Rosa Passos,”É Luxo Só”, de Ary Barroso, para sambar no Pelô! Ou em casa.

BOA TARDE !!!

(Gilson Nogueira)

DO JORNAL A TARDE

Patrícia França

Principal anfitrião do Expresso 2222, o camarote mais disputado por políticos, artistas e celebridades do circuito Dodô (Barra-Ondina), o cantor e ex-ministro da Cultura Gilberto Gil lamentou que o Carnaval, com a sua capacidade de “exorcizar os males, os demônios e realizar os gestos de aproximação mútua entre as pessoas”, só dure seis dias do ano. Ele diz que na festa as divergências políticas são deixadas de lado e os gestores não se sentem tolhidos em atender a demandas da população. Nesta entrevista ao A TARDE, Gil falou sobre o momento vivido pelo país, como corrupção, Lava Jato e impeachment, e disse que, apesar da crise, tem fé numa saída. “Sou um poeta, um homem que acredita em milagre”.

O ministro da Cultura, Juca Ferreira, seu braço direito do MinC, está sendo cotado no PT como um nome forte para disputar a prefeitura de Salvador e…?

Tá? Não percebi isso, não. Percebi que ele tem vontade, é uma coisa que ele já manifestou há muitos anos. Eu sou muito aproximado de Juca, sei que ele tem vontade de ser prefeito de Salvador, sei que está pleiteando. Mas não tenho nenhuma informação sobre acolhimento no partido.

“Não tenho nenhuma informação sobre acolhimento no partido”

Mas é um bom nome?

Eu acho um ótimo nome. Acho que seria um bom prefeito, primeiro, pela vontade que ele tem, e, depois, pela experiência que tem acumulada nos últimos anos, pela ligação muito próxima com Salvador, nos vários momentos em que ele dialogou fortemente com a cidade.

Sempre se questiona a realização de uma festa grandiosa como é o Carnaval, sobretudo em momento de crise econômica como a que vivemos. Mas, aqui na Bahia, o governador Rui Costa (PT) e o prefeito ACM Neto (DEM) entraram numa forte disputa para garantir investimentos na cidade e patrocinar a festa. Como você vê isso?

Eles não são loucos, né, de não entrarem numa disputa deste tipo (risos). Atrapalhar a festa, os dois sairiam perdendo. Eles sabem que a festa é uma demanda natural da cidade, e uma das obrigações tanto do prefeito como do governador é satisfazer, na medida do possível, as demandas da sociedade. Esta é uma das demandas claras, postas, nítidas, ajudar o povo a realizar a festa, ajudar o povo a transformar a festa num momento de catarse, de purgação, num momento de superação de suas dores e num momento balsâmico. Então eles sabem que se não ajudarem o povo a fazer a festa, o povo não vai ajudá-los em nada em qualquer outra iniciativa que eles queiram ter (gargalhadas). Porque nem só de pão vive o homem. A gente precisa, e cada vez mais o mundo mostra claramente isso, essa coisa de nós nos submetermos à escravidão do trabalho , à lógica brutal do produtivismo. Isto não está levando o mundo para lugar melhor nenhum. O que ainda melhora o mundo um pouco é isso, é a espiritualidade, é a capacidade de exorcizar os males, exorcizar os demônios, realizar os gestos de aproximação mútua entre as pessoas. A festa é um dos melhores elementos para isso.

O homem público deveria, então, transformar os 365 dias do ano em festa, porque nestes dias de Carnaval se vê um empenho em atender a demandas como segurança, saúde?

Eu vi uma entrevista do Paulo Miguez (doutor em comunicação e cultura contemporânea Ufba) dizendo exatamente isso. Nenhum momento a cidade é melhor do que no Carnaval (mais risos). No Carnaval ela fica melhor. As divergências políticas não limitam, não tolhem os gestores públicos no sentido de dar a contribuição necessária e suficiente, que cada um pode dar, para a realização da festa.

Pena que só são seis dias, né?

É… Miguez também lembra que os carnavais de Veneza duravam seis meses. A gente aqui não tem ainda essa sorte de que os carnavais durem seis meses (mais gargalhadas), mas vamos esperar que tenhamos onde a generosidade tome um pouco o lugar da ganância.

