ARS POETICA

Poesia é coisa
De mulheres.
Um serviço usual,
Reacender de fogos.
Nas esquinas da morte,
Enterrei a gorda
Placenta enxundiosa

E caminhei serena
Sobre as brasas
Até o lado de lá
Onde o demônio habita.

Poesia é sempre assim:
Uma alquimia de fetos,
Um lento porejar
De venenos sob a pele.

Poesia é a arte
Da rapina.
Não a caça, propriamente,
Mas sempre nas mãos
Um lampejo de sangue.

Em vão,
Procuro meu destino:
No pássaro esquartejado
A escritura das vísceras.

Poesia como antojos,
Como um ventre crescendo,
A pele esticada
De úteros estalando.

Poesia é esta paixão
Delicada e perversa,
Esta umidade perolada
A escorrer de meu corpo,

Empapando-me as roupas
Como uma água de febre.

Myriam é escritora, poeta, jornalista e biógrafa. Faz parte da Academia de Letras da Bahia. Publicou Marinhas, O risco na pele, As purificações ou o sinal de talião, Femina, Uma casa de palavras, entre outros.

DEU NO CORREIO 24HORAS

Marília Moreira (marilia.silva@correio24horas.com.br)

Morreu na tarde de ontem (15), em Salvador, aos 78 anos, a escritora, poeta da Academia de Letras da Bahia e diretora fundadora da Fundação Casa de Jorge Amado, Myriam Fraga. A escritora foi sepultada na manhã desta terça-feira, 16, no cemitério Jardim da Saudade (Brotas)

Segundo a Fundação Casa de Jorge Amado, instituição que ela dirigiu por 30 anos, Myriam sofria de leucemia e estava internada desde o último dia 20 de janeiro no Hospital Aliança. Ela foi diagnosticada com a doença recentemente e passava por um tratamento brando, já que não tinha idade recomendada para a realização de um transplante. O óbito foi confirmado por volta das 13h desta segunda-feira. O sepultamento será realizado nesta terça (16), às 11h, no cemitério Jardim da Saudade.

No Facebook, o governador Rui Costa afirmou que a literatura brasileira perdeu hoje um grande talento. “Myriam Fraga levou poesia ao mundo. Mulher baiana, de São Salvador, inquietou seus leitores, nos fez refletir sobre o contraditório, a essência do feminino, sobre o país, e muito contribuiu para que nossa cultura fosse disseminada. Myriam deixa sua obra e a saudade. Em suas palavras: ‘escrever liberta’. Que Deus conforte os familiares e amigos”, escreveu.

Também pelas redes sociais, o prefeito ACM Neto destacou a importância de Myriam para o desenvolvimento da cultura baiana. “Ela foi fundamental para organizar e catalogar todo o acervo de Jorge Amado, que está à disposição na fundação que leva o nome do escritor”, comentou.

A morte da escritora também foi lamentada por amigos da área, como pelos escritores José Carlos Capinam e Ruy Espinheira Filho. “Fico consternado e acho uma perda para a inteligência, a poesia e a criatividade baianas insubstituível. Perda lamentável e precoce, porque ela ainda levava uma vida atuante, estava criando coisas, preparando novos livros. É uma surpresa dolorosa, muito triste! A academia perde muito com a ausência dela. Perdemos duas grandes mulheres em pouco tempo, aliás, Consuelo [Pondé] e Myriam”, disse Capinam.

“Myriam Fraga era minha amiga, mas o mais importante era que ela era a melhor poeta do país. Tem outras mais conhecidas e badaladas, indicadas por professores na academia, que são muito inferiores. É muito difícil ser baiano, se não for do axé e coisas desse tipo…Toda vez que tinha essa oportunidade, eu dizia isso. Essa perda é uma perda nacional muito forte. Não só pela poesia dela, mas pelo trabalho à frente da Fundação Casa de Jorge Amado e também pelo trabalho na Funceb nos anos 70/80. Tudo que ela tocou, ficou precioso! Myriam era uma pessoa extremamente generosa”, lembrou Ruy Espinheira Filho.

Myriam Fraga nasceu em 9 de novembro de 1937, em Salvador. Começou a escrever no fim da década de 1950, publicando seus primeiros poemas em jornais e revistas. Seu primeiro livro foi publicado em 1964, pela editora Macunaíma, de Glauber Rocha. Lançou, no total, 13 livros poéticos e teve seus poemas traduzidos para o inglês, o francês e o alemão, participando de diversas antologias nacionais e internacionais.

Ela foi a primeira diretora da Fundação Casa de Jorge Amado, no Pelourinho. O local conta com uma exposição permanente de documentos, fotografias e livros do casal Jorge Amado e Zélia Gattai. Também estão expostos prêmios recebidos por Jorge e fotos tiradas por Zélia Gattai, documentando o dia-a-dia do autor.

