Os sonhos de amor e paz de João Justiniano da Fonseca

Por Gabriel Fonseca

(O autor do texto é advogado,mora em São Paulo. Neto de João Justiniano da Fonseca, cuja morte deixa de luto também o Bahia em Pauta, site blog do qual ele foi colaborador, amigo generoso e um dos maiores incentivadores desde a primeira hora. Era pai do também falecido Dimas Josué da Fonseca, um dos fundadores, mediador e um dos pilares do BP até a morte. Morre João Fonseca! Viva João Justiniano da Fonseca!A Bahia inteligente e digna não o esquecerá e sua memória atravessará o tempo atraves da sua obra e dos seus exemplos. (Vitor Hugo Soares, pela família Soares e pelo Bahia em Pauta)

João Justiniano da Fonseca viveu muitos anos: quase um século. 95 anos de solidão. Ontem (22 de janeiro) ele fechou os olhos da sua existência, deixou os livros eternamente nas prateleiras. Sendo eu um dos seus netos, li muitos dos seus livros e carrego alguns comigo aqui onde moro, em São Paulo. Neles estão contidas as suas declarações poéticas de última vontade: muitas rosas vermelhas cobrindo o seu corpo inteiro e as suas cinzas lançadas ao vento na fazenda em que nasceu (na caatinga baiana).

As coroas, orações e discursos estão dispensados, assim como a construção de uma capela para proteger as suas cinzas. Indispensável: o plantio de um pé de quixabeira, que representa “o sertão dos nossos bravos terceiros avós”.

Quixabeira? Planta típica da América Latina, da região da caatinga e do Vale do São Francisco, que, em razão dos longos ramos e da resistência, é utilizada “pelos barqueiros como varas para empurrar as barcas rio acima e nas manobras de atracação”. Planta resistente, mas vulnerável e ameaçada de extinção (KIILL; MARTINS; DA SILVA, 2014, p. 1016), como o povo da caatinga.

João era como o pai do conto de João Guimarães Rosa, que um belo dia resolveu encomendar uma canoa e viver “solto solitariamente” no curso do rio da sua existência. O seu rio, como diria Manoel de Barros, era “letral”: biografias, memórias, romances, poemas, livros e mais livros. Um “ser letral” e, talvez por isso, muito solitário.

Ele próprio era um livro cheio de histórias, que iam desde o período da escola até as incursões na política e a trajetória no serviço público, com passagens que se misturavam com a história da Bahia e do Brasil: Lampião, ida para São Paulo, desejo de servir à pátria na Segunda Guerra Mundial, política baiana etc. João foi porteiro de guarita, vendedor de tecidos, sargento, auxiliar de coletoria, escrivão de coletoria, agente fiscal do imposto de consumo (cargo correspondente ao atual “auditor fiscal da Receita Federal”), duas vezes prefeito de Rodelas – BA e conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios do Estado da Bahia. Mas, acima de tudo, foi um poeta e escritor baiano, que merece ser lido.

O João “biológico” se foi. O João “letral” permanece vivo. A maior parte do seu acervo está disponível gratuitamente na internet: http://www.joaojustinianodafonseca.com.br/. Não poderemos mais ouvi-lo contar pessoalmente as histórias maravilhosas, nem fazer perguntas sobre elas. Como seria, por exemplo, a sua vida em São Paulo aos 20 e poucos anos? Era feliz ou amarga? Como foi mesmo a história do dia em que o senhor perdeu o trem das dez em São Paulo, não tinha dinheiro no bolso para um pernoite e teve que acompanhar um grupo de soldados do Exército, que tocava violão e pandeiro, só para não ficar sem companhia?