Falando em crise, o que achou da iniciativa da presidente Dilma Rousseff em reunir 90 notáveis de vários segmentos da sociedade, entre os quais o ator baiano Wagner Moura, para encontrar alternativas que levem o Brasil a sair da crise?

Um dos aspectos mais insistentes nas críticas que se fazem à presidente é o fato de que ela não dialoga, não investe na aproximação com os vários setores da vida política, não trabalha no sentido mais ecumênico da política. Então, tenho impressão de que os gestos todos dela são nesta direção, de tornar uma gestão mais ativa, mais partilhada, de trazer a situação e os partidos que a apoiam para a realidade e, também, a oposição mais para a realidade. Fazer com que a oposição deixa de lado a mesquinharia política que caracteriza seus gestos, muitos dos gestos de bloqueio e impedimento ao trabalho dela, para virem fazer o trabalho compartilhado. Que venham para o Carnaval (pausa para gargalhada). A oposição precisa entrar no Carnaval da política.
“A oposição precisa entrar no Carnaval da política”

Mas a presidente não está enfrentando apenas a resistência da oposição, também dentro do seu próprio partido, o PT.

É o que falei, as queixas que começam dentro do próprio partido dela e depois se estendem à própria oposição. Ou seja, um amesquinhamento, uma naturalização da mesquinhez que fica um dado presente na política. E olhe bem que não é no Brasil só, é no mundo inteiro. A política se apequenou muito porque ela foi submetida aos desígnios do mundo econômico. Pior do que isso, do mundo financeiro.

Então você acha que a reativação do Conselhão, a ida da presidente na abertura dos trabalhos no Congresso, vai de fato resultar num chamamento, inclusive arrefecer o processo de impeachment?

Ao mesmo tempo há de se considerar a questão dos talentos e das habilidades. Nem todas as pessoas são igualmente habilidosas ou talentosas para o exercício especialmente complexo da política. Um dos argumentos do impeachment é esse, de que deveríamos substituir a presidente Dilma por alguém que fosse mais habilidoso, mais competente, mais vocacionado para essa função do estímulo ao diálogo. Então, também tem esse fator, ninguém sabe até que ponto a presidente Dilma será capaz de estabelecer esse novo modo de condução da política no Brasil. Por quê? Porque ninguém sabe até onde vão as habilidades, o talento dela para isso.


Gil ao lado da mulher Flora Gil no camarote Expresso 2222 (Foto: Edilson Lima | Ag. A TARDE)

E qual a sua avaliação?

Eu sempre torço (a favor). Eu torci até pelo Collor (ex-presidente hoje senador do PTB-AL, que sofreu o impeachment em 1992). Isso basta para dizer. Quando Collor foi presidente, eu torci para que ele fizesse uma boa presidência. Torci por Itamar, por Sarney, por Fernando Henrique, torci por Lula, torço por Dilma. Torço para quem vier a ser presidente da República. Não gosto de ser subordinado aos vieses ideológicos. No ano passado, um rapaz brigou comigo aqui no camarote porque disse que eu estava aderindo ao Neto (prefeito de Salvador). Eu disse: ‘Meu filho, ele é prefeito da minha cidade, eu torço por ele, tudo o que eu puder fazer para ajudá-lo a fazer uma boa gestão, eu faço. Se você não faz, é problema seu, eu faço…’ (mais risos).

E o processo do impeachment morreu, como dizem?

Eu acho. Acredito que é uma aventura política e uma fantasia jurídica. Já disse isso publicamente e continua achando. Apesar de respeitar uma defesa que muitos fazem, muito justa, de que nós devemos aproveitar esse momento para enriquecer a concepção sobre o impeachment. Abrir mão de certas posições rígidas em relação ao impeachment, a favor ou contra. Os que são a favor, tentar entender um pouco melhor os que são contra e vice-versa. Porque é um momento importante para isso, de enriquecimento da institucionalidade política brasileira, visando ao futuro. Mas no momento, não acho que seja bom afastar a presidente sobre as tais alegações que estão por aí. Posso até estar errado, mas acho.

Você falou em ausência de habilidades e talentos da presidente Dilma. Isso não preocupa, porque ainda temos três anos de governo pela frente e uma crise grave na economia?

