Wagner:enrolado no celular de Leo Pinheiro (OAS)…


…Abrolhos: lama no santuário marinho do extremo sul da Bahia

ARTIGO DA SEMANA

Lama em Abrolhos na hora do coringa Jaques Wagner

Vitor Hugo Soares

O ano novo começou como o diabo gosta. Há sinais enfáticos e explícitos de que periga gorar a maré mansa com a qual o governo Dilma e o PT contavam até o Carnaval. Talvez os mais simbólicos e gritantes destes prenúncios, de mais tempestades e aflições, sejam as notícias e as primeiras imagens da lama de rejeitos da mineradora Samarco (Vale), em Mariana (MG) – do desastre de novembro passado -, alcançando agora as águas límpidas do mar do extremo sul da Bahia.

Na noite de quinta-feira (7), os técnicos do Ibama e ambientalista na região apresentavam, através do portal G1 , os primeiros vestígios da lama invadindo o Arquipélago de Abrolhos. Um dos mais famosos, belos e cientificamente importantes santuários de reprodução e preservação da fauna e flora marinha do planeta no Atlântico Sul.

Indignante demonstração pública e cabal de descaso e incompetência administrativa de uma gestão opaca, desastrosamente misturada com evidências cada vez maiores de grossa cumplicidade governamental (de interesses políticos e econômicos ainda meio submersos). Afinal, quando os rejeitos da Samarco (Vale) começaram sua rota de inundar povoados, matar pessoas, destruir casas e ricas relíquias do patrimônio histórico de Minas – além de envenenar o já poluído Rio Doce -, a presidente da República sobrevoou a região. Falou, ao seu modo peculiar, em “medidas drásticas e puni&cc edil;ões severas”.

A ambígua ministra do Meio Ambiente também andou na área (cercada de técnicos e executivos da mineradora e burocratas ambientais do governo) na mesma época. Ela praticamente descartou “possibilidades da lama de rejeitos alcançar o mar do sul baiano, muito menos Abrolhos”. Pois é: Chegou!. < /span>

A lama em avanço é retrato dramático e sem retoques da gestão de aparências e marketing. De estratégia improvisada e de ocasião para ganhar algum fôlego e aliviar o sufoco infernal de 2015: a nova ordem é “promover arranjos”, rever estratégias e tentar reanimar com tinturas de reboco do novo “pintor” instalado na chefia da Casa Civil, uma administração mambembe e desconexa.

E, se não bastasse, um governo à braços com crise braba e conjugada na política e na economia que, indiferente a algumas vontades e muitos interesses em âmbitos público e privado, nem de longe dá sinais de arrefecimento.

Já no sexto dia de 2016, data comemorativa dos santos Reis Magos dos católicos, uma ruptura inesperada (?) – da almejada onda de tranqüilidade no Palácio do Planalto – emerge, nas linhas de informações explícitas e nos subentendidos da reportagem do Estadão, as ligações encontradas no celular do empresário Léo Pinheiro (preso no bojo da Lava Jato) que apontam na direção de relações, nada republicanas (para dizer o mínimo), do ex-governador da Bahia e atual ministro-chefe da Casa Civil, Jaques Wagner, com a empreiteira baiana OAS,

“Amaldiçoado seja aquele que pensar mal dessas coisas,” diriam, seguramente, os irônicos franceses diante de uma situação assim. Neste caso específico, no entanto, em razão de suas raízes e dos personagens envolvidos, melhor mesmo é dizer como o satírico Gregório de Matos, o Boca de Brasa, em um de seus poemas mais devastadores: “Eia, estamos na Bahia!!!”.

E olha que quando as luzes do Natal de 2015 ainda faiscavam e se ouvia a risada meio sem graça do Papai Noel tentando (em vão) dar um gás na “festa dos presentinhos”, dava para ver e sentir o reboliço dos donos do poder e alguns acólitos, no Palácio do Planalto e imediações, à procura de planos e rotas para uma guinada capaz de tirar das cordas a mandatária petista em apuros.

Conversas de camarinhas, “correção de estratégias”, “azeitamento de peças” e, principalmente, “arranjos” (muitos arranjos), pois sabidamente e de há muito tempo, é esta expressão mais ao jeito e ao gosto do PT , de seus dirigentes partidários e gestores públicos. Além de marketing à mãos cheias..

Assim, logo deu para notar que 2016 começava exibindo novidades no jogo com o mexido baralho do poder. Tudo fica mais patente quanto se observa a ocupação dos espaços na mídia, as novas funções, o maior relevo político e pessoal ( medido em salamaleques, reverências e tapinhas nas costas), além do peso específico de algumas cartas tidas como mais valiosas do baralho.

A carta da manga (ou seria da vez) neste alvorecer de 2016 é, sem dúvidas, Jaques Wagner (o galego de Lula, como é chamado na Bahia). Para o bem ou para o mal. E a verificação deste fato remete a memória do jornalista a um escrito publicado neste espaço nos primeiro dias de janeiro de 2015, quando Dilma Rousseff tomava posse em seu segundo mandato.

