Dilma na TV abre “guerra” contra mosquito no Brasil…


…enquanto Ted Cruz encosta Trump na parede em Iowa


ARTIGO DA SEMANA

Dilma , o mosquito e as primárias de Iowa

Vitor Hugo Soares

Para começo de conversa, confesso meu descuido nos últimos dias em relação aos fatos da política internacional, principalmente a atenção maior que faltou no caso das primárias de Iowa, que marcaram a largada surpreendente e eletrizanteda maratona presidencial nos Estados Unidos, para a escolha do sucessor de Barack Obama, perto de completar oito anos de mando na Casa Branca.

Não quero, não devo e nem posso jogar a culpa, da falha profissional, na Lava Jato que, parece, virou a nova mania caolha e suspeita para justificar quase tudo, nos círculos de interesses do conluio público-privado, em volta do escândalo do Petrolão. Sinaliza, também, para estranha e espúria aliança que, nos últimos dias, tem dado diversificados e preocupantes sinais de se formar no País, contra o juiz Sérgio Moro .

“No passaran”, diriam os espanhóis em outras épocas. Mas vivemos os primeiros e agitados dias de fevereiro de 2016, já em pleno carnaval, que começa mais cedo na Bahia e termina mais tarde. Tempo de folia geral. Período historicamente apresentado como propício à prática de malfeitos e patifarias, além de negociatas de todo tipo, gênero e tamanho, sob as máscaras mais diversas.

Antes do ministro Joaquim Barbosa, no caso do Mensalão, e agora do juiz de Curitiba e do Japonês da Federal, era possível ver mais facilmente os blocos de bandalhos em desfile e ação. Bastava uma simples e mais atenta passagem pelos melhores e mais badalados camarotes privados e públicos da folia em Salvador ou no Rio de Janeiro, principalmente.”Segredos dos camarotes”, eis a sugestão de tema e título para um livro que poderia ser revelador da teia de falcatruas e cumplicidades de governantes, políticos, empresários, gente da imprensa e da publicidade, celebridades da música e da cultura, no meio de operadores mascarados ou de cara limpa.

Desculpem o mau jeito, mas é preciso lembrar. Afinal, este é tido, também, como um período de desculpas esfarrapadas e esquecimentos benevolentes ou cúmplices. “E estamos no Brasil” – ouvi esta semana de uma cara amiga e colega de jornalismo, atenta e estudiosa: um lugar das grandes manobras, e chicanas jurídicas, onde há sempre um bom e caro advogado de plantão, para não deixar ir parar na cadeia político ou governante comprovadamente corruptos, empresários de coturno ou grandes proprietários de terras. Ou livrá-los das grades o mais rapidamente possível, quando alguma coisa sai fora do script, a exemplo do que parece ter acontecido na Lava Jatos com Marcelo Odebrecht, ex-presidente da maior empreiteira do Brasil.

Reafirmo a confissão: esqueci do resto do mundo ao ficar de olhos fixos na movimentação mais próxima de mim. Talvez pelo hábito adquirido nos 17 anos de trabalho no Jornal do Brasil, sucursal de Salvador, principalmente no fértil período profissional sob o comando do editor nacional, Juarez Bahia, premiado jornalista e notável mestre de comunicação que formou gerações. Embora ele ensinasse: “preste muita atenção na sua terra, nos fatos à sua volta, mas não pense jamais que eles são os mais importantes para o jornal”.

O fato é que mantive a aposta no Petrolão. Mais que isso, nas situações renovadas por acontecimentos quentes e ardentes de outras operações geradoras de fatos e expectativas. Uma delas, as graves suspeitas e indícios de compra de aprovação de Medidas Provisórias para beneficiar grandes montadoras de automóveis em seus projetos no Nordeste (foi intimado pela PF a depor como investigado, neste caso, nos próximos dias, o ex-presidente Lula, já encrencado na Lava Jato, pelas histórias mal contadas das posses do sítio de Atibaia e do apartamento triplex do condomínio Solaris, no Guarujá), ambos com pegadas nítidas e já reconhecidas da OAS e da Odebrecht).