Não me preocupa muito, porque eu não sou assim tão positivista (corrente filosófica que defendia que o conhecimento científico devia ser reconhecido como o único verdadeiro). Eu sou um poeta, sou um homem que acredita no espírito, em milagre (mais risos). Então pode, de repente, um milagre que era necessário atingi-la, um milagre que, também, precisa atingir a oposição. A oposição também precisa de uma milagre, para se tornar mais cooperativa, mais solidária com a nação, com as possíveis perspectivas de solução dos problemas do mundo. Pensar menos na política, no eleitorado, no mandato que vai ser obtido ou vai ser perdido. Esses aspectos menores da política, esse amesquinhamento ao qual os políticos se submetem com uma tranquilidade danada, como se não tivessem consequências…
“Eu sou um poeta, sou um homem que acredita no espírito, em milagre (mais risos)”

Você fala em depuração da política, e a Operação Lava Jato? Esse processo era necessária para uma arrumação geral?

Foi uma necessidade que chegou muito tarde, que vem de muitos séculos já. Se o acompanhamento da vida pública dos processos de gestão dos homens públicos é uma coisa que tem que ser feita, não se faz avaliação de professor, de médico, não faz com os próprios jornais das várias gerações, que se reciclem, se preparem, se reeduquem? Acho que a política também precisa se reeducar.

A Lava Lato vem, então, para isso, para reeducar?

Espero que seja um processo de reeducação da vida política. E não só a política. Uma coisa que eu costumava dizer muito, há quatro, cinco, oito anos atrás, quando vinha essa queixa contra os políticos e a corrupção, eu costuma dizer sempre: ‘Olha, não só são os políticos’. E se a gente for olhar bem, eles não são nem os principais responsáveis. A Lava jato mostra muito claramente isso, os grandes interesses (empresariais e econômicos). Agora essa coisa de compra de emenda parlamentar, em função de tal e tais interesses. Os políticos entram nisso secundariamente, não são eles que propõem isso. Isso é uma proposta que está vindo dos setores que seriam eventualmente beneficiados.

Mas as investigações estão pegando figurões do governo, da política em geral, inclusive o ex-presidente Lula começa a ser investigado. Parafraseando a música que diz “meus heróis morreram de over dose”, há uma geração que se sente frustrada, né?

Todos nós sentimos muito, é o que podemos dizer. Tenho esperanças de que ele (Lula) possa se livrar dessas investigações, sair bem de pelo menos algumas delas. Que ele possa ter saídas, que não comprometam definitivamente sua estatura, sua presença, sua história, sua dimensão de homem público, defensor dos setores menos protegidos da sociedade brasileira, que ninguém pode negar que ele seja um deles. Ele tem sido um deles. Enfim, tomara que ele se livre de tudo isso.

“Tenho esperanças de que ele (Lula) possa se livrar dessas investigações

Postado em sua página no Facebook pela jornalista Rosane Santana, em compartilhamento da página do jornalista e poeta Florisvaldo Mattos. Leitura mais que recvomendada para estes dias de carnaval.

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Florisvaldo Mattos

Ê BACO BUCÓLICO!

A folia tem seus atrativos, mas há quem prefira cultuar Baco fora dela, como o cronista e poeta de alturas everestianas Ruy Espinheira Filho, que partiu para seu retiro bucólico bafejado pelo mar e, lá, entre livros de leitura útil e prazerosa, fruir o melhor que a beleza do ambiente lhe propicia, como confessa neste seu artigo publicado hoje, cujo tema é o Carnaval baiano, o de hoje confrontado causticamente com o de outras eras. Distante também da grande farra sensorial, eu prefiro usufruir do ambiente doméstico, lendo e folheando livros sobre pintura e pintores, o que ocorreu hoje com um sobre Van Gogh, onde me deparo com o bucolismo dos lírios, como estes mirados por ele em 1887. Abaixo, o texto de REF e reprodução da pintura do holandês.

