Glória, a cidade das lembranças do cronista, antes do tsunami
das águas da barragem de Paulo Afonso que a engoliu

Tempos de Palmyra e Moscatel

Janio Ferreira Soarel

Embora eu seja péssimo em matemática, por esses dias natalinos andei refazendo os caminhos sentimentais e gastronômicos da minha infância e descobri que eles formavam uma espécie de triângulo retângulo de incomparáveis delícias. Explico.

Do ponto A, onde ficava a minha casa, até o ponto B, onde se localizava a casa de Vó Téia, havia uma reta sombreada por tamarineiros e pés de fícus que eu percorria já salivando por conta dos quitutes que me aguardavam numa mesa localizada a um portão das águas do São Francisco.

Saciado (mas ainda com espaço para o melhor doce de leite do mundo), eu seguia até o ponto C situado na casa de Vó Niza, numa imaginária hipotenusa que passava rente ao adro da igreja, triscava os canteiros de onze-horas do jardim, pulava um banco da praça e finamente chegava ao vértice do cateto oposto, que mais tarde me puxava de volta ao A do desmedido amor de Cecília, dos longos cabelos de minha irmã e da fumaça do Minister do meu pai – aos meus olhos a imagem que mais se aproximava da materialização de uma alma penada se evaporando em direção ao oitão que sustentava a cumeeira do telhado antes de ganhar o Céu. Valei-me meu Santo Antônio!

A certeza de que o Natal estava prestes a dobrar a curva do sítio de seu Zé Ferreira, passar pelo cemitério e finalmente chegar em Glória, começava quando eu via os perus sendo engordados por hábeis mãos a lhes enfiar no bico uma mistura de milho aguado e quando duplicavam as novenas. Casas sendo caiadas e uma tia prendada se aproximando com uma trena nas mãos e alfinetes nos dentes para tirar medidas de novas calças e umas duas camisas 3/4, também eram fortes indícios de que logo mais as lapinhas estariam sendo montadas nas salas.

Mas somente quando chegavam os parentes da capital e eu via meu tio Waldemar (coletor estadual e apreciador da boa mesa) descendo da Rural de seu Daniel com a tão esperada cesta de vime lotada de produtos totalmente raros ao meu paladar, é que eu tinha a absoluta certeza da festa. Ao seu conteúdo, pois.

Lembro-me que as azeitonas espanholas eram divinais; que as nozes e amêndoas tinham seus predicados, embora longe do sabor das castanhas de caju assadas numa velha lata de fundo preto embaixo do próprio pé; que as uvas passas até caíam bem, apesar de eu preferi-las ainda na parreira, botocadas e sem rugas; que as ameixas em calda me causavam um certo asco por lembrarem pedaços de fumos mascados por bocas viciadas; que o azeite português só dizia ao que veio quando regado sobre as postas de um autêntico bacalhau assado num forno a lenha; que os biscoitos e suas lindas latas coloridas eram disputados a tapa.

Mas o que me pegava de jeito era quando Vavá me levava num canto da casa e, sem ninguém perceber, me presenteava com um generoso cálice de vinho Moscatel de Setúbal e uma lasca de queijo (tipo reino) Palmyra.

Ah, minha querida professora Nilda, que ora lê, corrige e depois guarda estas mal tecladas!; ah, meu querido Vitor, mestre moldado nas barrancas desta mesma aldeia!; ah, você, que me deu a honra neste 2015 de tantos cinismos boçais e agora, talvez, também esteja a recordar dos tempos em que as avós nos esperavam nas soleiras das janelas como uma fruta madura nos ambiciona nos quintais!; o que mais dizer diante desse retrogosto


Brossard: pensamento traído em citações de miistros do Supremo


Dilma e Lewandowski: aplausos mútuos.


ARTIGO DA SEMANA

De 1968 (livro de Zuenir) ao Supremo do ocaso de 2015

Vitor Hugo Soares

Vai chegando ao fim (feliz ou infelizmente) este incrível ano de 2015. Doze meses vividos com máxima intensidade, tensão e emoção à flor da pele. Do começo trôpego e atrapalhado na posse de Dilma Rousseff e ministros, em seu segundo mandato, ao desfecho desconcertante que se viu e ouviu esta semana, nas últimas sessões e decisões da Suprema Corte de Justiça da Nação sobre o impeachment da presidente da República, a partir das primeiras decisões da Câmara de Eduardo Cunha, e manobras de Renan no Senado. Tudo fica “praticamente na estaca zero”, da feliz definição do jornal espanhol El Pais em manchete. Ou menos de zero, se computada a queda do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, oficializada ontem (19) depois de inumeráveis trompaços do homem que Lula nunca aceitou no governo da afilhada. Nem o PT.

