Fernando Pessoa com Costa Brochado no
Café Martinho da Arcadia (Lisboa)

Uma quase carta a Fernando Pessoa

Janio Ferreira Soares

Meu caro poeta: antes que algum ardoroso fã se enfureça pela ideia inicial deste ribeirinho de águas tão distantes em lhe escrever umas linhas tortas, gostaria de esclarecer os motivos que quase me levaram a cometê-las. É que depois de anos e anos inventando mil desculpas, finalmente saí das margens do meu rio e, no momento em que teclo este texto, me encontro exatamente a mirar seu Tejo, mais precisamente sentado numa mesa do Café Martinho da Arcada, local por demais aprazível, mas que, suponho, deva sua longevidade mais ao fato de você tê-lo frequentado assiduamente, do que pelo seu correto pasto. “Olha o bonde tirando fino nas paredes, Luanzinho!”, grita a mãe de sotaque nordestino para um menino mais preocupado com seu novo telemóvel do que em olhar os Elétricos que passam triscando os muros da Praça do Comércio. Melhor pedir um vinho.

Com um branco do Douro comboiando à perfeição umas amêijoas à Bulhão Pato, observo calmamente o lugar, cuja atmosfera, repito, se propõe mais a preservar a presença do poeta em cada canto da casa, que por lá se mantém como se fora uma espécie de divindade suprema concebida por belas fotografias – suas e de seus documentos -, que parecem estar ali justamente como uma forma de confirmar a veracidade das lendas que rolam. Antes de pedir a segunda garrafa, olho para a mesa onde ele rabiscava seus poemas enquanto se entorpecia com generosas doses de absinto e pergunto a um garçom visivelmente entediado em repetir suas histórias, se o seu destilado era daqueles que derrubava elefantes. Enchendo minha taça, ele faz aquele ar bem característico dos portugueses, tipo: “mas tu devias saber, ó gajo ignorante!” e responde que “sim, sim, sim, naquele tempo a bebida tinha 90 graus de álcool e era praticamente um entorpecente”. Sua resposta me fez lembrar de quando, também empurrado pelas afoitezas da juventude, eu pegava um absinto Neto Costa (nesse caso com “apenas” 57 graus), algumas cervejas e saía num jipe 66 pelas manhãs do sertão, tendo como companhia uns poucos e bons, além daquelas necessárias canções que têm o dom de transformar quaisquer estradas e paisagens em alguma coisa a ver com o paraíso (a propósito, numa das vezes o absinto pegou tão forte num querido amigo, que ele ficou um bom tempo se comunicando com um imaginário pica-pau através de batidas num tronco oco de uma árvore cumpizada).

Peço a conta e antes de pagá-la fico um bom tempo diante de sua mesa, imaginando se nela houve alguma farra com a presença de seus heterônimos Ricardo Reis, Álvaro de Campos e o meu favorito, Alberto Caeiro – seu velho mestre que, segundo a imaginação de Pessoa, morava com os avós no interior depois de ter ficado órfão muito cedo. Mas isso é papo pra outras viagens.

Conta paga, visto meu casaco, pego Baco pelo braço e juntos saímos cambaleando pela fria e cinzenta beira do Tejo, que, como no poema de Caeiro, por instantes poderia até ser mais belo que o rio que um dia correu pela minha aldeia. Mas, justamente por não o fazê-lo, o Tejo jamais será tão bonito como aquelas águas que hoje vivem enclausuradas por entre barragens de concreto e que, do velho rio, só sobrou o nome de santo. Um brinde a Pessoa, Ricardo, Caiero, Álvaro e a todos os bêbados e rios do mundo. Tim, Tim!

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na beira baiana do Rio São Francisco.

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 15 Fevereiro, 2016 at 8:01 #

Tim Tim!!! (com admiração plena, teu texto exala o aroma de versos de Caiero. Mas, também o brindo, com um rasgo de vergonha, por ter acordado sem um tiquinho, sequer, de ressaca)


vitor on 15 Fevereiro, 2016 at 10:50 #

JANIO

Quando passar no Chiado (no Bairro Aldo) dê uma paradinha também na A Brasileira, outro ponto quase obrigatório nos fins de tarde de Fernando Pessoa em Lisboa.Lá, ao lado do busto do poeta tome umas taças ou garrafas de Porca de Murça (de boa reserva) por este seu amigo e admirador, também nascido na beira do São Francisco. E antes de voltar ao rio da nossa aldeia, não esqueça de comprar (se ainda não o fez) o novo disco de Carlos do Carmo (um primor) recém lançado nas comemorações dos 50 anos de carreira (acho) do grande artista português.Tim Tim!!!


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