Kakay:lingua solta para atacar Lava Jato


…Buñuel:o domesticador de ratos e cobras

ARTIGO DA SEMANA

Kakay e o Manifesto: Vaidade e insulto contra a Lava Jato

Vitor Hugo Soares

Luis Buñuel, o cineasta dos absurdos mais impensáveis, faz um registro emblemático que me parece sob medida para ilustrar esta semana da entrevista surreal, à BBC Brasil, do advogado Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, na terça-feira. Seguida, ontem (15), do Manifesto, assinado pelo criminalista e mais de 100 colegas, publicado nos espaços mais nobres e mais caros dos principais jornais do País, sob o título “Carta Aberta” em repúdio aos “abusos na Operação Lava Jato”.

Na linha de tiro, nos dois casos, as cabeças do juiz Sérgio Moro e do procurador geral da República, Rodrigo Janot. Os dois referências nacional e internacional (ao lado da Polícia Federal) na condução, apuração, prisão e ágil condenação de poderosos implicados no Petrolão – maior escândalo de corrupção e ladroagem, no país, envolvendo agentes públicos e privados: Políticos de alto coturno, gestores governamentais e executivos das maiores empreiteiras, metidos no saqueio que abala, quase de morte, a Petrobras, empresa nacional de maior orgulho dos brasileiros.

O trecho referido está no livro de memórias “Meu Último Suspiro”. No capítulo em que Buñuel fala das coisas de que mais gosta e das que mais detesta. Cito-o, a seguir, depois da espantosa (para quem ainda se espanta com alguma coisa no Brasil) entrevista de Kakay e da leitura do arrazoado que ele assina com outros colegas e parceiros.

O cabeça do “movimento” é defensor de 11 políticos e grandes empresários investigados pela Operação Lava Jato. Na conversa com a BBC Brasil, digna de obra do realismo fantástico, o advogado fala via celular, pachorrentamente sentado em um banco às margens do Rio Sena, em Paris.

Com a palavra o realizador de “O Cão Andaluz”: “Gosto das cobras e sobretudo dos ratos. Durante toda a minha vida vivi com ratos, exceto nos últimos anos. Eu os domesticava inteiramente e a maioria das vezes cortava-lhes um pedaço do rabo (é muito feio um rabo de rato). O resto é um animal apaixonante e muito simpático. No México, quando chegava a ter uns 40, ia soltá-los na montanha”.

Amaldiçoado seja quem pensar mal dessas coisas, diriam ironicamente os franceses. No entanto, em se tratando de absurdos, jamais diga que já viu ou ouviu tudo. Mesmo sendo um adepto fanático dos filmes do diretor de “A Bela da Tarde ou um habitante da Bahia dos “maiores absurdos”, no dizer do lendário ex-governador Otávio Mangabeira, atualmente lembrado na placa que dá nome ao estádio da Fonte Nova, em Salvador.

Honraria dividida com a Cervejaria Itaipava, que, estranhamente, virou sócia do espaço sagrado do futebol baiano, depois da reconstrução da “arena” para a Copa do Mundo. Obra multimilionária entregue às empreiteiras Odebrecht e OAS, no governo petista de Jaques Wagner, atual ministro chefe da Casa Civil do enrolado Governo Dilma. Uma história de inúmeros detalhes ainda submersos, cuja panela fervente começou a ser destampada, com a revelação de parte do conteúdo das conversas gravadas no celular de Léo Pinheiro (então diretor presidente da OAS), atualmente preso e condenado no bojo da Lava Jato atacada duramente por Kakay e seus seguidores.

Quer mais? Então sigamos para uma parada em Paris, da surrealista entrevista de Kakay. Conversa estranha, às vezes desconexa nas arengas despropositadas e frases mal alinhavadas (como é próprio dos anos de mando petista e de seus parceiros). Aparentemente surgida do nada, ou mais provavelmente fruto de alguma situação conjuntural, objetiva e factual, ainda a ser revelada em seus escuros bastidores e desvãos. Talvez caso de desespero profissional, político ou de imensos e insondáveis interesses financeiros ameaçados.

O fato é que a entrevista e a “Carta Aberta” são peças de virulenta hostilidade contra representantes da lei, da justiça e do poder público, considerados ética, técnica e profissional exemplares pela sociedade brasileira. Fala e escrito recheados de tiradas maliciosas, suposições condenáveis, afirmativas inverídicas ou com as marcas venenosas das meias verdades. Sem falar no escandaloso e quase infantil exibicionismo de tola vaidade pessoal.

Kakay se jacta de episódio do qual foi protagonista recentemente, no Rio de Janeiro, enquanto bebia com amigos no restaurante carioca Jobi, no bairro do Leblon. Diz que se surpreendeu na hora da conta: “Estava paga por um grupo de 10 dez amigos que me disseram “olha só você faz um enfrentamento contra esse povo aí da Lava jato”. O enfoque central da entrevista e do “manifesto” falseia fatos, ao afirmar que o Brasil vive, “sem a menor dúvida,” um momento de “criminalização da riqueza”, em que “a Justiça tenta, a qualquer custo, jogar a sociedade contra quem tem algum tipo de poder”. Nada, ou quase, sobre a corrupção e os poderosos – apanhados em fraudes, arranjos criminosos e roubal heira da grossa – já investigados, presos e condenados com a agilidade e severidade que os crimes praticados exigem. Afinal, a lei existe para todos e não só para ladrões de galinha.