Antes do Judiciário brasileiro (começando pelos ministros do STF) decretar o recesso e entrar de férias, até fevereiro do ano que vem, em meio ao maior furdunço político econômico e institucional de que se tem notícia na história recente do País. Quem faria melhor (ou pior)?

Praticamente, todos os principais sinais indicam que estamos no ocaso de um ano destinado a deixar marcas tão ou mais indeléveis, na vida nacional, quanto o emblemático 1968. “O ano que não terminou” (segundo a percepção original exposta no livro famoso de Zuenir Ventura. O autor, para mim, mais que o bom romancista e narrador, um jornalista referencial, principalmente quando recordo da sua presença, (ao lado de Artur Xexéu) no comando da editoria do Caderno B, na redação do Jornal do Brasil, no Rio de Janeiro dos anos 70/80. Grife de alcance nacional do melhor jornalismo cultural feito no país na época. Espaço e fonte de registros especiais de algumas das minhas melhores recordações profissionais.

Mal (ou bem?) comparando, para efeito das metáforas possíveis nos testamentos jornalísticos habituais de cada ano, neste quase crepúsculo de 2015, (para muitos “o ano da Lava Jato, do japonês da PF e da justiça de Aldo Moro, no Brasil”). A exemplo de 1968, do livro de Zuenir, este 2015 a caminho do desfecho, teve também a sua antecipada grande e prolongada festa. Aconteceu nas três últimas sessões do Supremo presidido pelo ministro Ricardo Lewandowski, antes do recesso que vai até o mês do próximo carnaval.

Vale a pena recordar. Recordemos então, embora alguns (ou muitos) seguramente considerem esse exercício uma fuga intelectual de articulista pessimista ou enfastiado. Melhor faria, dirão, se estivesse tratando da Operação Vidas Secas (extensão nordestina da Lava Jato), que prendeu o presidente da OAS (já solto) e deu batida em escritórios e casas de executivos de outras grandes empreiteira nacionais, suspeitos de desvios de R$ 200 milhões e outras graves práticas de corrupção nas obras de transposição do São Francisco.

O rio da minha aldeia (nascí na margem baiana, a seis quilômetros de viagem de canoa até a pernambucana cidade de Cabrobó, – do martírio do bispo Flávio Cappio – no chamado “marco zero da transposição”), que sangra a céu aberto e cujas águas definham a olhos vistos, enquanto as obras se prolongam, indefinidamente, mas servem de cenário de engodo há mais de uma década: palanque oficial a cada eleição desde o Governo Lula, e cartão postal de propaganda em sofisticadas e custosas peças de marketing do Governo Dilma.

Pronto, falei! Agora retomemos o fio condutor da memória do princípio deste artigo.

“1968 – o ano que não terminou” começa com o réveillon promovido por Luís e Heloisa Buarque de Holanda, a Helô, na mansão do casal no Rio de Janeiro. Uma festa de arromba, real ou metaforicamente falando. O sonho e a luta comum pelo fim da ditadura militar davam origem, naquele louco happening, a uma inimaginável e a mais improvável aliança política que se pudesse imaginar na época. Com praticamente todas as tonalidades ideológicas e personagens, aparentemente, mais incompatíveis. De Geraldo Vandré a Caetano Veloso, passando por Nara Leão, Millôr Fernandes, Ênio Silveira “e o escambau”, para usar a linguagem de Leila Diniz, uma diva revolucionária daquele tempo. Hélio Gáspari, jovem e ferino jornalista que fazia os primeiros ensaios antes de assumir o comando da prestigiosa e demolidora coluna política Informe JB, pontuou: “Depois do Reveillon da Hellô, o Rio nunca mais foi o mesmo”. Bingo!

Conta-se que o advogado Rui Soberg, que chegou ao Reveillon com a mulher Gloria Mariani, pediu dois usques para aquecer e lhe puseram na mesa duas garrafas cheinhas até à tampa. Em resumo do livro de Zuenir, escrito para a Revista VEJA, Wilton Fonseca contou: “Nesse momento o jovem advogado pressentiu que a confraternização não terminaria bem. Ele não estava errado. A festa foi um marco: 17 casamentos desfizeram-se naquela noite ou em consequência dela.”

