Escritora Ana Maria Gonçalves: indignação com apadrinhamento na cultura

Numa carta aberta ao secretário baiano da Cultura, Jorge Portugal, a escritora Ana Maria Gonçalves aponta erros na gestão cultural e critica as nomeações de apadrinhados inexperientes do governador Rui Costa. A autora de “Um defeito de cor” não está sozinha. Nos bastidores, artistas e petistas contrariados lamentam o fatiamento da Secult, numa divisão da linha de comando de Portugal. Dois trechos esclarecedores da carta:

– “Escrevo, Sr. Jorge Portugal, pedindo que tente nos explicar a relevância, para a Secretaria de Cultura, de ter como Chefe de Gabinete o Sr. Cláudio Palma de Mello que, pelo que pude pesquisar, desde que entrou no governo pulou de cargo em cargo, conforme publicações no Diário Oficial da Bahia, sem nunca ter tido antes qualquer relação com a Cultura. Irmão do sr. Carlos Palma de Mello, Chefe da Casa Civil de Rui Costa”.

– “Outro cargo muito importante da sua gestão, sr. Jorge Portugal, é exercido pelo sr. Alexandre Simões, ex-secretário de Saúde de Ilhéus e ex-assessor do deputado estadual Rosemberg Pinto. O biomédico Alexandre Simões, filho de Nelson Simões, ex-assessor de Jaques Wagner, é superintendente de Promoção Cultural da SECULT, e em relação a ele também não consegui encontrar nenhuma atividade envolvendo Cultura”.

” Ando cansada demais de gente que ocupa cargos sem competência necessária para exercê-los e

de gente que os exerce sem competência necessária para ocupá-los”, conclui a escritora.

(Do jornalista Claudio Leal para o Bahia em Pauta)

***

Carta aberta a Jorge Portugal, Secretário de Cultura da Bahia

Caro Sr. Jorge Portugal,

Escrevo por causa de dois episódios recentes envolvendo a Secretaria de Cultura. O primeiro me envolve diretamente: o curso de Escritas Criativas, através da Fundação Pedro Calmon, que elaborei e ministrei com a colaboração dos escritores Roberta Estrela D´Alva, Cidinha da Silva, Marcelino Freire e Paulo Lins. O segundo também me envolve, embora não tenha participado dele diretamente: o processo de seleção do edital Agitação Cultural-2015. Os dois me dizem respeito não apenas porque me parecem ter o mesmo problema de origem em duas áreas estratégicas da sua gestão, mas porque também me parecem indicativos de administração que nada tem a ver com política cultural, mas com política apenas. A percepção de que o senhor, ao se submeter a esse jogo, vai sair muito menor do que entrou, levando consigo a cultura da Bahia, é unânime entre artistas e produtores com quem converso, gente que de fato pensa e faz cultura. E é por isso também que escrevo: por uma réstia de esperança em tempos tão sombrios.

Escrevo, Sr. Jorge Portugal, pedindo que tente nos explicar a relevância, para a Secretaria de Cultura, de ter como Chefe de Gabinete o Sr. Cláudio Palma de Mello que, pelo que pude pesquisar, desde que entrou no governo pulou de cargo em cargo, conforme publicações no Diário Oficial da Bahia, sem nunca ter tido antes qualquer relação com a Cultura. Irmão do sr. Carlos Palma de Mello, Chefe da Casa Civil de Rui Costa, a ele foram conferidos diretamente pelo governador plenos poderes para “…em nome do Estado, celebrar convênios, acordos, contratos, ajustes e protocolos, bem como seus respectivos termos aditivos e rescisões, no âmbito da referida Secretaria, nas ausências e impedimentos do seu Titular.” (Diário Oficial de 23/10/2015). Diante de tal quadro, pergunto: o quão ausente e/ou impedido é o sr., Jorge Portugal? Porque a Cultura da Bahia não vai nada bem deixada a cargo do irmão do Chefe da Casa Civil, economista com interesses em mercado de coco verde e em cultura de manga, como pude ver em artigo e em sua dissertação de mestrado, ambos disponíveis na internet.