DEU NO BLOG POR ESCRITO (DO JORNALISTA LUIS AUGUSTO GOMES)

OPINIÃO

Troca-troca responde ao interesse dos mesmos

A “janela” a ser escancarada ainda esta semana por 30 dias, para que deputados, senadores e vereadores troquem de partido sem risco de perda do mandato, traduz com perfeição o espírito da reforma política que se pretendeu fazer no Brasil em 2015.

O resultado é a perda, mais ainda, de função dos partidos como células do regime democrático, transformados em meros aparatos jurídicos, dissociados do que seria a essência de sua existência.

Quadros, propostas e mesmo alianças vivem em permanente rotatividade, refletindo as circunstâncias da eventualidade e impossibilitando a identificação de programas e a participação popular.

O importante, segundo a interpretação vigente, é que as coisas não mudem, e o poder continue sendo conquistado e ampliado pelos que já o detêm, não em favor da nação, mas de interesses até criminosos de grupos e pessoas.

Infidelidade é a regra que a política cultua

Infidelidade partidária sempre foi um conceito etéreo no país, embora exista de longa data. Tanto que foi necessário o TSE intervir com uma resolução em 2007 para que o princípio sofresse uma mínima moralização.

Foram impostas, então, para admissibilidade de mudança, algumas limitações, como a necessidade de “justa causa” ou a criação de nova legenda, instrumentos que não demonstram eficácia alguma, dada a profusão de legendas e de recursos judiciais, e a troca de partidos não parou.

Recentemente, foram relaxadas as restrições para a desfiliação de detentores de mandatos majoritários – governadores, senadores, prefeitos e até o presidente, se for o caso.

País pode esperar outra “janela” no futuro

Sempre prevaleceram, enfim, medidas que não contribuem para o fortalecimento do sistema partidário – antes o enfraquecem, como a queda da cláusula de barreira e da verticalização de coligações.

A primeira permite que continuem existindo e, portanto, usufruindo de recursos públicos e tempo de rádio e TV, partidos sem representação popular mínima, uns “ideológicos” que nada mais têm de ideológicos, outros, puras cafuas.

A verticalização obrigaria aos partidos ter em alianças regionais apenas legendas que fizessem parte da aliança nacional, num processo que, em tese, tenderia à unidade de pensamento.

A “janela” é aberta no clima de liberou-geral pós-Carnaval. Se há algo de que não se pode duvidar é que nova fórmula virá, em tempo hábil, quando o “equilíbrio” de agora estiver desgastado.

Por mais dignidade para o descompromisso

Renovamos aqui nossa sugestão de que seja revogada a sintomática denominação de “janela”, que sugere o ato ilícito de invasão furtiva de propriedade alheia.

A natureza do entra-e-sai de partidos poderia ser mais bem caracterizada por “porta-giratória”.

Na ausência de recursos para implantação desta, poderiam ser usadas as com molas, como nos salões de filmes de faroeste.

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16

Este samba e a interpretação são, verdadeiramente, preciosidades da música brasileira. Confira.

BOM DIA

(Vitor Hugo Soares)

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DO EL PAIS

A morte de Antonin Scalia, juiz do Supremo Tribunal dos Estados Unidos e ícone conservador, abre uma batalha política que definirá o último período da presidência do democrata Barack Obama. Os republicanos querem bloquear a nomeação do sucessor de Scalia até que o próximo presidente assuma o cargo em janeiro de 2017. Obama, apesar das ameaças da oposição, proporá um novo juiz. As eleições de 8 de novembro não decidirão apenas o nome do comandante em chefe nem a composição do Congresso, mas provavelmente também o do Supremo, órgão máximo do judiciário do país.

Scalia morreu na noite de sexta para sábado de causas naturais em um rancho no Texas. Tinha 79 anos. É frequente que um juiz deixe vago o cargo ao aposentar-se por vontade própria. A morte de um membro do Supremo é incomum. A última vez que aconteceu foi em 2005, quando faleceu o presidente do tribunal, William Rehnquist.

Seja por aposentadoria ou falecimento, a eleição de um dos nove membros do Supremo Tribunal sempre é um momento forte da democracia norte-americana. Porque o cargo é vitalício: uma vez eleito, não se volta atrás. E porque o Supremo é, ao lado do Congresso e da Casa Branca, um dos três pilares da democracia norte-americana, frequentemente mais influente do que os outros dois.

Foi o Supremo que acabou com a segregação nas escolas, que legalizou o aborto, que deu a vitória a George W. Bush nas eleições presidenciais de 2000, ou que consagrou, em junho passado, o direito de se casar às pessoas do mesmo sexo. O Supremo moldou a sociedade norte-americana como poucos presidentes sozinhos fizeram.

