DEU NO BLOG POR ESCRITO (DO JORNALISTA LUIS AUGUSTO GOMES)

OPINIÃO

Dilma e Cunha: alternância no vaivém do “poder”

O escândalo de corrupção na Petrobras, revelado mais de um ano e meio atrás, em maio de 2014, com a Operação Lava-Jato, conferiu à política brasileira neste período um caráter verdadeiramente pendular.

Na fase inicial, a presidente Dilma foi mantida longe da questão, apesar de poder ser tecnicamente responsabilizada, por ter sido presidente do Conselho Deliberativo da empresa estatal e ministra das Minas e Energia na época em que se implantou o “esquema”.

Empenhada, visando à reeleição, em atenuar o desgaste sofrido com as manifestações populares de junho do ano anterior, Dilma atravessou o período a duras penas, e a vitória fácil antes prevista transformou-se em disputa apertada, de ínfima diferença.

Paradoxalmente, com o avanço da investigação policial e o envolvimento cada vez maior de ministros e parlamentares governistas, a reeleição não pôde nem ser comemorada – instalou-se uma ressaca de tal monta que a oposição levantou a tese de nulidade do pleito – o “terceiro turno” denunciado pelos petistas.

Deputado balançou ao primeiro vento forte

A situação da presidente se agravou quando a nação constatou que ela, que prometera “fazer o diabo” para vencer, o havia feito mesmo, promovendo uma gastança exorbitante e outras medidas na área econômica que levaram ao déficit fiscal, com todas as consequências que conhecemos.

Reempossada, Dilma foi levada às cordas com a vitória de Eduardo Cunha para presidente da Câmara, cargo-chave do acolhimento do impeachment, que se delineou a galope: a votação-relâmpago de velhas contas presidenciais abria caminho para a apreciação das de seu governo – eivadas, diziam, de “crimes de responsabilidade”.

Ao menos que se prove escandalosamente alguma coisa contra ele, (…) Eduardo Cunha continuará uma carreira em ascensão que pode resultar até na tão aguardada candidatura do PMDB à presidência da República”.

Bons tempos aqueles, mas já no mês seguinte o pêndulo começava a movimentar-se a favor de Dilma. A Lava-Jato produziu uma lista de 50 deputados e senadores sob investigação, entre eles o próprio Cunha, que continuou a cruzada cassatória, embora acompanhado da dúvida sobre sua legitimidade para autorizar o processo contra a presidente.

Renan saca de sua espada de luz

O cenário prosseguiu indefinido até que, em julho, a denúncia de um lobista de que Cunha recebera propina de 5 milhões de dólares azedou de vez o presidente da Câmara, que se declarou de oposição e, entre outras medidas de retaliação, acatou a criação da CPI da Petrobras, à qual iria voluntariamente enredar-se ao dizer que não possuía contas no exterior.

Seguiu-se aquele vergonhoso período em que Dilma e Cunha escoravam-se um no outro, prolongando-se a burla por meses, durante os quais ele ia arquivando pedidos de impeachment e o governo, disfarçadamente, procurando preservá-lo do Conselho de Ética, tarefa primordial do próprio Cunha, no uso sem pudor de prerrogativas do cargo.

O enfraquecimento de Cunha – atestado pelas decisões do Supremo Tribunal Federal – pesa a favor de Dilma, embora não chegue ao fim o exercício de procrastinação para ambos os lados, como comprovam os recessos do Legislativo e do Judiciário. O cenário, agora, é francamente favorável à presidente.

O processo foi “admitido” no Conselho de Ética, as artimanhas sobre a comissão processante foram refreadas pelo Supremo e, por outro lado, o presidente do Senado, Renan Calheiros, um dilmista de horas alternadas, que acaba de ter quebrados os sigilos fiscal e telefônico, não vê “franja” de motivo para o impeachment.

IPresidente pode pensar na roupa da “posse”

Não é surpresa o desenrolar de episódios. Vimos tratando dessa “tendência”, em textos diversos, aqui por ordem cronológica: “Tudo muda com Cunha na corda bamba” (dia 10/10); “Dilma sobe ao palco para contra-atacar” (dia 21/10).

E mais adiante: “Espasmo de Cunha não derruba Dilma (02/12); “Cunha não pode cair depois de Dilma”; “’Establishment’ se volta para segurar Dilma”. O caminho parece traçado. A ponto de a presidente, sem prudência, retomar a política econômica que lhe trouxe o caos, consubstanciada na substituição do ministro da Fazenda.

Chega a ser risível que, como gota que transbordou o copo para a saída de Joaquim Levy, seja apontada a discordância com Nelson Barbosa sobre a meta fiscal, que o primeiro queria em 0,7% do PIB e o segundo a terá em 0,7%.

Levando-se em conta os números de 2014, que serão maiores que os do corrente ano e, segundo a “expectativa do mercado”, também que os do próximo, a “diferença” que “derrubou” Levy é de R$ 11 bilhões, uma bagatela que alguns privilegiados poderiam suprir por mero patriotismo.

Em outras palavras, Dilma está jogando solta. Vê-se que um acordo está em pleno vigor, sendo mesmo de crer-se que uma hipotética aceitação do pedido de impeachment caia já em primeira instância no Senado. Isso, claro, a depender do que vier acontecer ao “novo” investigado Renan Calheiros.

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Comentários

rosane santana on 21 dezembro, 2015 at 10:42 #

Caro, Luís, alguns poréns. Só me deterei, entretanto, em um deles. As manifestações de junho de 2013 não foram contra o governo Dilma. É nessa cilada, que muitos desatentos, caem. Indiciadas em São Paulo, pelo movimento passe livre, encontrou eco em todo o Brasil, diante da insatisfação com a democracia representativa, cuja representação não é mais política, mas de interesses, de há muito. Do espontâneo até os black blocs, posteriormente foram apropriadas por políticos conservadores. Assim, chegamos ao espantoso de vislumbrar Geddel Virira Lima, Ronaldo Caiado e outras figuras que tais pedindo o fim da corrupção e, finalmente, o impeachment de Dilma. Portanto, do impacto inicial do capitalismo global nas formas tradicionais de fazer política, chegamos a um movimento onde os atores e próceres das velhas formas assumiram o protagonismo. É assim, no Brasil, por incrível que pareça. Os conservadores tomaram a cena. Em lugar do avanço, teremos o retrocesso de sempre.


rosane santana on 21 dezembro, 2015 at 10:43 #

Correção: encontraram eco.


rosane santana on 21 dezembro, 2015 at 10:52 #

E o pior, há certos intelectuais completamente desatualizados, muitos por falta de acesso à leitura em outras línguas, especialmente na Bahia, que aderiram aos conservadores, de largada, como se aguardassem apenas um motivo, único que fosse, para justificar o voraz apetite para o adesismo e as benesses públicas. O velho vício coimbrano, não sai deles. Aos incautos, ainda proclamam ser pops e anarquistas. Meus Deus,baiano delírio! O que há de pop em Coimbra?


luiz alfredo motta fontana on 21 dezembro, 2015 at 11:44 #

Luís!

Meu considerado!

O calor arruinou, poesia desandou, filosofar perdeu o prumo.

Assim é, razões avessas explicam fatos inenarráveis, acredite!

Por girafa não ser ave, tatu não voa!
Por luz clarear escuro, cinza não amarela.
Por ter perdido a paciência, esqueci o enredo…

Mal não faz, o resultado é o avesso, ou não?!


luis augusto on 21 dezembro, 2015 at 13:22 #

Caro Vítor, essa sequência de textos (são quatro), no BP, saiu totalmente truncada. Dê uma checada. Abraços, Luís.


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