Outro cargo muito importante da sua gestão, sr. Jorge Portugal, é exercido pelo sr. Alexandre Simões, ex-secretário de Saúde de Ilhéus e ex-assessor do deputado estadual Rosemberg Pinto. O biomédico Alexandre Simões, filho de Nelson Simões, ex-assessor de Jaques Wagner, é superintendente de Promoção Cultural da SECULT, e em relação a ele também não consegui encontrar nenhuma atividade envolvendo Cultura. Sobre o biomédico, o deputado Rosemberg Pinto já disse em entrevista que “… não precisa de emprego”. Não precisa de emprego, sr, Jorge Portugal. O quanto se importa com um emprego quem “não precisa de emprego”? O quanto se importa com um emprego, ou um trabalho, quem não sabe o que é precisar dele? O que sabe alguém que “não precisa de emprego& rdquo; da importância de trabalho remunerado na vida de pessoas que dependem dele? Praticamente nada, é o que o biomédico Alexandre Simões parece provar com seu comportamento e suas atitudes em relação às graves denúncias de falhas técnicas e humanas, por parte da SECULT, no edital Agitação Cultural-2015, que tem recursos e métodos geridos por ele.

Minha experiência em trabalhar com a SECULT, através da Fundação Pedro Calmon, foi a mais decepcionante e desagradável possível, envolvendo total desrespeito a todos os profissionais envolvidos e prejuízo ao andamento do curso: informações erradas, parciais e desencontradas ou informação alguma, acordos modificados unilateralmente sem comunicação prévia ou posterior, repasse financeiro consecutivamente adiado e, por fim, repasse algum. Experiência para nunca mais ser repetida. Terminei o curso em respeito aos alunos, porque, na primeira aula, prometi que estaríamos juntos nessa. E por isso valeu a pena. Por eles. Apenas por eles, maioria jovens negros e negras das periferias que dificilmente teriam a oportunidade de frequentar outro curso assim, principalmente depois de perceber a desimportância que a SECULT dá a iniciativas c omo esta. E foi lindo, sr. Jorge Portugal. Foi lindo ver despertar em vários deles o sentimento de que, através da escrita, seja ela de que gênero for, eles podem mais. Foi lindo saber da importância que teve para muitos deles, particular e profissionalmente, este ato subversivo de ajudar a formar escritores e pensadores à revelia das atitudes do governo. Escrevo então, e também, ao saber de alguns outros colegas artistas na mesma situação: usados em ações que promovem a Secretaria e ignorados quando da remuneração pelo trabalho realizado. Pelos mais diferentes motivos, alguns deles não querem tornar público seus casos, e entre esses motivos um dos mais fortes é o medo de retaliação. Cultura do descaso e cultura do medo, sr. Jorge Portugal, é o que está se acumulando na sua gestão. E ninguém parece ser responsável, col ocando a culpa no “sistema”.

O sistema – ferramenta das mais úteis usada como escudo por quem trabalha para ele, é também chamado de “máquina do governo”. Ao pensar sobre isso, vem-me à memória um filme assistido há alguns dias: Experimenter. Já viu, sr. Secretário? Se não, deveria, pois vale a pena. É um filme sobre a vida de um psicólogo social que realizou vários experimentos em universidades estadunidenses, nas décadas de 1960/70. Entre eles está um experimento famoso, usado para testar a obediência das pessoas quando ordenadas a fazerem algo, mesmo que contra a vontade. Sim, é um filme sobre a obediência, seja ela a autoridades, hierarquias, protocolos, egos, medos etc etc etc… A pessoa que está sendo testada é levada a acreditar que vai ensinar alguém através da aplicação de eletrochoques. No início, toma ela mesma um choque de 45V, para ter noção da intensidade da dor que vai infligir ao aluno. São feitas várias perguntas e, a cada resposta errada do aluno, o professor tem que lhe aplicar choques que vão aumentando de intensidade até chegarem a 450V. O aluno, que na verdade apenas finge receber choques e reagir a eles, pede para parar, grita de dor, diz não aguentar mais e querer abandonar a experiência. Apesar disso, o professor-cobaia continua lá, fazendo perguntas e aplicando choques a cada resposta errada. Até protesta, pergunta aos pesquisadores se pode parar, mas continua. Porque assim é ordenado a fazer, porque a atitude dele, na verdade, não lhe seria imputada, visto que tinha o aval dos pesquisadores para levar a experiência até o fim.

