DO EL PAIS

Rodolfo Borges

De São Paulo

João Santana não vai conseguir eleger seu oitavo presidente na América Latina, pelo menos neste ano. O marqueteiro responsável pelo sucesso eleitoral do PT nas últimas décadas anunciou nesta segunda-feira, horas depois de ver expedida uma ordem de prisão temporária contra ele e contra sua mulher, Mônica Moura, que deixa a campanha de reeleição do presidente da República Dominicana, Danilo Medina — que o próprio Santana ajudou a eleger quatro anos atrás.

Na nota, divulgada em espanhol, Santana faz referência à 23ª fase da Operação Lava Jato e diz que “conhecendo o clima de perseguição que se vive hoje em dia em meu país, não posso dizer que me pegou completamente de surpresa, mas mesmo assim é difícil de acreditar”. “Dadas as circunstâncias, solicito a este Comitê de Campanha desligar-me em caráter imediato da campanha em curso na República Dominicana”, segue a nota.

O publicitário diz que isso lhe permitirá “ir ao Brasil para se defender das acusações infundadas de que estou sendo objeto”. Santana é suspeito de receber mais de 7 milhões de dólares para contas não declaradas no exterior. Na nota em que comunicou seu desligamento, o marqueteiro destaca ainda que “desde a passada semana” se colocou ao dispor das autoridades do Brasil “para esclarecer qualquer especulação”, e afirmou que facilitaria “toda a informação necessária para deixar estabelecida a verdade dos fatos, para além de toda dúvida”.

Além de declarar a prisão temporária do publicitário, a Justiça brasileira bloqueou 25 milhões de reais de João Santana. Os investigadores esclarecem que o valor do bloqueio é padrão e não significa que os investigados tenham a quantia depositada. Mas, só na campanha presidencial de 2010, a empresa de Santana, Polis Propaganda, recebeu 42 milhões de reais declarados do PT. O publicitário já informou à justiça brasileira por meio de seu advogado que pretende se apresentar às autoridades locais assim que chegar ao país.
Um discreto protagonista

O marqueteiro João Santana é referência para a propaganda política brasileira e latino-americana desde que ajudou a reeleger o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2006. Com a popularidade arranhada pelo escândalo do mensalão – por meio do qual seus representantes no Congresso compravam apoio parlamentar –, Lula foi apresentado por Santana como um homem do povo que venceu na vida, mas que estava sofrendo ataques dos poderosos, da elite que comandava o país. A estratégia deu certo e qualificou o publicitário para dirigir as duas vitórias seguintes do PT na disputa pela presidência da República, já com Dilma Rousseff como candidata.

De início, a relação entre Santana e Dilma não era boa, como o próprio marqueteiro relatou em entrevistas. Coube a Lula aproximá-los em nome da candidatura criada para dar sequência ao legado petista no Palácio do Planalto. Após o início ruim, publicitário e presidenta se entenderam tão bem que Santana virou uma espécie de ministro da propaganda informal do Governo, e passou a ser consultado por Dilma, junto com ministros e líderes do PT, antes de cada uma de suas aparições públicas.

Sempre muito discreto e pouco afeito a entrevistas, Santana acabaria virando protagonista na campanha de reeleição de Dilma. É ele que assina uma das peças mais polêmicas da campanha eleitoral de 2014. A propaganda rebatia uma proposta de Marina Silva, uma das principais adversárias de Dilma, que propunha atribuir autonomia ao Banco Central. Para o PT, isso significava entregar a instituição aos banqueiros, o que faria – como exibia o vídeo – a comida sumir da mesa do brasileiro. Dias depois de eleita, Dilma chamou um banqueiro (Joaquim Levy) para dirigir a economia do país.

Mesmo depois de Levy ter deixado o Ministério da Fazenda — pouco menos de um ano após assumir o cargo —, a presidenta segue carregando a pecha de ter mentido durante a campanha, e não apenas por essa contradição. Os meses que se seguiram à sua reeleição ampliaram progressivamente a distância entre o Brasil pintado por João Santana na propaganda partidária e o país real, no qual as taxas de desemprego e a inflação só subiram desde a reeleição.

Ainda assim, o marqueteiro — que, como jornalista na década de 1990, já havia contribuído para a queda de Fernando Collor de Melo da presidência da República, com uma reportagem na revista IstoÉ — seguiu prestigiado. Agora, contudo, o homem que se tornou famoso por eleger candidatos continente afora terá de convencer a justiça brasileira, e sob o risco de acabar condenado se não conseguir.

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