DO BAHIA JÁ (CULTURA)

ROSA DE LIMA

Diógenes Rebouças no livro de Symona

A Coleção “Gente da Bahia” editada pela Assembleia Legislativa lançou mais uma preciosidade com texto da jornalista Symona Gropper (305 páginas com fotos e ilustrações, EGBA, 2015) sobre a biografia de Diógenes Rebouças, arquiteto autor de importantes obras em Salvador – Estádio Octávio Mangabeira (Fonte Nova), Escola Parque do Centro Educacional Carneiro Ribeiro (Caixa D’água), Avenida Contorno, Hotel da Bahia, Escola Politécnica da UFBA, Escola de Arquitetura da UFBA, Edificio comendador Urpia, etc – e que atuou com uma arquitetura integrada à cidade, sem agredí-la como é comum nos dias atuais.

Disse na inicial que o livro é uma preciosidade porque pouca gente conhece a personalidade Diógenes Rebouças e sua importância para a arquitetura baiana e para a cidade do Salvador, sua visão humanista e o amor que tinha pela capital, cidade que adotou como sua. Diógenes nasceu em Amargosa e conheceu a cultura do cacau quando sua familia mudou-se para Itabuna, onde iniciou os primeiros estudos.

O livro de Symona, bem escrito, de fácil leitura, traz depoimentos de arquitetos que conviveram com Rebouças, de seus familiares, de amigos e isso reforça o traço de sua trajetória profissional, de um homem avesso a qualquer tipo de estrelismo, reservado por natureza, tímido, mas de uma personalidade forte, opiniões firmes sobre os projetos que criou, defendeu e executou.

O diálogo inicial de abertura do livro com Mário Leal Ferreira, do EPUCS, sobre o local onde deveria ser construido o Estádio da Fonte Nova, ele que chega a capital a convite de Leal Ferreira, revela sua personalidade de homem determinado, de uma pessoa que além de ter opinião própria a sustentava com vigor, não aleatoriamente, mas, diante da lógica e da realidade.

Diógenes Rebouças cresceu aos poucos, o projeto da Fonte Nova foi a vitrine. Conseguiu seu lugar ao sol na história da arquitetura baiana graças ao trabalho em obras para a Bahia e Sergipe, sempre feitos com muita categoria e pioneirismo.

Não foi uma figura de fácil convivência no trabalho, em seu escritório, e nos locais onde ensinava. Era aquele tipo durão, introspectivo, detestado por muitos e amado por poucos.

Terminou o curso de pintura na Escola de Belas Artes em 1937 e recebeu o título de professor de desenho e pintura, mas saiu da EBA sem concluir o curso de arquitetura. Nunca se formou. Em 1952 recebeu o título de arquiteto da UFBA, segundo a autora, “quase um título honorífico para viabilizar uma prática que já existia”.

Diógenes se transformou numa figura mitológica da arquitetura baiana. Era considerado o primeiro arquiteto moderno da Bahia, urbanista e artista plástico, além de engenheiro agrimensor e professor.

“Diógenes era polivalente. Conseguia fazer arquitetura das mais diversas tipologias e escalas”, constata Nivaldo Andrade em depoimento a Symona.

“Tímido, fechado, de comunicação dificil, Diógenes não tinha a mesma relação com todos os alunos, nem dava a todos a mesma atenção”, comenta em depoimento, Paulo Ormindo, o qual cita que Rebouças criou duas categorias no alunado a dos ‘preteridos” e dos “peixinhos de Diógenes’.

Por que personagem tão contorversa, amigo de grandes empresários e de governadores, com vida familiar de poucos amigos, de dificil trato profissional e no ensino, obteve tanto destaque na arquitetura baiana?

Entende-se por sua genialidade, pela forma como trabalhava ajustando os projetos à topografia da cidade sem nocauteá-la, por sua dedicação aos projetos que executou de corpo e alma, por ser um perfeccionista. Se não gostava de um desenho (naquela época não havia computadores) rasgava imediatamente.

Um dos seus alunos mais próximos e depois colaborador, Helidorio Sampaio, conta que Diógones costumava repetir a seguinte expressão: – Heliodorio, papel aceita tudo. O projeto de arquitetura, o desenho pode ser rasgado e jogado fora. Mas depois que você faz a obra, ela está lá para o resto da vida, certa ou errada. Se for feita com erros, estará sempre lá, espiando nossos equívocos.

Diógenes era muito seletivo e critico com os arquiteots. De sua geração não gostava de ninguém, classificava-os de “desprezíveis”, segundo informa Ronan seu confidente.

Durante pelo menos 20 anos, só Diógenes era escolhido para as grandes obras na Bahia. Entre os anos 1940 e 1960, ele reinou absoluto e deixou a sua marca de forma indelével para a capital biana – cita a autora e completa: não houve qualquer outro arquiteto a ter tanto poder como ele. Nenhum projeto arquitetônico ou urbanístico se fazia na Bahia sem passar pela sua avaliação. E todos os projetos que não fez, ele indicou quem os fizesses.

É essa história que Symona Gropper oferece aos leitores em capítulos bem estruturados e de fáeis leituras: o homem – as peripécias familiares com Dulce, Delza, Diozinho, Ronan e outros; o arquiteto e urbanista – o Epucs, a Avenida Contorno, o escritório, o Hotel da Bahia, a Escola Parque, projetos; o professor – sedutor critico, vozeirão, MAM-BA, UFBA; o artesão plástico – dicumentarista da Bahia; e uma galeria de suas pinturas.

Isso, Diógenes produziu várias pinturas da cidade do Salvador dos anos 1940 e pouco mais, de locais que hoje sequer existem mais, como a Rua do Colégio, a antiga Igreja de São Pedro e a Sé Primacial com vista para a Baía de Todos os Santos.

Para quem deseja conhecer a cidade do Salvador um pouco mais, na essência, esse é o livro.

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