ARS POETICA

Poesia é coisa
De mulheres.
Um serviço usual,
Reacender de fogos.
Nas esquinas da morte,
Enterrei a gorda
Placenta enxundiosa

E caminhei serena
Sobre as brasas
Até o lado de lá
Onde o demônio habita.

Poesia é sempre assim:
Uma alquimia de fetos,
Um lento porejar
De venenos sob a pele.

Poesia é a arte
Da rapina.
Não a caça, propriamente,
Mas sempre nas mãos
Um lampejo de sangue.

Em vão,
Procuro meu destino:
No pássaro esquartejado
A escritura das vísceras.

Poesia como antojos,
Como um ventre crescendo,
A pele esticada
De úteros estalando.

Poesia é esta paixão
Delicada e perversa,
Esta umidade perolada
A escorrer de meu corpo,

Empapando-me as roupas
Como uma água de febre.

Myriam é escritora, poeta, jornalista e biógrafa. Faz parte da Academia de Letras da Bahia. Publicou Marinhas, O risco na pele, As purificações ou o sinal de talião, Femina, Uma casa de palavras, entre outros.

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Comentários

regina on 16 Fevereiro, 2016 at 18:11 #

Corpo

O corpo,
Esta ilusão,

A transparência
Onde o tempo se inscreve,

A esculpida
Relembrança
— o não vivido.

O corpo,
Este completo desfrutar-se,
Onda, peixe, sereia,
De barbatanas selvagens
Como facas.

Corpo — o corpo,
Território do nunca,
Inigualável
País do meu espanto.

De todos os espantos.
(des)encontros, naufrágios,
Precipícios.

Pássaro-fêmea, carne
Colada em moldura,
Pele, poro.

Myriam Fraga

https://passeipostei.wordpress.com/2013/01/27/poemas-de-myriam-fraga/

http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/bahia/myriam_fraga.html


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