Assim perdi o bonde ou o avião para Iowa. Olhando o furdunço do carnaval baiano e brasileiro, não acompanhei como devia o melhor das primárias realizadas pelos partidos Republicano e Democrata, no minúsculo mas emblemático estado de Iowa. Nos dois casos com resultados surpreendentes: Primeiro a derrota do polêmico parlapatão Donald Trump (pule de quase 10 nas bolsas de apostas da mídia americana, cabocla e nas pesquisas), batido pelo modesto mas centrado político conservador republicano das antigas, Ted Cruz.

No segundo caso, a vitória apertada de Hillary Clinton “por una cabeza” (diriam os portenhos) sobre Bernie Sanders: o “socialista democrático” de cabelos assanhados, voz de timbre forte e gutural e sobrancelhas espessas de gente valente e desafiadora. Até aqui “o velhinho” ironizado pelos adversários, pinta como a grande “zebra” da sucessão de Obama. Sanders é o preferido por sete entre 10 jovens eleitores dos Estados Unidos.

Perdi Iowa, mas não faz mal. Tem muita água para rolar na corrida americana para a Casa Branca, já se percebe pela largada. Em compensação, vi em Salvador, e no resto do País, mais um panelaço contra a presidente Dilma e seu governo, agora desarvorados e perdendo o tino em rede nacional na TV, diante do mosquito transmissor do zika vírus. O aedes aegipti que sobrevoa à vontade o Brasil há 30 anos (voltou a atacar em 1980, depois de dizimado por Oswaldo Cruz) mas agora parece tirar o sono até do tranquilo Obama e a baratinar, ainda mais, a cabeça da presidente Dilma, seu ministro da Saúde (PMDB) e da corte petista que manda no Brasil há mais de 13 anos. Mais uma “guerra” política, marqueteira, inútil e destinada ao fracasso, por sua origem demagógica e oportunista. Sem credibilidade também, a deduzir pelos panelaços que marcaram a convocação da presidente na TV. A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Jader martins on 6 Fevereiro, 2016 at 6:55 #

No Globo :

Paulo Nogueira Batista Jr

Recessão emocional
Estou passando algumas semanas no Brasil, leitor, e constato horrorizado: pior do que a recessão econômica, só a recessão emocional. O país, que há poucos anos era um sucesso internacional, parece ter perdido a autoconfiança definitivamente. Esquece seus pontos fortes e proclama aos quatro ventos seus pontos fracos. E, pior, demonstra satisfação masoquista em proclamá-los.

Em outras palavras, o complexo de vira-lata voltou com força total. Era de se esperar. Um complexo assim secular não se supera num passe de mágica, em poucos anos de sucesso. Mesmo nos nossos anos de prestígio internacional, o vira-lata estava ali, à espreita, pronto para voltar à cena. Afinal, como dizia Nelson Rodrigues, subdesenvolvimento não se improvisa — é obra de séculos.

A recessão emocional alimenta a econômica, e vice-versa. O colapso da confiança prejudica inevitavelmente o investimento e o consumo. A retração da demanda agregada doméstica derruba a produção e o emprego. E o aumento da capacidade ociosa e do desemprego deprime ainda mais o investimento e o consumo, jogando a economia numa espiral descendente.

Nesse ambiente, as políticas monetária e fiscal não podem continuar sendo pró-cíclicas, como foram em 2015. Não há dúvida de que o espaço monetário e fiscal é limitado. Mas é possível moderar a política de juros e espaçar o ajuste fiscal ao longo do tempo. É o que parece estar tentando a equipe econômica. Sob protestos da turma da bufunfa, o Banco Central interrompeu o ciclo de alta de juros. O Ministério da Fazenda anunciou medidas de ampliação do crédito, centradas na atuação dos bancos federais, e mudanças na política fiscal que tendem a torná-la mais sensível ao ciclo econômico. Foi apresentado ao mesmo tempo um programa de ajustamento estrutural das contas públicas.