Mas as memórias escritas estão aí, para nos ajudar a lembrar e esquecer. O João “letral” era mais doce. O João “biológico” era duro, como quase todo ser vivo nascido no sertão. A casca grossa e os espinhos eram compreensíveis, mas de onde vinha aquela delicadeza? Nem ele sabia: “Com efeito, muitas vezes pensava que eu não era eu. Algum ser misterioso, alguma força superior saía de dentro de mim para compor os meus poemas, os sonetos sobretudo.” (FONSECA, 2010, p. 60). Contudo, na página seguinte era possível saber que ele não era o único ser paradoxal do sertão: “Os brutos, os bichos, os irracionais têm os seus momentos doces. O diabo igualmente. Lampião os teve também. Em um desses foi o encontro com meu pai.” (FONSECA, 2010, p. 61).

O frágil rio da existência de João, após percorrer os secos e tortuosos solos da caatinga baiana, desaguou no mar. O sertão de João virou mar e a sua solidão, saudade. Fiz os cálculos e percebi que tenho 68 anos para tentar aprender com os acertos e os erros de João e quem sabe sonhar alguns dos seus “sonhos de amor e paz”.

“Saudade! Saudade é tédio,
ai, angústia, hipocondria
que tem cura no remédio
que a gente chama poesia.”
(FONSECA, 2002, p. 30)

Referências:

FONSECA, João Justiniano. Cantigas de fuga ao tédio. Salvador: EGBA, 2002.

FONSECA, João Justiniano. No correr do tempo: memórias. Salvador: EGBA, 2010.

KIILL, Lúcia Helena Piedade; MARTINS, Carla Tatiana De Vasconcelos Dias; DA SILVA, Paloma Pereira. BIOLOGIA REPRODUTIVA DE Sideroxylon obtusifolium (Roem. & Schult.) T.D. Penn. (Sapotaceae) NA REGIÃO SEMIÁRIDA DA BAHIA. Revista Árvore, Viçosa-MG, v.38, n.6, p.1015-1025, 2014

GABRIEL FONSECA

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Comentários

Mariana Soares on 23 Janeiro, 2016 at 9:33 #

Grande figura, S.Fonseca!!!
Elegante e solidário com todos à sua volta!!!
Vá em paz!!!
Meu abraço solidário a todos familiares e amigos.


regina on 23 Janeiro, 2016 at 16:03 #

Tio João era um homem elegante, gostava de se apresentar bem. Não sei se o que mais impressionava era essa elegância que lhe era característica ou sua doçura, bondade e erudição. Um escritor, com conhecimento de causa das historias de sua terra e das pessoas que nela habitaram e habitam com todo deu colorido. Uma preciosidade é “A LENDA DO MENINO TRISTE” novela político-policial. Vida, Amor de Joao Justiniano da Fonseca. Um poeta lírico, completo, como se pode sorver dos versos de “VELHAS PAREDES E RUÍNAS”.
Velhas paredes…
Já não paredes, ruínas somente
vêem-se agora…

Ruínas que lembram, marcam, proclamam
o brilho e a glória de um povo morto,
um grande povo,
e da cultura que o regia milenarmente!

Ruínas somente e sepultura
de um grande povo,
senhor e dono dessas paragens missioneiras,
em tempos de ontem milenarmente?

Essas paredes, isso somente?

Mais, são muito mais, essas paredes, essas ruínas…
São a sentença do hoje e agora
e sentenciam ao cadafalso
da guilhotina do nosso horror,
os sanguinários conquistadores
que se dizim civilizados
e eram monstros impiedosos…

Deus tem na glória de heróis maiores
do tempo de ontem
os Guaranis que ergueram templos
e os jesuítas que os cultuaram.

Tem no sepulcro universal do horror humano,
em seu repúdio,
os miseráveis que os destruíram.

Quem isso diz,
quem marca é a História!

Um político da antiga, um servidor público por consciência, um digno cidadão brasileiro, nobreza da familia!!! SAUDADES!!!


Marco Lino on 23 Janeiro, 2016 at 20:41 #

Pai de um grande amigo, o infatigável lutador João Nazareno Melo da Fonseca. Lamento.


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