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O CARNAVAL E OUTROS TEMPOS

RUY ESPINHEIRA FILHO

E eis que estamos novamente pisando o território do Carnaval. Noutros tempos, estaria eu já na linha de frente – mas agora fugirei para bem longe, na companhia do notebook e de muito bons livros. Dirão os irônicos: quem te viu, quem te vê… Não importa, não nego a fuga. Mas também não aceito que pensem que estou velho, caquético – pois para mim o que está velho e caquético é o nosso outrora maravilhoso Carnaval. Velhice que começou há uns trinta anos, com a ascensão da mediocridade, que hoje domina a festa em toda parte – a começar dos patrocínios oficiais.
É a cultura do tempo, dizem alguns. Certamente que é, o que não deixa de ser lamentável. Uma definição clássica da cultura é que ela é “tudo o que o homem acrescenta à Natureza”. Tudo, vejam só… É por isso que os políticos, grande parte da mídia e toda a picaretagem de falsos artistas adoram pronunciar a palavra Cultura: serve para qualquer coisa. Cultura é também ignorância, claro, e certamente – que os de quatro patas me perdoem – burrice.
Assim, o mais saudável é o caminho da fuga. Que, na verdade, não é uma fuga – é mais um gesto de defesa pessoal. Defesa do direito ao silêncio, à tranquilidade, ao cultivo de uma Cultura mais exigente. Imagino que, como está na moda, alguns murmurem – ou até gritem – que minha atitude é “elitista”. Pois é: antigamente eu era uma espécie de subversivo – agora sou “elite”. Ou seja: reacionário favorável ao estudo e ao cultivo do bom gosto. É, sei que passaram a dizer que o “bom gosto” não existe, assim como a qualidade: tudo vale a mesma coisa, de um sermão de Vieira a uma fala de Tiririca. Ou apreciamos e respeitamos tudo, de acordo com o politicamente correto, ou somos “elitistas”.
É, para quem fez a cabeça nos últimos tempos, tudo bem. Mas para quem nasceu em época mais crítica é uma situação inaceitável. Lembro que ninguém passava no Exame de Admissão ao Ginásio se não soubesse escrever corretamente, ao menos em grande parte, porque cada erro era descontado da nota final. Hoje, com a nova mentalidade, tem até analfabeto entrando nas universidades. Parece incrível, mas nas universidades há hoje cursos de redação – o que antes era aprendido no curso primário…
Será o chamado progresso? Bem, o progresso também é relativo, depende da mentalidade de cada um. Para Hitler, progresso era acabar com os judeus e outras etnias, com os homossexuais, com os intelectuais e artistas, com a democracia e submeter o mundo à estupidez nazista. Para os maoístas, obrigar professores, cientistas, intelectuais e artistas e trabalhar no campo, onde foram humilhados e morreram aos montes, o que ocorreu na abominável Revolução Cultural. Para Stalin, perseguir intelectuais e artistas, enviando-os para morrer na Sibéria ou simplesmente pondo-os diante de um pelotão de fuzilamento. Porque eram “elite”, porque de fato viam – e denunciavam – aquelas hediondas políticas. E tinham o inaceitável “bom gosto”…
Ah, o bom gosto não existe? Pois existe, como existe o mau gosto. Não adiante negar. Vamos comparar Dorival Caymmi e… Ah, deixa pra lá, quem sabe, sabe. Já que falamos de música, minha geração frequentava o Circuito Universitário com Vinícius de Moraes, cultuava Tom Jobim, Baden-Powell, Elisete Cardoso, o MPB 4, depois o Chico Buarque (tão odiado pelos imbecis de hoje) – e antes toda uma tradição cintilante que vem de Chiquinha Gonzaga e segue com Noel Rosa, Vadico, Pixinguinha, Lamartine Babo, Ary Barroso e tantos mais. E a turma lia filósofos, poetas, ficcionistas… Mas chega, vou fugir. Para o passado, se quiserem. O que só pode ser feito por quem tem a sorte de possuir um passado no qual pode se refugiar…

Rui Espinheira Filho

ai para o poeta e boêmio Rui Espinheira, em seu repouso de guerreiro à beira mar, nestes dias de carnaval em Salvador.

BOM DIA!!!

( Vitor Hugo Soares)

fev
07
Posted on 07-02-2016
Filed Under (Artigos) by vitor on 07-02-2016


DEU NO BLOG POR ESCRITO (DO JORNALISTA LUIS AUGUSTO GOMES)

OPINIÃO

Dilma tem pouco tempo diante da grande onda

Em poucos dias o país terá as explicações da presidente Dilma Rousseff e do vice-presidente Michel Temer para a acusação de crime eleitoral que, caso acatada pelo TSE, poderá levar à cassação da chapa eleita em 2014.