“Excessos etílicos, sexuais e políticos aconteceram em profusão. Houve um momento em que quase todos os presentes apanhavam ou batiam. A casa ficou inteiramente destruída. Às 8 horas da manhã, quando a festa acabou, sobraram 100 garrafas de uísque que foram vendidas para ajudar no conserto dos estragos feitos na mansão”. Wilton Fonseca conclui, naquele resumo de “1968” para a Veja: O “Reveillon” da Helô condensou, como uma metonímia, o país de então, a violência e o descontrole que dominariam o ano de 1968. “O nosso Titanic começava a sua viagem”.

Falta agora fechar estas linhas com uma pergunta que, provavelmente, não quer calar na cuca e na ponta da língua de muita gente: O que tem a ver o louco réveillon carioca de 1968, na mansão de Luís e Helô, com a festa de fim de ano iniciada na tarde de quarta-feira e encerrada na manhã de ontem (18), no palácio maior da Justiça do País, em Brasília, sob o comando de Lewandowiski? Os salamaleques, os tapinhas nas costas, mesmo a título de preâmbulo dos piores e mais traiçoeiros golpes verbais, jurídicos e técnicos (a exemplo do que alguns ministros fizeram com as palavras e o pensamento do político e insigne jurista, ex-presidente da Corte, Paulo Brossard, autor de “O Impeachement”, incorretamente citado, como denuncia sua filha indignada.

Paro aqui e mais não digo, nem sob tortura. O resto, responda quem souber.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br


Maravilhosa Karen Carpenter!!!
Ou melhor seria dizer eterna Karen do The Carpenter.
Façam a escolha, mas não deixem de escutar Carpenters e Karen nesta fantástica canção natalina.

BOM SÁBADO!!! FELIZ NATAL!!!

(Vitor Hugo Soares)

DEU NO BLOG POR ESCRITO (DO JORNALISTA LUIS AUGUSTO GOMES)

OPINIÃO

Uma “interpretação” razoável do Supremo

Diz, sobre o impeachment, o artigo 86 da Constituição: “Admitid0a I a acusação contra o Presidente da República, por dois terços da Câmara dos Deputados, será ele submetido a julgamento perante o Supremo Tribunal Federal, nas infrações penais comuns, ou perante o Senado Federal, nos crimes de responsabilidade”. E mais nada.

Daí pode-se estranhar a “interpretação” dada pelo STF à questão, atribuindo ao Senado a prerrogativa de arquivar por maioria simples um eventual processo de impeachment votado pela Câmara. Entretanto, esse é um acessório razoável, apesar de inócuo, que não precisa ser repudiado por um lado nem festejado por outro.

Quem tem maioria de senadores para arquivar o processo terá 27 – um terço do plenário – para rejeitar a condenação presidencial. Ou, ao contrário, para ficar claro, se os pró-impeachment não tiverem maioria simples para garantir o processo, muito menos terão dois terços para tirar a presidente do cargo.

O Supremo, pela maioria de juízes que assim entenderam, declarou que quem pode o mais pode o menos. Se o Senado, transformado em corte política, acha que não deve julgar, abre mão, por convicção própria, de um direito. Diante do tempo que já se perdeu e na atual disponibilidade de quadros para o exercício do poder, ganha o Brasil.

Justiça pelo amor de Deus!

Nestas circunstâncias da vida nacional, é inadmissível entrarem em recesso os Poderes Legislativo e Judiciário.

O Congresso poderia evitar a pasmaceira fazendo convocação extraordinária ou deixando rolar a sessão legislativa.

O Supremo Tribunal Federal deveria, por decisão unânime de seus ministros, dar à sociedade este presente e convocar-se a si mesmo, acima de eventuais regimentos e até da Constituição, que lhe cabe “interpretar”.

Mas chega de atos de grandeza.

Isto se chama calendário elástico

Nunca antes na história deste país o Natal e o Carnaval estiveram tão distantes. O Brasil jurídico-institucional fecha amanhã, 19 de dezembro, e só retorna sonolento ao escritório, de fato, em 15 de fevereiro.

DEU NO BLOG O ANTAGONISTA

Corrupção hereditária

Teori Zavascki autorizou a inclusão do deputado federal Mário Sílvio Negromonte Jr. num dos 38 inquéritos em trâmite na STF relacionados à Operação Lava Jato.