Então eu retornava de rápida viagem ao Chile. No aeroporto de Santiago adquiri a edição dominical do jornal El Mercúrio, que trazia como uma de suas principais manchetes políticas reportagem sobre a transição entre os dois governos da petista: “El dicionário Del segundo mandato de Dilma”

Escrevi então: “Página inteira, de A a Z. Vai do A, de Aloízio Mercadante ao Z, de Zé Dirceu. Passando pelo Y do doleiro Yousseff, o P da Petrobras, o L de Lula e o W, de Wagner (Jaques), o disputado coringa de qualquer jogo, governador da Bahia até janeiro deste ano”. No fim, o jornalista Jean Patou Egoaguirre sugeria: “É recomendável não perder de vistas o coringa do PT”. Por vários e diferentes motivos reforço a recomendação neste começo de 2016. E assino.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br_


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Comentários

Jader martins on 9 Janeiro, 2016 at 6:33 #

luis augusto on 9 Janeiro, 2016 at 6:55 #

Caro Vítor, não me recordo agora se “o baralho do crime” lançado no governo Jaques Wagner tinha o coringa…


luiz alfredo motta fontana on 9 Janeiro, 2016 at 7:35 #

Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.

A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.

Oh se quisera Deus que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!

(Gregório de Mattos)

Pois é VHS
A arte antecipa a vida
Por vezes quase como advertência.

Wagner e seu mecenas Gabrielli terão seus dias de expiação. É o que se espera.

Abrolhos, por seu turno, expia a inércia de todos, baianos, mineiros, paulistas, aventureiros, autoridades, políticos, colunistas, e toda a gama de apaniguados da fortuna doce.

Recordo aqui a ingenuidade de Ivan Carvalho, que neste espaço sagrado de comentários do BP, rebateu minhas duvidas e certezas sobre o comportamento nada republicano de Gabrielli, dizendo que nele acreditava, afinal fora seu colega de banco escolar.

Triste Bahia!

A lavagem do Bonfim será intensa!


Taciano Lemos de Carvalho on 9 Janeiro, 2016 at 7:53 #

Se “o baralho do crime” lançado no governo Jaques Wagner tinha o coringa, não sei.

Mas que a Lava-Jato prova que a coisa está embaralhada, emaranhada, prova.


luiz alfredo motta fontana on 9 Janeiro, 2016 at 10:00 #

A Bahia em transe!

Wagner, Gabrielli, Negromonte, OAS, Odebrechet!

Agra entendo porque a lama tenta ofuscar Abrolhos!

Abrir os olhos, é chegada a hora!

Que Xangô mantenha o lume!


luiz alfredo motta fontana on 9 Janeiro, 2016 at 10:25 #

Assombrações!!!

Acordando com o violão ao lado:

– Mãinha!!!
– Patrocínio enlameado suja o samba?

– Suja não meu filho!
– músicos, cantores, palhaços, equilibristas, mal ou bem assombrados, nascem perdoados!
– somos o circo, por vezes comemos o pão, mas nunca olhamos o padeiro!
– sossegue menino!

– Ah bão!!!

Ao fundo uma cuíca chora!
Um atabaque protesta!
A lua se envergonha!


Taciano Lemos de Carvalho on 9 Janeiro, 2016 at 11:04 #

Enquanto a lama tóxica e amarela da Vale/Samarco/BHP Billiton escorre pelos rios e poluem os mares, outro tipo de lama desaparece pelos esgotos do poder e das empreiteiras, deixando os cofres de políticos e grandes empresas abarrotados de material verde. De dólares.

As duas lamas —a da Vale e a das empreiteiras/políticos— são tóxicas. E matam muito.


Taciano Lemos de Carvalho on 9 Janeiro, 2016 at 22:59 #

E agora quem propõe colaboração premiada para ajudar o Ministério Público Federal a explorar mais profundamente os esgotos da Lava-Jato é Marcos Valério, o operador do Mensalão do PT.

http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,operador-do-mensalao–marcos-valerio-propoe-delacao-na-lava-jato,10000006655


luis augusto on 10 Janeiro, 2016 at 13:10 #

Misericórdia!


Jader martins on 10 Janeiro, 2016 at 16:05 #

josé valverde on 10 Janeiro, 2016 at 16:50 #

Bem registrado, caro Vitor


luis augusto on 13 Janeiro, 2016 at 21:27 #

Caro Vítor, desculpe a indiscrição, mas precisamos tomar uma birita.


vitor on 14 Janeiro, 2016 at 10:21 #

Luis

Precisamos, sim.Uma ou mais, que o momento exige. Ligue e vamos combinar. Ou eu ligo depois de resolver umas coisas que preciso fazer antes. OK?


luis augusto on 14 Janeiro, 2016 at 11:52 #

Ok. Tou de férias até 25/02.


luis augusto on 14 Janeiro, 2016 at 11:53 #

Melhor dizendo, 25/01.


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