Fogo resiste na Chapada e exibe incapacidade oficial
no combate à devastação no coração da Bahia

DEU NO PORTAL G1/ O GLOBO

Tatiana Dourado

Do G1 BA
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Considerada o coração da Bahia, a Chapada Diamantina, um destino de turismo de aventura mundialmente conhecido, sofre há meses com incêndios que comprometem a biodiversidade do Parque Nacional. Desde novembro, quando as chamas ganharam força, ao menos 50 mil hectares foram queimados, de acordo com a Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema) – um dos pontos mais devastados é o entorno do Morro do Pai Inácio, perto de Lençóis. Apesar da proximidade das festas de fim do ano, como o réveillon, a farta rede de hospedaria sente a redução do número de visitantes. O G1BA procurou alguns dos principais hotéis e pousadas, e parte teve baixa de até 50% nas reservas.

“Estamos bem próximo ao réveillon e temos somente metade das acomodações vendidas. Normalmente, nesse período, já estamos fechando as últimas reservas. Faço relação direta com os incêndios. É uma pena, mas é verdade. Tudo isso gera insegurança, porque o turista é cauteloso”, disse Ney Paulo, gerente do hotel Canto das Águas, em Lençóis. Paulo afirmou que as atrações não estão fechadas e podem ser visitadas normalmente, mas que as marcas das queimadas são visíveis. “Está de cortar o coração. Os atrativos funcionam, mas com imagem desagradável que ninguém gostaria de ver. A nossa sorte é que a Chapada tem uma área bastante extensa e é possível fugir para locais fora dessa questão do fogo, como a Cachoeira do Sossego, Poço Encantado, Lapa Doce, Pratinha”, citou.
Fogo no Capão, na Chapada Diamantina, na Bahia (Foto: Emannuel

A portuguesa Cristina Secio, recepcionista da pousada Vila Serrano, também em Lençóis, contou que os turistas geralmente entram em contato para monitorar como está a situação do fogo, e que a equipe tenta reverter possíveis cancelamentos explicando que a situação não interfere no turismo.

“Apesar dos cancelamentos, temos conseguido explicar às pessoas que podem nos visitar da mesma forma e que a maior parte dos roteiros não está fechado. Temos muitas reservas de brasileiros, mas também de franceses, ingleses, norte-americanos, australianos. A notícia negativa acaba por prejudicar o turismo”, relatou.

A cerca de 80 km de Lençóis, a procura pelo Vale do Capão também é diretamente afetada. Na Pousada Lendas do Capão, o gerente Cristiano Argolo indicou que apenas quatro dos 22 quartos estão reservados atualmente. “Normalmente, nessa época estamos com pelo menos nove quartos alugados, porque o pessoal compra bem na hora. As notícias impactam, porque o pessoal acha que o fogo está aqui dentro. Conheço várias pousadas e estão todas vazias. O fim de ano vai ser difícil”, comentou.

Silvia Martins, dona da pousada Pé no Mato, estima em 50% os cancelamentos. “Mas outras pessoas apostam e acreditam que daqui para lá vai chover. Teve gente que desmarcou até para o carnaval. Quando o incêndio foi noticiado na mídia, as pessoas começaram a cancelar. Mas naquela época não tinha fumaça no Vale. Trilhas ativas, o turismo normal. Lógico que estamos tristes, 5% do parque foi queimado. Mas o lugar que pegou fogo ninguém nunca andou, as pessoas acham que é aqui, mas estamos do outro lado. Agora, sim, dá para ver a fumaça”, apontou.

Emmanuel Requião, proprierário da Pousada do Capão, também conta com os turistas que são adeptos do local e não desistem da visita mesmo com o fogo. “As pessoas conhecem o Vale, sabem que é agradável. Claro que uma parte dos passeios fica comprometida, mas há procura. O fogo afetou menos [locais] do que poderia ter afetado. Tem Angélicas, Rio Preto, Gerais [do Vieira], Riachinho, Conceição dos Gatos”, apontou como exemplos dos atrativos. “A Chapada tem intimidade com o fogo, assim que chove fica tudo verdinho, já volta a se recuperar. Mas o céu está limpo, não tem nenhuma nuvem. Esse é o grande problema. As duas chuvas que deram, que achávamos que daria um refresco, foram muito poucas”, disse.

Situação climática

Não há previsão de chuvas significativas na Chapada Diamantina pelo menos até a quarta (16), segundo o metereologista Heráclio Alves, do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema). “Se tiver, será bem fraca e passageira”, contou. O clima continua seco, a temperatura alta e a umidade baixa. Tudo isso por conta de uma massa de ar quente e seco.

“Isso impede a formação de nuvens e a ocorrência de chuvas. A massa se intensifica mais pela influência do El Niño. A frente-fria que avança do sul do país não consegue romper a massa de ar seca. Com isso, ela bloqueia, fica parada, ou se desloca para o oceano”, disse. Alves explicou que a massa cobre todo o estado e que não é comum, nessa época do ano, a falta de chuva.

Situação crítica
A preocupação está concentrada em três áreas: o Capão, a Cachoeira da Fumaça e o Morro Branco, informou o secretário Eugênio Spengler. Continua crítico o incêndio na região do Vale do Capão. Quatro trilhas estão fechadas: Cachoeira da fumaça, Fumacinha, Véu de Noiva e Buracão. Brigadistas e equipe de bombeiros do governo conseguiram evitar que as chamas invadissem a área urbana, mas ainda há risco do fogo se alastrar. Quatro trilhas continuam interditadas, são elas Cachoeira da Fumaça, Fumacinha, Véu de Noiva e Buracão.

“Quero registrar que a situação do incêndio na Chapada é altamente crítica. Na madrugada o fogo chegou muito próximos às residências [do Capão]. Tudo isso é agravado com situação de seca extrema, baixíssima umidade e ventos”, explicou Spengler. A operação do programa “Bahia Sem Fogo” é realizada com 60 bombeiros militares, 40 brigadistas, oito peritos, além de quatro veículos tracionados, três helicópteros e seis aviões “air tractors”, que conseguem transportar até 3,8 mil litros d´água. Foi pedido o apoio da Defesa Civil Nacional e a resposta deve sair nas próximas horas, informou o secretário.

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