A direção tem que ser essa mesmo. Ou alguém imagina que num quadro de queda acentuada do gasto privado o papel da política econômica possa continuar sendo o de aprofundar a recessão com juros ascendentes e uma política fiscal pró-cíclica? Mais do que nunca, o setor público deve desempenhar um papel compensatório.

A recessão emocional nos impede de ver os pontos positivos do quadro macroeconômico? Alguns são tão evidentes que nem o mais tenaz dos vira-latas é capaz de negá-los. Por exemplo: a dimensão e velocidade do ajuste das contas externas, consideradas surpreendentes por analistas da economia brasileira. A combinação de queda da demanda interna com acentuada depreciação do real produziu grande melhora da balança comercial e da conta corrente do balanço de pagamentos em 2015, que só não foi maior porque o quadro internacional foi adverso em termos de demanda externa e de troca.

Somado às elevadas reservas em moeda estrangeira, que o Brasil ainda não precisou utilizar, o fortalecimento do balanço de pagamentos nos dá condições de enfrentar as turbulências internacionais que devem ocorrer em 2016.

A desvalorização do real funciona, além disso, como estimulo à recuperação da atividade e do emprego. As exportações de bens e serviços já começaram a responder ao câmbio mais favorável. Ao mesmo tempo, a produção nacional se mostra capaz de substituir importações em vários setores. Ainda que o setor externo da economia seja relativamente pequeno, como costuma se verificar em países continentais, o impulso cambial ajudará a estabilizar os níveis de atividade e de emprego.

Portanto, deixo aqui o meu apelo veemente: sossega, vira-lata!


luiz alfredo motta fontana on 6 Fevereiro, 2016 at 9:44 #

Caro VHS

Democracia, com prévias, é mesmo fascinante.
Até mesmo quando a plêíade de candidatos assemelha tábua rasa, Trump, Hilary, afora os preferidos dos jovens, é divertida essa classificação, “preferidos dos jovens”, isso tem significado além do pop? Duvido muito.

Mas, como superar a crônica diária a la Mario Puzo? A queda do chefão moluscular, a cada revelação, é enredo farto, uma tragédia italiana, com todos os condimentos sicilianos em cenários tropicais, belas vistas, barquinhos, varandas wagnerianas, adegas fartas, tudo sob o risco do velho ditado, “Turpe est quod nequeas capiti committere pondus”, tão popular entre nós, na tradução livre, “vergonha é roubar e não poder carregar”.

Em 2018, pelo andar da carruagem, e das viaturas policiais, teremos no lugar de prévias regulares, como lá, a necessidade de habeas corpus para candidatos, as prévias, aqui, serão decididas nos tribunais.

Caro VHS

E por falar em teoria da conspiração, Lula, o “namorado” de Rose, após reflexão em adega climatizada, poderá pleitear a nomeação para Ministro da Defesa, cargo típico para quem adora fazer pose, com a vantagem de poder criar, oficialmente e com verba generosa, a milícia que ameaça colocar nas ruas, sob o comando de Stédile. Afora, é claro, o privilégio de safar-se da Justiça Federal de primeira instância, passando as investigações que lhe dizem respeito a habitar as profundas gavetas do PGR.

Sabem de nada, os inocentes de Iowa.

Tim Tim!!!
(sem direito à varanda wagneriana, é claro)


Chico Bruno on 6 Fevereiro, 2016 at 15:47 #

VHS, o governo federal e os estaduais estão nos extorquindo com aumento de impostos, taxas e contribuições.


Tom Tavares on 7 Fevereiro, 2016 at 14:44 #

Caro Vitor Hugo:
Um abraço do seu leitor constante,
Tom Tavares


Raffaelli Brito on 8 Fevereiro, 2016 at 15:01 #

Muito bom o texto, leio sempre o bahia em pauta.
parabéns


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