DEU NO BLOG POR ESCRITO (DO JORNALISTA LUIS AUGUSTO GOMES)

O fundamentalismo chega ao tabuleiro

Depois de dez anos da malfadada transição da ditadura militar para a democracia, a Constituição de 1988 consagrou no capítulo da ordem econômica “o livre exercício de qualquer atividade”.

Era a letra da lei para que a esquerda, então em ascensão no figurino político, nem tivesse veleidades de encampação, nacionalização, expropriação ou qualquer outro palavrão de desinência igualmente nasalada.

Entre os princípios gerais estabelecidos para homens e mulheres trabalharem e criarem riqueza, estavam – como ainda estão em incisos do artigo 170 da carta magna – a “livre concorrência” e a “busca do pleno emprego”.

Simultaneamente, na parte que trata dos direitos individuais, os mesmos constituintes determinaram, como convém a um Estado laico, que “é inviolável a liberdade de consciência e de crença”, a qual não será motivo de privação de direitos.

A presente evocação se dá porque vivemos em Salvador um cenário que põe em confronto, de um lado, a demagogia e o oportunismo de defensores da pureza espiritual do acarajé, e, de outro, pessoas que professam alguma religião “incompatível” e por isso são proibidas de vendê-lo, inclusive com outro nome.

Decretos ou leis, municipais ou estaduais, determinando aos comerciantes que desejem atuar com esse produto o uso de indumentárias típicas ou o seguimento à risca de receitas são textos que colidem violentamente – e duplamente – com a norma constitucional.

Pretender impor o contrário por interesse pessoal ou de grupo é apenas o atrelamento a um fundamentalismo caboclo que não tem razão nem futuro. O requisito essencial para a própria liberdade – sexual, política, religiosa – é aceitar a do outro.

Para o povo que teve o privilégio de criá-lo, o cheesburger tem tanto valor cultural quanto o acarajé ou outro acepipe de características similares concebidos por qualquer culinária nacional.

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Comentários

Rosane Santana on 22 Janeiro, 2016 at 8:27 #

Caro Luís, desculpe, você escorregou feio na bola! Nada sobre a perseguição implacável das igrejas evangélica$ contra as filhas de santo (tradição ancestral, centenária) que comercializavam acarajé nas ruas? Isso é constitucional? Fundamentalistas são os outros?! Ah, sim! Dê um pulinho no Axe Opo Afonja ( faltam os acentos!) e converse com Stella de Oxossi sobre o que os evangélicos estão fazendo contra os filhos de santo na Bahia. A invasão do espaço de venda do acarajé era mais uma das ações nazistas dos evangélicos, isso mesmo, para dizimar o povo de candomblé. De quebra, leia Arthur Ramos e Manuel Querino. Infeliz, amigo, sua coluna hoje, apesar de reconhecer seu brilhantismo na escrita quase sempre.


luis augusto on 22 Janeiro, 2016 at 14:00 #

Ró-Ró, cadeia para quem ataca terreiros e filhas-de-santo, ou qualquer pessoa ou lugar, por motivos religiosos ou não. E liberdade para quem quer exercê-la.

Católico por tradição familiar, mas que só entra em igreja por motivo social ou para passar chuva, aceito passivamente que sou “de Oxóssi, porque assim me disseram três especialistas, em momentos distintos, sem nem saberem com quem falavam.

Como acarajé desde menininho, tendo sido iniciado por Roxinha, do Largo de Santana. E sou fã de Jesus, pelo que não me seria desagradável degustar o bolinho do dito cujo.


Rosane Santana on 22 Janeiro, 2016 at 14:56 #

As cadeias não dariam conta da demanda. É muito grave, gravíssimo! Palmas para a aprovação da lei. É como a das cotas para os negros.


regina on 22 Janeiro, 2016 at 20:41 #

“o livre exercício de qualquer atividade” não dá o direito à descaracterizarão do produto comercializado pelas baianas, o acarajé, ao ponto de mudar o nome e, quem sabe, a receita. Se querem vender o seu/Dele bolinho que inventem outra esquina, adereços, e menu e se mandem pros terreiros das suas igrejas ou centros.
“O Ofício das Baianas de Acarajé, recebeu o título de Patrimônio Cultural do Brasil, no ano de 2004 e, de acordo com a documentação produzida ao longo do processo de inventarização desse bem cultural, o Ofício das Baianas de Acarajé está ligado ao universo simbólico do candomblé. Quando se consome uma comida, se está compartilhando uma cultura, para utilizar a idéia de “comida como cultura” (MONTANARI, 2008).
Todo o processo de seleção, separação, preparação e consumo de comida são práticas construídas socialmente. Tal processo tem base em trocas, negociações que possuem significados dentro do grupo. De acordo com Menasche (2011), a comida e as práticas que a envolvem servem para frisar distinções identitárias de gerações, gênero, grupos e classes.” (Enxerto da tese de mestrado de Debora Simões de Souza Mendel, Mestre em História Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ/FFP). por favor, sigam lendo:
http://www.estudosdoconsumo.com.br/artigosdoenec/ENEC2014-GT05-Mendel-Jesus_nao_comia_acaraje_Tinha_acaraje_na_ceia.pdf


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