Postado em sua página no Facebook pela jornalista Rosane Santana, em compartilhamento da página do jornalista e poeta Florisvaldo Mattos. Leitura mais que recvomendada para estes dias de carnaval.

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Florisvaldo Mattos

Ê BACO BUCÓLICO!

A folia tem seus atrativos, mas há quem prefira cultuar Baco fora dela, como o cronista e poeta de alturas everestianas Ruy Espinheira Filho, que partiu para seu retiro bucólico bafejado pelo mar e, lá, entre livros de leitura útil e prazerosa, fruir o melhor que a beleza do ambiente lhe propicia, como confessa neste seu artigo publicado hoje, cujo tema é o Carnaval baiano, o de hoje confrontado causticamente com o de outras eras. Distante também da grande farra sensorial, eu prefiro usufruir do ambiente doméstico, lendo e folheando livros sobre pintura e pintores, o que ocorreu hoje com um sobre Van Gogh, onde me deparo com o bucolismo dos lírios, como estes mirados por ele em 1887. Abaixo, o texto de REF e reprodução da pintura do holandês.

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O CARNAVAL E OUTROS TEMPOS

RUY ESPINHEIRA FILHO

E eis que estamos novamente pisando o território do Carnaval. Noutros tempos, estaria eu já na linha de frente – mas agora fugirei para bem longe, na companhia do notebook e de muito bons livros. Dirão os irônicos: quem te viu, quem te vê… Não importa, não nego a fuga. Mas também não aceito que pensem que estou velho, caquético – pois para mim o que está velho e caquético é o nosso outrora maravilhoso Carnaval. Velhice que começou há uns trinta anos, com a ascensão da mediocridade, que hoje domina a festa em toda parte – a começar dos patrocínios oficiais.
É a cultura do tempo, dizem alguns. Certamente que é, o que não deixa de ser lamentável. Uma definição clássica da cultura é que ela é “tudo o que o homem acrescenta à Natureza”. Tudo, vejam só… É por isso que os políticos, grande parte da mídia e toda a picaretagem de falsos artistas adoram pronunciar a palavra Cultura: serve para qualquer coisa. Cultura é também ignorância, claro, e certamente – que os de quatro patas me perdoem – burrice.
Assim, o mais saudável é o caminho da fuga. Que, na verdade, não é uma fuga – é mais um gesto de defesa pessoal. Defesa do direito ao silêncio, à tranquilidade, ao cultivo de uma Cultura mais exigente. Imagino que, como está na moda, alguns murmurem – ou até gritem – que minha atitude é “elitista”. Pois é: antigamente eu era uma espécie de subversivo – agora sou “elite”. Ou seja: reacionário favorável ao estudo e ao cultivo do bom gosto. É, sei que passaram a dizer que o “bom gosto” não existe, assim como a qualidade: tudo vale a mesma coisa, de um sermão de Vieira a uma fala de Tiririca. Ou apreciamos e respeitamos tudo, de acordo com o politicamente correto, ou somos “elitistas”.
É, para quem fez a cabeça nos últimos tempos, tudo bem. Mas para quem nasceu em época mais crítica é uma situação inaceitável. Lembro que ninguém passava no Exame de Admissão ao Ginásio se não soubesse escrever corretamente, ao menos em grande parte, porque cada erro era descontado da nota final. Hoje, com a nova mentalidade, tem até analfabeto entrando nas universidades. Parece incrível, mas nas universidades há hoje cursos de redação – o que antes era aprendido no curso primário…
Será o chamado progresso? Bem, o progresso também é relativo, depende da mentalidade de cada um. Para Hitler, progresso era acabar com os judeus e outras etnias, com os homossexuais, com os intelectuais e artistas, com a democracia e submeter o mundo à estupidez nazista. Para os maoístas, obrigar professores, cientistas, intelectuais e artistas e trabalhar no campo, onde foram humilhados e morreram aos montes, o que ocorreu na abominável Revolução Cultural. Para Stalin, perseguir intelectuais e artistas, enviando-os para morrer na Sibéria ou simplesmente pondo-os diante de um pelotão de fuzilamento. Porque eram “elite”, porque de fato viam – e denunciavam – aquelas hediondas políticas. E tinham o inaceitável “bom gosto”…
Ah, o bom gosto não existe? Pois existe, como existe o mau gosto. Não adiante negar. Vamos comparar Dorival Caymmi e… Ah, deixa pra lá, quem sabe, sabe. Já que falamos de música, minha geração frequentava o Circuito Universitário com Vinícius de Moraes, cultuava Tom Jobim, Baden-Powell, Elisete Cardoso, o MPB 4, depois o Chico Buarque (tão odiado pelos imbecis de hoje) – e antes toda uma tradição cintilante que vem de Chiquinha Gonzaga e segue com Noel Rosa, Vadico, Pixinguinha, Lamartine Babo, Ary Barroso e tantos mais. E a turma lia filósofos, poetas, ficcionistas… Mas chega, vou fugir. Para o passado, se quiserem. O que só pode ser feito por quem tem a sorte de possuir um passado no qual pode se refugiar…

Rui Espinheira Filho

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Comentários

Daniel on 7 Fevereiro, 2016 at 9:22 #

Retirando o trecho corporativista e equivocado do “depois o Chico Buarque (tão odiado pelos imbecis de hoje)”, entendo o desabafo como uma postura justa.


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