Dilma: recado ao PT vem do Chile

DO EL PAIS

Carla Jiménez

São Paulo

A presidente Dilma Rousseff e o Partido dos Trabalhadores andam se estranhando e o ruído ficou claro em uma entrevista coletiva que a presidenta concedeu durante sua visita oficial a sua colega chilena, Michele Bachelet, neste sábado. Questionada sobre recentes desencontros com o partido, que tem criticado seus planos para a economia, a presidenta respondeu: “Eu não governo só para o PT. Eu governo para 204 milhões de brasileiros”, afirmou, emendando depois que não governa para um partido em específico. A própria viagem de Rousseff ao Chile gerou mal estar, pois ela era esperada na festa de 36 anos do partido que acontece neste final de semana no Rio de Janeiro.

A viagem ao Chile estava programada para o segundo semestre de 2016, de acordo com o Ministério das Relações Exteriores chileno. O Brasil, no entanto, comunicou na semana passada ao Governo de Bachelet que precisava adiantá-la e, contra o relógio, começaram os preparativos, como informou a repórter Rocío Montes.

O PT e Dilma vivem às turras há algum tempo pelas diferenças de expectativas no campo da economia, como a reforma da Previdência, e a manutenção de juros altos para controlar a inflação. Na última quarta-feira houve mais um round durante a votação no Senado do projeto que tira da Petrobras privilégios de exploração de reservas do pré-sal. Os senadores do PT votaram contra o projeto apresentado pelo senador José Serra (PSDB-SP), mas o Governo Dilma deu aval, sugerindo uma emenda que garantia ao presidente da República um papel na escolha dos poços nos quais a Petrobras terá preferência no futuro. O clima, então, azedou de vez entre partido e mandatária.

Na quinta, o presidente do PT do Rio, Washington Quaquá, expôs o nível do veneno que ficou entre as duas partes ao dizer que “não faria questão da presença dela [de Dilma na festa do partido], mas falo em meu nome, não do partido”, disse Quaquá.

Para alguns observadores, no entanto, ao ceder na questão do projeto da Petrobras, por exemplo, a presidenta fez o que sempre deveria ter feito: política. A petroleira tem uma dívida de meio trilhão de reais e problemas demais para enfrentar depois que a investigação da Lava Jato expôs a companhia. O PT, por sua vez, defende suas bandeiras históricas de defesa da soberania nacional na área de petróleo.

O partido, que tem feito das tripas coração para evitar o impeachment de Rousseff no Congresso enquanto se defende da artilharia pesada da Lava Jato contra o ex-presidente Lula, tem trabalhado para unir a base com um discurso que exige mudanças radicais na economia. Em um documento apontando propostas para a retomada da economia, o partido aponta a necessidade de reduzir juros e ampliar o crédito de modo a estimular o consumo. A fórmula, no entanto, se choca frontalmente com o desafio da equipe econômica de Rousseff de segurar a inflação que passou do limite estabelecido pelo Banco Central no ano passado, ao superar os 10%, e ainda mostra resistência para cair. O BC mantém juros de 14,25% para evitar um estrago maior. A falta de controle sobre a política econômica já fez o Brasil perder o grau de investimento por parte das agências de risco. A última a rebaixar a nota de crédito do país foi a Moody’s esta semana.

Para alguns cientistas políticos, no entanto, romper com o PT talvez fosse o único caminho para que Rousseff sobrevivesse em seu Governo. Mas, certamente ela perderia apoio importante na hora de evitar o impeachment. Rousseff, entretanto, prefere contemporizar quando trata dessas diferenças com o PT. Durante a coletiva no Chile, disse aos jornalistas brasileiros presentes que divergências são naturais. “Partido é partido, governo é governo. Como o próprio nome diz, partido é uma parte”, disse ela, segundo a correspondente do jornal O Globo. De qualquer forma, a presidenta mandou uma carta para ser lida pelo presidente do PT, Rui Falcão, na qual diz que “segue de braços dados com essa aguerrida militância do PT, que, como eu, tem orgulho de empunha a bandeira vermelha com a estrela branca na luta pela construção de um país mais justo.”

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