Os “professores” do experimento continuavam porque, sob o manto da instituição universitária, da autoridade dos pesquisadores, do “sistema” ou da “máquina”, desfaziam-se de suas vontades, individualidade e personalidades e apenas seguiam o curso das coisas, deixavam acontecer, obedeciam aos comandos exteriores. Será que é isso que acontece com algumas pessoas que trabalham para o governo, sr. Secretário? Durante esse tempo tentando negociar com a SECULT ouvi várias vezes expressões como “é o sistema”, “é o governo”, “é o processo”, como se, por trás de sistemas, governos e processos não existissem pessoas – inclusive, as que me falavam isso -, mas apenas uma entidade, uma máquina de eletrochoque autônoma, inquestionável e imutável. Como se, na frente na máquina também não existissem pessoas, mas cobaias que estariam ali para serem testadas em relação a até que ponto elas também aceitam serem subjugadas à naturalização da impessoalidade do sistema. Tal atitude faz parte de um processo no qual o gestor público tenta separar o ônus do bônus no exercício de sua função. Cobra para si, e para si somente, para seu ganho pessoal e capital político, tudo que possa ter acontecido de bom, e empurra-se para o “sistema”, a “máquina governamental” tudo que acontece de ruim ou de errado. Tenta nos fazer comprar a ideia de que o “sistema” e a “máquina”, com seus buracos sem fundo, seus esquemas, seus favorecimentos e desfavorecimentos e seus erros de programação funcionam por si só, à revelia de quem quer ocupe cargos que o legitimam e o colocam em funcionamento.

No caso dos editais, há provas de falhas humanas e mecânicas no sistema colocado a serviço do Sistema, e os que o comandam tentam se isentar da responsabilidade por sua encomenda e operação. A nota emitida pela SECULT é vergonhosa, sr. Jorge Portugal, não apenas mas também porque mede com a própria régua o nível de Cultura e de informação das pessoas com as quais estão lidando. É óbvio que há problemas graves com um edital que, segundo informações da página de Facebook “Aberração Cultural” (consulte-a, sr. Secretário, pois lá estão muitas informações que o sr. diz ignorar), tem metade dos inscritos desabilitada na primeira fase e, depois da avaliação dos 450 restantes, aprova, por mérito, 151. Destes 151, indicados para assinarem contrato com o Estado, 64 são impedidos por “problemas técnicos” e “perda de prazos”. A grande maioria dos desclassificados alega – e prova – problemas no sistema virtual, única via de inscrição e de acesso à SECULT. A partir daí foram vários outros erros, sr. Jorge Portugal, com uma dança de classificados, desclassificados, reclassificados, chamadas de projetos que não haviam sido classificados antes, negativa de avaliação de recursos, falha no envio de comunicação aos concorrentes, comunicados escondidos em camadas e camadas de cliques dentro do site etc…

Tudo que a SECULT sabe dizer é que o sistema não falhou e que tocou o edital, com todos os problemas apontados desde o início, para cumprir o cronograma. Isso prejudicou centenas de artistas e toda uma população que será privada de projetos em suas áreas, em toda a Bahia. Em uma época em que está tão difícil conseguir dinheiro para fazer arte, dos 15.000.000,00 alocados para o edital, serão gastos apenas 10.000.000,00, porque não foram escolhidos suplentes em número suficiente. Parece-me que, para os 151 aprovados, havia apenas 10 suplentes. É isso mesmo, sr. Secretário? A sua assessoria de comunicação foi realmente instruída a dizer que não houve problema algum com um edital desses, jogando toda a culpa nos concorrentes? Li uma declaração do biomédico Alexandre Simões dizendo que tanto o governador quando o se nhor estão apoiando-o nas decisões que tomou. A informação procede? E procede também a informação de que o senhor e o biomédico Alexandre Simões se recusam a receber os proponentes? E procede também a informação de que a SECULT se negou a receber notificação do Tribunal de Justiça que concedeu liminar para a suspensão do edital, depois de ação do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversão da Bahia?