A BBC pergunta ao criminalista se todos os seus clientes são inocentes, e ele não se acanha na resposta: “Não tenho a menor dúvida. Estão todos soltos e por isso estou aqui em Paris”. Chega! Quem quiser mais consulte a BBC Brasil e os jornais e meios onde saíram entrevista e manifesto. Chega! Fico por aqui, porque o resto é ainda mais insultuoso e impróprio para menores. Além disso, tenho a incômoda sensação de que os ratos de rabo cortado, de que fala Buñuel, começam a ficar impacientes nas montanhas do México, a caminho do Brasil.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta.E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Jader martins on 16 Janeiro, 2016 at 8:59 #

luiz alfredo motta fontana on 16 Janeiro, 2016 at 10:35 #

Paris, Paris!!!

Cada dia mais triste, cada dia menos luz, cada dia mais covil!

Lula antes, Kakay agora, quiça, em breve, Gabrielli irá a Champs-Élysées declarar sua condição de apenas professor universitário?

Talvez, em companhia de Wagner, que reafirmará o sonho de construir a ponte de 13 km, como seu único desvio da sensatez, ao fundo Charles Aznavour cantarolando “Perfídia”, afinal Trio Irakitan não combina com sonhos wagnerianos e muito menos com ares parisienses.

Não há crime no Sena, basta apenas contas suíças para redimir condutas. Tudo é festa e luz, até mesmo as sombras enlameadas do desatino que o “namorado’ de Rose nos legou.

Tucanos esquecidos simulam esfinges, “Sarneys e “Temers” entoam canções burlescas, Dilma revive “La Goulue”, afinal o cancan é irresistível.

Caro VHS, o país, antes varonil, encontra seu destino, o derrière à mostra em Paris, sucesso é isto, pornografia pouca é bobagem. O explícito atrai multidões! O PT precisa de exércitos na rua, que sigam os derriéres!

Enquanto isto;
“Sepúlvedas” confraternizam em jantares togados;
“Janots” são reconduzidos;
“Barrosos” releem jurisprudências, conforme conveniências;
“Renans” e “Jucás” conspiram;
“Cunhas” e Collors” são “bois apinharados”:

Já, o Carnaval, se aproxima, ao som e máscaras, do “Japonês da Federal”.

No samba encontraremos nossa desforra, sofremos e pagamos por isto! Cordeiros e abadás,que o digam!

Tim Tim!!!

Com savoir-faire!!!


Mariana Soares on 16 Janeiro, 2016 at 10:39 #

Fantástico, meu irmão, este seu artigo!
Chega mesmo!!!
Esse tal de Kakai é de dá asco em qualquer criatura minimamente decente, assim como essa “clientela” dele.
Que a Lava Jato siga, capitaneada pelo valente juiz Sérgio Moro e toda sua equipe, além dos exemplares procuradores do MPF, limpando este país de toda essa corrupção, que este governo petista nos submeteu e afundou nosso país em lama e caos econômico.


Janio on 16 Janeiro, 2016 at 10:49 #

Na mosca, mestre Vitor. Na toga, poeta Fontana.


luiz alfredo motta fontana on 16 Janeiro, 2016 at 10:55 #

Correção: “Cunhas” e “Collors” são “bois apiranhados”


Rosa Darcie on 16 Janeiro, 2016 at 15:18 #

Já disse e repito: Quem dera em breve, possamos ter no nosso jornalismo, somente profissionais da sua competência, sensibilidade, independência e sobretudo credibilidade. Parabéns pela impecável colocação deste ato, que nos enoja e preocupa. Que o nobre Juiz Sergio Moro e toda sua equipe de investigadores e procuradores, continuem perseverando e recebendo o apoio de todos os brasileiros de bem.


Edson Pitta Lima on 17 Janeiro, 2016 at 13:00 #

Victor:

Como sempre brilhante o seu comentário. A frustração desses advogados acostumados a sempre ganhar os processos de seus clientes bandidos milionário e que agora enfrentam finalmente uma justiça de verdade e mostram sua incompetência jurídica, criando realidades fantasiosas, distorcendo fatos, apresentando versões mentirosas. São apenas cerca de 100 advogados no universo de milhares de profissionais honestos e competentes.


vitor on 17 Janeiro, 2016 at 14:10 #

Edson Pitta Lima:

Que imensa alegria para mim este reencontro com você nesta esquina global da internet, em espaço baiano do BP. Grato pelas palavras generosas. E aproveito para agradecer, de público, o rico aprendizado que tive com você no período e espaço de convivência durante a criação e os primeiros momentos da Coopercom. Chega mais! Grande e afetuoso abraço do admirador de sempre.


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