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Postado em 27-02-2016
Arquivado em (Artigos) por vitor em 27-02-2016 01:51


Ernesto Simões Filho

DEU NO BLOG POR ESCRITO ( DO JORNALISTA LUIS AUGUSTO GOMES)

A agonia nas páginas de A Tarde

A edição impressa de A Tarde de hoje não nos deixa mentir: na quinta página do primeiro caderno, a matéria “Evento lembra 202 anos do Levante do Rio Joanes” traz três vezes o ano de 1914 como sendo o da ocorrência, nas palavras do jornal, “da batalha histórica liderada por escravos muçulmanos”.

O fato nos põe uma grande dúvida: terá sido erro de aritmética ou de história? Os dois, lamentamos dizer. Se o conflito, de que muitos nos orgulhamos como defensores da liberdade, foi há 202 anos, certamente se deu em 1814. Por outro lado, escapou ao jornal o fato de que a escravidão, pelo menos oficialmente, estava extinta no Brasil desde 1888.

A crítica um tanto cruel tem razão de ser. Há talvez uns 25 anos, a Tribuna da Bahia, depois de uma era de glória, lutava pela sobrevivência e, sem maiores meios, oferecia ao público o produto possível, como chamar Rui Barbosa de “O Asa de Águia” e publicar como foto de um clássico escritor francês a cara de um jornalista homônimo bem brasileiro.

O periódico da Rua Djalma Dutra, por onde este editor teve o orgulho de transitar profissionalmente em diversas oportunidades, estabilizou-se com melhor direção e leva modestamente a vida, embora com protagonismo no noticiário político local, sem considerar outras editorias.

A Tarde, que teve sua decadência iniciada, digamos, na passagem das décadas 80/90, embora com espasmos de recuperação, tem estrutura, pessoal e dívidas muito maiores que os da co-irmã. O quadro é de UTI, pois os novos “investidores” – diz-se nos bastidores – não investiram coisa nenhuma, e o cenário é de salários atrasados. O desafio agora é conseguir sair-se pelo menos como a Tribuna.

Raízes já não resistem muito

Inconformado com o quadro caótico que se prenunciava no jornal no final da década de anos 90, o saudoso jornalista Genésio Ramos desabafou, um dia, com este editor, que teve passagens também no tradicional jornal baiano: “Eles só não arruínam de vez isto aqui porque as raízes que Dr. Simões plantou foram muito profundas”.

Referia-se, claro, ao fundador Ernesto Simões Filho, jornalista combativo, de têmpera política, com o qual chegou a trabalhar, ao ingressar, na década de 50, em A Tarde. E o “eles” era a terceira geração da família, aparentemente sem preparo para dar continuidade a um empreendimento que chegou a ser, na Bahia, uma espécie de monopólio do setor.

Profecia de efeito retardado

No começo dos anos 2000 – para seguir nesta didática citação cronológica –, havia na Redação uma revisora de credo evangélico que, ao cair da tarde (realmente, sem maldade nem trocadilho), atraía as atenções com uma oração em que evocava os colegas a abdicar do mal e colaborar para a harmonia da humanidade, como é comum nesse segmento.

A performance era acompanhada por chiste de uns, contrição de outros e indiferença da maioria. Era uma rotina que durava alguns minutos. Um dia, irrompeu sobre o culto informal Ranulfo Simões Bocayuva, um dos herdeiros do grupo empresarial. “Chega, vamos acabar com essa palhaçada!” –, bradou, cuidando em seguida de providenciar a demissão da “irmã”.

A reação da indigitada foi digna do apego a sua fé. Disse que ia em paz, que não temia o futuro, por confiar no amor de Deus. E antes de deixar de vez nosso convívio, anunciou o sonho que tivera, de que em sete anos o jornal estaria liquidado. É verdade que se passou o dobro desde então, mas afinal se tratava de uma profetisa de segundo escalão, sendo razoável assegurar-lhe certa margem de erro.

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