Ainda bem que Guilherme Arantes não pulou

Janio Ferreira Soares

Se você está lendo este parágrafo é porque sobrevivemos e estamos no primeiro dos 53 sábados previstos para o recém-chegado 2016 que, inocente, fofo e besta, boceja na franja do tempo sem a mínima ideia da pauleira que lhe espera agora que o pisca-pisca apagou e o trenó partiu. Desse modo, daqui de onde os ventos sopram Gracilianos e lagartixas saracoteiam com medo de esfomeadas Baleias, só me resta cantarolar um bolero que presumo existir, cuja letra diria: “bienvenido al fuego del infierno mi pequeño niño, ahora es su tiempo de dolor”.

Por falar nisso, se 2015 foi pródigo em lamas, zikas, mentiras, delações, chikungunyas e corrupção, não seria na música que o principal ano do resto da vida de muita gente boa nos decepcionaria, não é mesmo? E entre Ludmillas, Anittas e demais musas com letras duplicadas que tanto encantam Roberto e Caetano, solto girândolas para o novo CD de uma moça chamada Gal, que sem precisar dobrar a vogal que mora entre as consoantes de seu nome, não se acomodou na trincheira onde repousam Lupicínios, Caymmis e aquelas velhas e preciosas canções feitas especialmente para ela por um cara cujos olhinhos infantis já foram mais seletivos na hora de escolher quais tetas jorrariam o leite bom sobre os caretas.

A propósito, Nelson Motta fez um resumo interessante de nossa produção musical, tendo como base alguns dos momentos políticos do país. Assim, em 1958, ocasião em que vivíamos o otimismo do governo JK, a Bossa Nova surgiu com seus sustenidos dedilhados em desplugados violões e tomou conta do pedaço, abrindo um providencial caminho para que velhos e novos baianos pudessem passear pela sua garoa.

Depois vieram a riquíssima época da ditadura militar (onde quanto mais o pau comia, mais pequenas obras primas eram compostas), a campanha das Diretas Já (com o rock nacional despertando um comprometimento cívico numa moçada que invadiu as ruas ao som dos Paralamas, Legião, Barão, Lulu…), e o período Collor (que além de nos apresentar grandes eminências calvas como Renan, PC Farias, Joãozinho Malta e os pés de valsa Zélia Cardoso e Bernardo Cabral, também nos puniu com as duplas sertanejas e seus respectivos agudos, tão dispensáveis quanto a justeza de suas calças a lhes apertar os bagos).

Paralelo a isso também existem aqueles artistas que bicam um pouquinho daqui, pescam um bocadinho acolá e mesmo sem fazer parte de nenhum movimento ou clube conseguem emplacar vários sucessos com um nível musical de primeira, como é o caso de Guilherme Arantes. Só que sua história poderia nem ter existido. Explico.

Semana passada, depois de sua apresentação no Natal daqui de Paulo Afonso, eu, ele e o bom e velho Luiz Carlini batíamos um papo, quando comentei sobre sua entrevista publicada dias antes na Folha de São Paulo, onde ele diz que depois da gravação de seu primeiro LP (aquele que tem Meu Mundo e Nada Mais), andava se desentendendo muito com seu pai (que insistia para ele seguir a carreira de arquiteto) e, angustiado, pensou seriamente em se matar, chegando ao ponto de subir na beirada do edifício para se jogar.

Ele confirma e lhe digo que já tenho o título do meu próximo artigo. Rindo, ele diz que quer lê-lo e toma mais um gole de Jack Daniel`s. Reforço minha dose, me despeço e saio caminhando pela praça lindamente iluminada e quase vazia, ainda reverberando nas pedras portuguesas versos e canções que, por um passito a mais, hoje estariam por aí completamente órfãs, chorando a ausência de seu genial autor. Grande e providencial refugo, meu jovem Guilherme. Mas cuide-se bem, pois os perigos ainda rondam cada esquina mal iluminada e cada rua estreita desse velho mundo. Bom 2016 a todos.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 3 Janeiro, 2016 at 9:13 #

Caro Janio

Tudo seria mais “tranqüilo”, com trema é claro, caso abolissem o “seqüestro” de nossas esperanças.

E por saudades do trema, não em palavras tristes como Führer, brindo com este poemeto:
————-
Sem pena do trema

(luiz alfredo motta fontana)

mutilaram o sagüi
por decreto

tiraram-lhe o trema
sem pena

eloqüente
o pingüim argüiu
agüentaremos?


luis augusto on 3 Janeiro, 2016 at 13:43 #

Poeta, com o trema, foram nossos últimos resquícios de dignidade ortográfica.

E ele morreu definitivamente justamente em 1º de janeiro próximo passado, como se dizia naquelas atas do tempo em que, “nestes termos”, pedia-se deferimento.

Mas não trema: como disse este seu amigo em pretérita composição, a língua de mim emana. E de você também. E de todos nós da Praça BP.


ISA on 3 Janeiro, 2016 at 14:37 #

Oi Jânio, mto legal este texto retratando um pouco sua conversa com o Guilherme Arantes. Conhecer o seu conflito existencial entre a arquitetura e música aumentou minha admiração pelo artista, além da sua opção em se abrigar perto de nós.


Taciano Lemos de Carvalho on 3 Janeiro, 2016 at 16:46 #

“Tranqüila” ficou a indústria gráfica. Seus lucros vão engordar ainda mais. Diziam que só o mercado africano contrataria inicialmente cerca de R$1 bilhão em livros atendendo ao acordo ortográfico. É verdade que parece que a coisa não andou tão bem assim. Até em Portugal a resistência tem sido muito grande.


luiz alfredo motta fontana on 3 Janeiro, 2016 at 16:54 #

Caro Luís

Sempre poderemos “delinqüir”, quando a regra nos é imposta.


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