se encontrou o corpo.
https://youtu.be/tXb3d9X1MvM


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