CRÔNICA

A geração Akalanto está de luto

Janio Ferreira Soares

Primeiro fazíamos um aquecimento depois de um cineminha no Clube Paulo Afonso (CPA), isso se o cartaz do filme prometesse – ou então se o diligente Nélson Homero tivesse lido alguma informação interessante sobre seu enredo nas páginas da Seleções Reader’s Digest. Em seguida ficávamos pelas cadeiras azuis papeando, tomando cerveja e, no meu caso, paquerando aquela linda menina que adorava Fábio Jr. e me encantava quase toda noite jogando ao vento olhares, sorrisos e pernas, logicamente usando todas as armas que sabe usar uma mulher… quando quer. “Anísio, traz mais duas!”. “O bar fecha já, já!”. “Então traz umas dez!”. “Querem as coxinhas de Toinha?”. “Bem quentinhas. E não se esqueça de dar um beijinho de boa noite em Zé Vicente!”. Eles riam e nós bebíamos, e comíamos, e depois partíamos rumo à boate Akalanto (localizada na antiga Ilha dos Patos), não sem antes rolar o mercado persa da carona franca.

“Terrr mala?”. Essa era a primeira pergunta de Andy, um americano gente boa que passou um tempo por aqui e logo se adaptou ao costume de acomodar-se na mala de qualquer carro para não pagar ingresso. A propósito, sua performance mais famosa foi num fusca, quando ele, num malabarismo impressionante, encaixou as pernas no local do pneu reserva, vergou o corpo pra trás como se fora um dançarino passando por debaixo da cordinha e sobreviveu numa boa à longa fila de carros, a maioria com apenas uma mulher ao volante (elas tinham entrada franca) e a traseira arrastando no chão, para desespero de Sarapó, o algoz e fiel guardião do portal que dava acesso às longas noites de negue seu amor e seu carinho, diga que você já me esqueceu.

“Hoje não vai dar que o ‘homem’ tá brabo!”, era seu mantra favorito toda vez que, sem encontrar nenhuma menina disponível pra dirigir, lhe pedíamos pra facilitar nossa entrada. Sem acordo, o jeito era coçar os bolsos, comprar ingresso e, uma vez lá dentro, ficar puto da vida ao descobrir que o “homem” nem tinha aparecido por lá naquela noite. Gilberto era seu nome e, muito mais que dono do lugar, ele era, isto sim, um dos excelentes músicos que compunham a espinha de peixe da ótima banda que nos finais de semana mandava ver boleros, salsas e bossas da mais alta qualidade, para alegria e farra dos casais que lotavam o pequeno dancing com seus faceiros e ensaiados rodopios.

Mas o que me pegava de jeito era quando, já com o salão quase vazio e as cadeiras sendo emborcadas sobre as mesas, o “homem” pegava seu sax e, qual um Chet Baker do sertão (fisicamente os dois até se pareciam), começava a improvisar em cima de algum tema vadio, trazendo a reboque o baixo sem traste de seu Sabino, que, tirando altos cochilos no canto do palco, segurava a onda com a elegância e a competência de jamais deslizar o dedo um milímetro sequer da nota que o sopro lhe pedia. De arrepiar.

A recente partida de Gilberto, somada às de Sabino e Elói (também um crooner de primeiríssima linha que ia de Dick Farney à Allah-La Ô, quase sempre com um copo entre os dedos como se fora uma maraca escocesa tremulando malte e gelo no compasso da canção), encerra definitivamente o fim de uma era onde a boêmia, a boa música e as grandes histórias decorrentes das duas, viviam numa feliz e entrelaçada comunhão, como o Dó, Ré, Mi, Fá e o Sol, Lá, Si, da melodia que ora ouço na voz de Dóris Monteiro, confesso, só pra provocar a saudade. “Anísio, cadê você!?”.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, do lado baiano, romântico e boêmio do Rio São Francisco.

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