Essa é a confusão entre Governo e Estado, sr. Jorge Portugal: como apenas uma das instituições que compõem o Estado, ao governo cabe a função de bem administrá-lo de forma provisória, pelo tempo que lhe foi concedido através de eleições, no caso das democracias. Mas o poder embriaga e corrompe, buscando a perenidade de Estado, deturpando funções, distribuindo favores e cargos, valendo-se de inocentes ou sabichões úteis, fazendo acordos, enganando, fazendo pose, fazendo que faz. Mera ficção que, aliás, só é possível de se pensar e se entender através da capacidade de abstração proporcionada pelas artes e pela cultura. Tocar e tornar real o intangível é um dos nossos papéis de artista, sr. Secretário, ou a máquina já o fez esquecê-lo? Ou não, porque a concorrência anda difícil, sr. Jorge Portugal, e esse seu governo tem se provado mais artista do que todos nós juntos, embora com uma diferença marcante: é de péssima qualidade e não se reconhece como tal. Há que se desnudar o rei, pois, como canta Caetano, “eu desperto porque tudo cala frente ao fato de que o rei é mais bonito nu.”

Até lá, até que as perguntas desta carta sejam respondidas, até que os profissionais envolvidos no curso de Escritas Criativas recebamos a totalidade do que nos é devido, até que os profissionais prejudicados pelos erros da SECULT no Agitação Cultural sejam recebidos e respeitados, vou continuar escrevendo e fazendo estas e outras perguntas que possam surgir. Ando cansada demais de gente que ocupa cargos sem competência necessária para exercê-los e de gente que os exerce sem competência necessária para ocupá-los.

Atenciosamente,

Ana Maria Gonçalves – escritora, dramaturga, autora de Um defeito de cor

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BAHIA EM PAUTA TAMBÉM VAI AGUARDAR REPOSTAS DO SECRETÁRIO DE CULTURA E DO GOVERNO DA BAHIA ÀS INTERROGAÇÕES DA ESCRITORA.

(Vitor Hugo Soares)


Dilma ontem em Salvador na inauguração
da estação Pirajá do metrô.

DEU NO BLOG POR ESCRITO ( DO JORNALISTA LUIS AUGUSTO GOMES)

Cuidado com as más companhias

A presidente Dilma Rousseff começa a circular pelo país em busca de apoio popular. E o faz na hora certa, porque as pesquisas apontam uma diminuição em sua impopularidade ao mesmo tempo em que fica mais distante a possibilidade de impeachment.

As camadas mais humildes da população a enxergam como uma vítima de Eduardo Cunha, esse, sim, a personalidade mais odiada do momento, fora o fato de que, afinal, a presidente aparece como honesta, como alguém que não se beneficiou diretamente da corrupção no governo.

Agora, uma sugestão: que ela não viaje com Lula, porque, nesse particular, as coisas estão invertidas. O ex-presidente não é mais cabo eleitoral para ninguém. Ao contrário, sua presença pode resultar nas vaias de que tanto Dilma precisa fugir neste período.

Boa quarta-feira de começo de verão.

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

DO CORREI24HORAS

Da Redação

Vaias e gritos de apoio de ‘não vai ter golpe’ marcaram a chegada da presidente Dilma Rousseff à inauguração da Estação Pirajá, em Salvador, na manhã desta terça-feira (22). Ao lado do governador Rui Costa, do prefeito ACM Neto, e de políticos locais, a presidente falou da conclusão do projeto original da Linha 1.

“Ela [a Linha 1] já está pronta, e agora nós estamos acompanhando uma ampliação até Cajazeiras, uma vez que lá nós temos uma população imensa esperando pelo metrô”, disse Dilma Rousseff.

A presidente interrompeu o discurso para falar sobre os gritos de ‘Não vai ter golpe’. “Impeachment em si não é golpe. Ele vira golpe quando não há qualquer fundamento legal”, disse. “Não há fundamento legal porque tenho uma vida ilibada. Meu passado, meu presente, não há nenhuma acusação fundada contra mim”, disse. “A Constituição é clara: se faz impeachment quando há crime de responsabilidade. Não há nenhum crime de responsabilidade. Eu sequer fui julgada.”

O prefeito ACM Neto falou do apoio com o governo do estado que concluiu o longo processo de implantação do metrô. “Era uma novela que se estendia por 12 anos e parecia que não teria fim. Os soteropolitanos deixaram de acreditar que isso seria possível. Mas colocamos os interesses da população em primeiro plano, deixamos de lado as disputas eleitorais, em uma demonstração de compromisso público e cidadania”

O terminal completa o trecho de 12 quilômetros de extensão e mais sete estações: Lapa, Campo da Pólvora, Brotas, Bonocô, Acesso Norte, Retiro e Bom Juá.