Quando um juiz como Scalia deixa sua vaga no tribunal, o que está em jogo é muito maior. Scalia, além de um dos membros mais conservadores do tribunal, era uma estrela intelectual e política da direita. Nomeado pelo presidente republicano Ronald Reagan em 1986, católico, filho de um imigrante italiano, pai de nove filhos e avô de 36 netos, Scalia era um juiz-filósofo, uma das figuras isoladas do originalismo, a doutrina segundo a qual a Constituição deve ser lida em seu sentido literal, tal como seus redatores a conceberam no fim do século XVIII e tal como os norte-americanos a entendiam então. Com sua dialética combativa e sarcástica, Scalia defendeu o direito a portar armas de fogo e à pena de morte e se opôs ao casamento homossexual e à discriminação positiva. Em virtude do originalismo, também defendeu, apesar de contradizer seu patriotismo, o direito a queimar a bandeira.
Possíveis substitutos

Como Obama é democrata, o mais provável é que nomeie um progressista como substituto. Entre os nomes aventados estão juízes nascidos no exterior, reflexo da diversidade dos EUA, como Sri Srinivasan ou Jacqueline Nguyen.

O problema de Obama é que pode designar o sucessor de Scalia, mas precisa que o Senado o ratifique. E o Partido Republicano, com 54 de 100 cadeiras, pode bloqueá-lo. No sábado, poucas horas depois que se soube da morte de Scalia, o líder da maioria republicana, Mitch McConnell, deu a entender que seu grupo vetaria qualquer proposta de Obama. “O povo americano deve ter voz na escolha do próximo juiz do Supremo Tribunal. Portanto, a vaga não deveria ser preenchida até que tenhamos um novo presidente”, disse.

O argumento, referendado por vários candidatos à nomeação republicana à Casa Branca, é que Obama é um presidente de saída, e que cabe a seu sucessor, a ser eleito em novembro, o direito de decidir quem substituirá Scalia. A última vez que um juiz foi confirmado no último ano de uma presidência foi em 1988, com Anthony Kennedy, proposto por Reagan.

“Pretendo cumprir minhas responsabilidades constitucionais e nomear um sucessor”, disse o presidente. Os democratas acreditam que os republicanos abdicam de sua responsabilidade constitucional se no mínimo não submeterem o candidato de Obama a uma votação.

No momento, a morte de Scalia deixa um tribunal com oito juízes e decisões de peso em assuntos como a reforma migratória. Sobre o papel, há um empate entre progressistas e conservadores, quatro a quatro, ainda que um dos conservadores, Kennedy, costume oscilar entre as duas posições em seu voto.

A batalha pela sucessão de Scalia será uma das últimas a serem travadas por Obama com um Congresso hostil desde que, em 2010, o Partido Republicano obteve o controle da Câmara dos Representantes. O desfecho lógico de uma presidência marcada pela polarização partidária e o bloqueio sistemático, por parte da oposição, das principais iniciativas da Casa Branca.

É uma batalha ideológica sobre o modelo de país: poucos como Scalia articulavam de forma tão brilhante os argumentos da direita tradicionalista em um país em plena mudança demográfica e social. E é uma batalha eleitoral. A confirmação do sucessor de Scalia ocupa desde hoje o centro da campanha: quem ganhar nomeará o próximo juiz. Se a confirmação for vetada, em novembro se decidirá, além do nome do presidente, se o próximo tribunal será mais progressista ou mais conservador.
Um ogro afável em um ninho de escorpiões

Para a esquerda, Antonin Nino Scalia era o que havia de mais parecido a um ogro direitista, um espadachim intelectual. Suas intervenções no Supremo eram dignas do melhor parlamentarismo. Seus textos, perfeitos para uma antologia do pensamento conservador.

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16
Posted on 16-02-2016
Filed Under (Artigos) by vitor on 16-02-2016


Sid, no portal de humor gráfico A Charge Online

fev
16
Posted on 16-02-2016
Filed Under (Artigos) by vitor on 16-02-2016

DEU NO BLOG O ANTAGONISTA

CULTURA

A “autoridade” é uma criatura comum para o sujeito que mora em Brasília. O brasiliense natural ou de adoção entende a “autoridade” e se acostumou a ela da mesma forma que está conformado com os 6 meses de seca, à falta de calçadas nas ruas, ao lixo aberto nos contêineres e à feiura dos fundos das quadras comerciais da asa sul e à solidão da Esplanada nos domingos e feriados.