Segundo o Estadão, o ministro acatou pedido de Rodrigo Janot, que acusa Negromonte Jr. de receber uma doação ilegal no valor de R$ 500 mil da empresa Jaraguá Equipamentos Industriais, envolvida no esquema de corrupção da Petrobrás.

No mesmo inquérito, foi incluído o pai do deputado, o ex-ministro das Cidades Mário Negromonte (PP-BA), que já é alvo de outra apuração.

dez
19
Posted on 19-12-2015
Filed Under (Artigos) by vitor on 19-12-2015


Jarbas, no Diário de Pernambuco


André Esteves deixa a penitenciária Bangu 8

DO EL PAIS

Gil Alessi
De São Paulo

O ministro Teori Zavascki, relator do caso Lava Jato no Supremo Tribunal Federal, revogou nesta quinta-feira a prisão preventiva do banqueiro André Esteves, do BTG Pactual. Considerado uma das personalidades mais influentes do mercado financeiro no Brasil, ele estava detido desde o dia 25 de novembro sob a acusação de estar destruindo provas das investigações em curso. O empresário foi citado na delação premiada do doleiro Alberto Youssef, segundo a qual uma empresa ligada a Esteves e ao BTG teria se envolvido em um negócio com subsidiária da Petrobras no qual foi pago suborno no valor de 6 milhões de reais.

Para a força-tarefa da Lava Jato existem ainda outros indícios da participação de Esteves no escândalo de corrupção da Petrobras. Um deles foi um empréstimo de 104 milhões de reais feitos por seu banco a uma companhia do pecuarista José Carlos Bumlai, preso em 24 de novembro na operação Passe Livre. Ele também teria sido citado pelo senador Delcídio do Amaral (PT-MS) – também detido – em uma negociação para ajudar o ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró a fugir do país. Além disso, a Polícia Federal apreendeu um bilhete escrito pelo empreiteiro Marcelo Odebrecht, que está preso preventivamente, no qual ele cita uma “história de iniciativa de André Esteves” envolvendo a Sete Brasil, empresa fornecedora da Petrobras que tem ligação com o BTG.

O ministro Zavascki condicionou a liberação do banqueiro a uma série de medidas cautelares: ele terá que se afastar da direção das empresas envolvidas na investigação, terá que se submeter à prisão domiciliar, terá seu passaporte retido e precisará se apresentar quinzenalmente à Justiça. Esteves não precisará usar tornozeleira eletrônica, medida que tem sido adotada com alguns investigados da Lava Jato que foram soltos nos últimos meses. O magistrado argumentou que não foram encontrados em poder do banqueiro “documentos sigilosos relativos a colaborações premiadas”, e também “não foram colhidas provas no decorrer das investigações” que demonstrassem a necessidade de mantê-lo na prisão.

Já o senador Delcídio, preso junto com o banqueiro, teve seu pedido de liberdade indeferido pelo STF. Em seu despacho, Zavascki afirma que as acusações do Ministério Público Federal, de que o parlamentar “não media esforços para atingir os fins ilícitos (…) em ter recursos desviados pelos cofres públicos para interesses exclusivamente privados”, continuam “inalteradas”. “Ao contrário, foram encontradas na posse do chefe de gabinete do Senador Delcídio Amaral anotações que corroboram os indícios probatórios já existentes”, afirma o magistrado em seu parecer.

Quem é André Esteves

Hoje com 46 anos, Esteves começou a fazer sucesso cedo. Começou a carreira no Banco Pactual, em 1989, quando tinha 21 anos. Quatro anos depois, tornou-se sócio da instituição. No fim de 2008, deixou o banco para fundar outra instituição, o BTG que, logo depois, comprou o Pactual. Foi assim que Esteves fundou o BTG Pactual, que se tornou hoje um dos maiores bancos de investimentos do Brasil e da América Latina. A entidade financeira gerencia hoje 302 bilhões de reais e, neste ano, o banco faturou 6,5 bilhões de reais até o mês de setembro. O grupo tem participação em mais de 20 empresas em setores diferentes.

Com graduação em Ciências da Computação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Esteves é membro do Conselho da BM&FBovespa e da Federação Brasileira de Bancos. Em 2012, foi considerado o 13º brasileiro mais rico, segundo levantamento da Forbes. A fortuna do bilionário estava avaliada em 3 bilhões de dólares. O valor de suas empresas, no entanto, caiu diante do escândalo da Petrobras.

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