“Além de um design inovador, por fora e por dentro, tendo inclusive passagem entre os carros, num vão único, pensamos numa homenagem aos dois maiores times da Bahia”, comentou José Gracco, gestor de implantação da CCR Metrô Bahia.

Novos trens do Metrô têm bancos homenageiam Bahia e Vitória

Juntando-se aos seis trens existentes, serão 40 composições para serviço nas linhas 1 e 2. Três dos novos trens já estão estacionados na estação Pirajá. O primeiro começa a operar no final de março ou início de abril.

Ainda conforme Gracco, os novos trens “estão entre os mais modernos do mundo”. Concluídas as duas linhas, teremos 41 quilômetros e meio de trilhos e 22 estações. “Aí seremos o terceiro maior metrô do Brasil”, afirmou.

O governo conclui o projeto original da Linha 1 em dois anos e meio após a transferência da gestão do sistema do município para o estado, em maio de 2013.

dez
23
Posted on 23-12-2015
Filed Under (Artigos) by vitor on 23-12-2015


Clayton, no Diário do Nordeste (CE)


Os senadores Gurgacz e Rose de Freitas, na Comissão do Orçamento.
Foto: Ag. Câmara

DO EL PAIS

Afonso Benites

O relator das contas da gestão Dilma Rousseff na Comissão Mista de Orçamento do Congresso Nacional, o senador governista Acir Gurgacz (PDT-RO), contrariou a orientação do Tribunal de Contas da União (TCU) e sugeriu que os parlamentares aprovem as finanças da presidenta do ano de 2014 com ressalvas, mesmo tendo havido pedaladas fiscais. O pedetista entregou o seu relatório à presidente da comissão, Rose de Freitas (PMDB-ES), nesta terça-feira, o último dia de trabalho do Legislativo federal antes do recesso de fim de ano.

A principal justificativa apresentada por Gurgacz foi a tentativa de se evitar um efeito cascata nos Estados e municípios brasileiros. A lógica dele é que se as finanças da União forem rejeitadas pelo Congresso levando em conta apenas as pedaladas fiscais, ao menos 14 unidades da federação sofreriam com o mesmo problema. Essas manobras irregulares embasaram o pedido de impeachment contra Rousseff que tramita na Câmara dos Deputados. Por analogia, poderia sustentar também ações de destituição de governadores e prefeitos.

“Foi o primeiro parecer do TCU pedindo a rejeição das contas desde 1936. Pensei também na jurisprudência que isso pode trazer aos futuros presidentes da República, governadores de Estado e prefeitos”, afirmou o senador que reforçou considerar o tribunal simplesmente um membro assessor do Legislativo, que não teria poder de decidir nada pelos parlamentares.

Na visão do relator, as contas do Governo deveriam ser aprovadas com ressalvas, mas não deveria haver nenhum impedimento da mandatária. Ele sugeriu medidas para aperfeiçoar o método de elaboração e de execução do orçamento. “O que foi feito não está de acordo com a Lei de Responsabilidade Fiscal, mas não é crime”, analisou o senador pedetista.

O deputado oposicionista Domingos Sávio (PSDB-MG) disse que o relatório de Gurgacz se tratava de um atentado contra o país. “Estamos rasgando a Lei de Responsabilidade Fiscal e a Constituição para salvar uma presidente (…) Não podemos dizer aos governos estaduais que eles podem legitimar o desrespeito à lei”, afirmou.

Desde a redemocratização do Brasil, no fim da década de 1980, a maioria dos presidentes adotou a manobra fiscal que foi apelidada de pedaladas fiscais. Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva tiveram as finanças anuais aprovadas com esse expediente. Essa seria a primeira vez que as pedaladas gerariam uma punição mais severa de um chefe do Executivo brasileiro, em caso de rejeição. Especialistas em contas públicas, no entanto, entendem que a equipe econômica de Rousseff adotou essas manobras em excesso.

Como o recesso legislativo começou nesta terça-feira, o documento sugerindo a aprovação das contas só será analisado a partir de 2 de fevereiro. Assim que os trabalhos forem retomados, os deputados e senadores terão até o dia 13 de fevereiro para apresentar emendas e o relator mais 15 dias para entregar seu parecer final. A expectativa é que a votação das contas presidenciais ocorra até 6 de março.

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