CRÔNICA
O voo da andorinha

Gilson Nogueira

Sábado passado, pela manhã, da janela do ônibus que me deixaria próximo ao Largo dos Mares, na Cidade Baixa, avisto a bandeira do Brasil em um pequeno mastro na fachada do Mercado Modelo. O maior símbolo do país parecia sem sentidos,como conseqência de um nocaute do derrespeito que havia levado.Era, quase, um pano de chão, sujo e roto, pendurado ao vento brando na fachada de uma das jóias do turismo da Cidade da Bahia.No mesmo instante, veio-me a idéia de saltar do coletivo e reclamar o estado deplorável do pavilhão nacional na frente do postal que me viu comprar peixe vermelho, acompanhado meu saudoso velho, na Rampa do Mercado. Desisti, no ato, da queixa, considerando a possibilidade da minha ação cidadã não ser levada a sério.

Na volta,saltei no ponto de ônibus ao lado da Casa da Itália, próximo ao Campo Grande.E segui repicando na mente as imagens da bandeira abandonada e das fachadas dos antigos puteiros da Ladeira da Montanha ameaçando desabar sobre a cabeça da história.Caminhando diante do revigorado Hotel da Bahia, chorei, sem que minhas lágrimas rolassem.Chorei por dentro, de cara para o horizonte,em azul turquesa, recordando os dias felizes do Carnaval de ontem no Broco do Jacú.E engoli soluços, ao lembrar, ali, um certo final de tarde em uma festa já contaminada pela força da grana que destrói coisas belas. Era o Carnaval da Bahia a dizer-me adeus.

O céu de Salvador naquele dia parecia arte do cão, uma tela em agonia,de pinceladas fortes, em vermelho e ouro. A paz celestial estava acima dele. Teria sido o rastro nervoso de um cometa em fuga ou a alegria cansada provocando um folião apaixonado? De repente, aos pés do caboclo, na volta para casa, repouso saudades no banco do jardim, para suspirar o momento. E uma andorinha, em voo razante,espiando-me os passos, risca o conselho: “Não chore, amigo, a vida segue, Carnaval é assim mesmo, ilusão, desengano, essa tristeza vestida de festa, essa coisa de louco, essa dor sem doer, toque seu barco e siga, nada como um dia após o outro, na vida tudo passa “. Pois é, viva o Jacú, o Barão, o Vat 69, que passeiam, ainda, na avenida dos sonhos de quem brincou Carnaval!!!
Gilson Nogueira é jornalista , colaborador do BP.

Be Sociable, Share!
Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos

  • Fevereiro 2016
    S T Q Q S S D
    « jan   mar »
    1234567
    891011121314
    15161718192021
    22232425262728
    29