A “autoridade” brasiliense tem assento cativo nos chamados Tribunais Superiores. Tem também no Congresso, no Executivo, mas isso é assunto para outro momento. Os Tribunais Superiores são bem mais interessantes. E têm uma correlação muito estreita com nossa história e a história de nossas elites. Aliás, os Tribunais Superiores são muitíssimos ligados ao Congresso e, poucos entendem, são cara e coroa.

A “autoridade” de um Tribunal Superior, qualquer que seja ele, pensa, parafraseando um ditado argentino, que o dinheiro vem do contracheque. A partir dessa premissa, para essa “autoridade” tudo é pouco. Seu senso de poder e de direito é muito maior que o de obrigação.

Essa criatura do Planalto Central adora mordomias. Aliás, não entende como mordomias, entende como um direito natural, quase divino. A revista Veja publicou, em suas páginas amarelas, uma entrevista com uma Justice da Corte Suprema norte-americana. Ela relatou, sem maiores problemas, que não possuía carro oficial nem motorista. Disse, acreditem, que o único benefício que possuía era uma garagem definida.

Meus caros, em Brasília, todas, absolutamente todas as “autoridades” possuem carro do ano (ou quase), com motoristas à disposição. Na Suprema Corte americana, somente John Roberts, o Presidente, tem essa regalia. Bem, se isso acontece na Suprema Corte americana, deve ser assim no resto dos Tribunais daquele pobre país.

Mas, se o carro com motorista é algo tão natural como a gravata, saibam vocês que existem inúmeros auxílios que fazem com que o chamado teto constitucional seja uma piada para criança. Existem auxílios para todos os gostos: e moradia para quem possui imóvel no local, de paletó, de cursos de inglês, de cursos diversos, médico — uma miríade que mostra a inventividade dos legisladores.

Acabou? Não, há os chamados “atrasados”. Nesses Tribunais, administrativamente, de vez em quando se encontra sobra orçamentária substantiva para pagar os chamados “atrasados” a essas “autoridades”. E naturalmente não faltam assessores dedicados, conhecedores do direito para lhes dar uma mão nessas verbas, não poucas vezes, astronômicas. Coisa de 3 a 4 anos de remuneração bruta como já pude ver.

Ah, então tem também os assessores! Sim, o assessor da “autoridade” é uma criatura formidável nestas terras. Ele é o sujeito que sempre adivinha o que a “autoridade” quer e pensa. Isso é bem interessante. Para se manter no cargo, o assessor é o anjo da guarda da “autoridade”. Ele não é um servidor do Estado, é o servidor da “autoridade” e por isso entende os seus desejos e necessidades antes daquele. Criatura pitoresca, ele sente um prazer existencial em servir, às vezes em ser capacho (nesses casos replica o modelo aos seus subordinados) e em ser “competente”. A referida competência, frise-se, é para os desígnios da autoridade, e não do Estado. Há assessores, por exemplo, que são hábeis na preparação do power point daquele cursinho Walita que a “autoridade” “ministra” toda semana, normalmente para servidores públicos e pago com o dinheiro do contribuinte. Aliás, essa é mais uma fonte de renda da “autoridade”, o cursinho Walita, recheado com as últimas jurisprudências desses mesmos Tribunais Superiores, que lhes rende, seguramente, duas ou três remunerações a mais no final do mês.

José Murilo de Carvalho em seu ótimo “A Construção da Ordem” (sua tese de doutorado em Stanford), descreve com precisão a elite do Império no Brasil. Ao reler o livro é muito interessante notar que nossa elite atual, especialmente a elite da burocracia, mudou pouco. Ainda podemos dizer que no Brasil, ao menos em qualidade, existe uma elite de letrados num mar de analfabetos funcionais. E, em Brasília, entre as “autoridades” e seus cuidadosos assessores, a socialização ainda se dá por intermédio dos cursos de Direito, da mesma forma que Carvalho descrevia aquela antiga elite do Império que se formava em Coimbra.

Quando se questiona o motivo de o brasileiro médio amar o Estado e odiar seus políticos, talvez aqui esteja a chave de interpretação. O emprego público, o sonho de uma vaga de assessor e, quem sabe, um dia tornar-se “autoridade” povoa as mentes nessas terras. Aliás, o emprego público favorece a orientação estatista. E nada melhor do que emprego público ancorado no Direito e na perspectiva de se tornar um “magistrado”.

O burocrata bacharel em direito é um ator de manutenção de toda essa ordem que descrevi, muito canhestramente, acima.

Esse burocrata bacharel assessor é a tal “hidra regulamentarista, lagarta tramitadora, rei do papel timbrado, ” que nos falava Don Rigoberto, um louco com método que quer, a todo custo, tornar a vida do cidadão e do contribuinte um inferno para dar o paraíso na Terra a seus assemelhados e para a “autoridade” que ele serve.

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