O processo do impeachment esfriou, por várias razões, sendo as principais delas o fracasso moral do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e a oposição do PSDB, especialmente do governador Geraldo Alckmin, pela perspectiva de Temer e o PMDB assumirem o poder.

Aliás, não é outro o motivo de o próprio PSDB ser o autor da ação judicial, pois, cassados Dilma e Temer, haverá nova eleição no prazo de 90 dias. Aí, entre os tucanos, apenas Alckmin ficaria contra, acumulando forças para a disputa em 2018.

Sendo pacífico o fato de que Dilma tem apoio cada vez menor – na sociedade e no meio político –, essa é a opção com mais condições de prosperar, e logo. A presidente tem pouco tempo para inverter o quadro, mas o que se vê no horizonte próximo são problemas e mais problemas.

fev
07
Posted on 07-02-2016
Filed Under (Artigos) by vitor on 07-02-2016


Clayton, no jornal O Povo (CE)

fev
07
Posted on 07-02-2016
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Dona Dalva Damiana, 89, vive na mesma casa em que nasceu,
em Cachoeira. Foto:Kin Guerra/El Pais

DO EL PAIS

Camila Moraes

De Salvador

Um negro arrancado da sua terra é jogado no Brasil sem prévio aviso. Passa seis dias apanhando. No sétimo, busca um alento na memória. Sorri, mas só quando pensa nos seus. Batuca, porque na África, de onde ele veio, esse era o convite para dançar, comer e rezar. Assim ele renova as energias que vão permitir que sua pele maltratada resista uma semana mais sob o sol da lavoura e o látigo do colonizador europeu. É um negro escravizado, trazido ao país no século XVI pelos portugueses que chegaram à Bahia pouco antes. Foi ele quem inventou o samba.

O samba é hoje o ritmo nacional por excelência. Mas, antes de ser música, ele é esse chamado que reúne os brasileiros ao redor de som e comida para todos, como vem fazendo há séculos. Quem, aqui, não reage sorrindo a um “vai dar samba”? Isso porque o samba nasceu na Bahia, mas se espalhou de norte a sul do Brasil e virou sua principal identidade sonora, renovando ao longo do tempo o seu papel de integração e, principalmente, de resistência. Tão atual que é, ele ainda junta os diferentes, dá alegria e, enquanto o batuque durar, faz a gente esquecer do resto.

Quem remonta essa história é Dona Dalva Damiana, cantora, compositora e sambadeira de 89 anos, que nasceu em Cachoeira, no Recôncavo Baiano, onde vive até hoje, na mesma casa onde nasceu e viveu com os pais e mais sete irmãos. O espaço é comprido e estreito, cheio de toalhas de flores que decoram suas “poucas posses” e dão ao ambiente aquele inconfundível ar festivo de Brasil. Ampla e aberta, ao contrário de sua casa, Dona Dalva começa a conversar reclamando da idade, que está ficando sem saúde. É só falando de samba que ela deixa de ser uma senhora quase centenária para gesticular e sorrir como uma menina. “Quando o samba começa, os problemas vão embora”, diz.

Neta de uma escrava que fez parte de uma irmandade afrocatólica formada só por mulheres (da qual ela também faz parte hoje), a Nossa Senhora da Boa Morte, símbolo do forte sincretismo religioso baiano e da resistência africana no Brasil, Dona Dalva garante que “samba para o baiano é sangue”. Por isso, fundou em 1961 o Samba de Roda Suerdieck, o mais tradicional do Recôncavo, cujo nome emprestou da fábrica de tabaco onde trabalhou, feito a mãe charuteira, por 32 anos. Foi sua maneira de manter vivo aquilo que desde muito jovem aprendeu a fazer – “grudar uma palavra na outra e jogar em cima uma música” para criar composições que nascem do dia-a-dia, como mostra sua primeira canção:

Venha cá como quiser, ô, jiló
Como quiser venha cá, ô, jiló
Plantei jiló, não pegou
A chuva caiu, rebentou
Eu cortei miudinho, botei na panela
Pensei que era jiló, não é jiló, é berinjela

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