Centro das atenções: Dilma não ouviu ninguém até agora. Vai mudar alguma coisa? (Evaristo Sa/AFP)

DEU NO SITE E JORNAL ECONÔMICO O FINANCISTA (PRIMO DO BLOG O ANTAGONISTA)

SÃO PAULO – Nesta quinta-feira (28), a presidente Dilma Rousseff deve reabrir um canal de comunicação fundamental com a sociedade civil: o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, conhecido como Conselhão. Noventa representantes de empresas, entidades setoriais e de trabalhadores, além de cinco ministros, deverão participar do encontro. Mas, diante da fragilidade política de Dilma, de sua criticada incapacidade para ouvir e acatar sugestões e da recessão econômica, a pergunta fundamental é: quais serão os resultados práticos da volta do Conselhão?

Para os especialistas, a resposta é simples: poucos, bem poucos. “O Conselhão terá efeitos mais midiáticos do que práticos”, resume o cientista político Antônio Lavareda. Ele elogia a iniciativa do governo de se reaproximar da sociedade e se dispor a ouvir críticas e sugestões, mas é cético quanto à efetivação das propostas. Primeiro, porque o governo parece já chegar ao encontro com uma receita pronta para enfrentar a crise econômica.

“Os titulares da economia já têm um programa para os próximos meses”, diz Lavareda, aludindo às medidas que o governo estuda. Entre elas, a liberação de crédito por meio de bancos públicos, a fim de incentivar o consumo e o investimento, a concessão de incentivos setoriais, a permissão de que o FGTS seja usado como garantia para empréstimos bancários e a recriação da CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira).

A lista, por si só, já é polêmica. E, para muitos, não ataca a questão fundamental da crise: o rombo nas contas públicas, que, entre outras consequências, levou ao rebaixamento do Brasil ao grau especulativo pelas agências de risco, afugentou os investidores e encareceu o crédito para as empresas. Aliás, a única proposta do governo que anda nesse sentido é a reforma da Previdência – algo que está longe de ser viável, dada a incapacidade de articulação política de Dilma com o Congresso. “O Conselhão não será muito efetivo, por conta da complexidade das medidas necessárias para enfrentar a crise”, afirma o cientista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria.

Nunca é demais lembrar que a presidente enfrenta um processo de impeachment na Câmara, viu sua base aliada desmanchar-se no ano passado e está com a popularidade em níveis historicamente baixos. Em bom português: Dilma não reúne condições de mudar nada de fundamental, neste momento.

Às moscas

O último componente que abala o Conselhão é a própria incapacidade de a presidente ouvir críticas e costurar acordos. O próprio abandono do conselho, em seu governo, é um sinal disso. Criado em 2003 por seu antecessor e padrinho político, Luiz Inácio Lula da Silva, o órgão consultivo não se reunia havia mais de um ano. Às vésperas do encontro, o site oficial do conselho (www.cdes.gov.br) não está sequer atualizado com a lista dos novos conselheiros.

Entre os convidados, estariam empresários como Jorge Gerdau Johannpeter (Grupo Gerdau), Pedro Passos (Natura) e Josué Gomes da Silva (Coteminas); executivos de grandes empresas, como Claudia Sender (presidente da TAM) e Frederico Curado (Embraer); sindicalistas como Vagner Freitas (presidente da CUT); e até o ator Wagner Moura.

Isso mostra que o encontro desta quinta-feira não será uma reunião de amigos para confraternizar. Já seria difícil aprovar as medidas necessárias para enfrentar a crise, se seus 90 integrantes estivessem unidos. Mas, com o Brasil caminhando para o segundo ano consecutivo de recessão, os ânimos estão exaltados em todos os segmentos da sociedade. Fundamentalmente, ninguém quer arcar com os custos de resgatar o país.

Por isso, reunir, num só auditório, membros do governo, empresários, sindicalistas, militantes de organizações não governamentais, representantes de associações patronais, etc, pode se transformar numa grande lavação de roupa suja, refletindo justamente a falta de consenso no país. Somente alguém com muita habilidade de negociação seria capaz de conduzir a discussão sem que descambe numa sessão de terapia em grupo. O problema é que ninguém aposta que Dilma seja essa pessoa. “Isso pode exacerbar os conflitos”, observa Lavareda.

“A questão fundamental é o grau de liberdade para adotar novas medidas”, acrescenta o cientista político. Um governo sem recursos financeiros ou políticos, como o atual, tem pouco margem para acatar sugestões que fujam de seu roteiro. Para Cortez, da Tendências, o Conselhão será um termômetro para testar a receptividade de propostas como a reforma da Previdência, mas, sem apoio político, o governo ficará de mãos atadas. “Isso só aumentaria a frustração”, afirma. “O conselho não vai revolucionar o governo Dilma”, resume Cortez. E, ao que parece, nem mesmo o fará andar mais rápido.

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