Silvio Fróes (1946-2015).

Réquiem para um botafoguense

Lucas Fróes

A voz emulando um tom infantil, para dizer os maiores impropérios, transformava absurdos em comédia. O Rio de Janeiro é a extensão da Bahia e vice-versa. O pior detrator é aquele que conhece bem sua terra, porque é justamente o que mais gosta de falar mal.

– É tudo filho de puta!

O vocabulário bem particular não deixava dúvidas.

– Nem com banqueta e três-oitão!

O bordão era sobre alguém muito teimoso, que não larga o osso de jeito nenhum. Desbocado desse jeito, vai gostar de ser apresentado a Hermes & Renato.

“Realmente, é minha cara. Gostei muito, principalmente dos diálogos”.

O negacionismo risonho lhe obliterava os cinco sentidos ante a violência carioca. Ele nunca via porrérima nenhuma. Se algo aconteceu no bairro, não é porrérima nenhuma. E se os disparos foram na sua própria rua, também não foi porrérima nenhuma.

Pronto, Tio Silvinho virou o Tio Porrérima.

Mas não o confundam com as Tias. Ele parece até que viu todo mundo sair do armário. Diverte-se explicando que Fulano é tia, que Beltrano também é tia e que Sicrano, esse então, é tiésima. E ainda tem aquela bicha tão antiga que já não é nem tia, nem avó. É Bisa.

Viva Clóvis Bornay! Viva Cauby Peixoto! Viva Padre Pinto!

Para fazer valer a longevidade da família é preciso alguma parcimônia. Ele agradece, mas não quer que interfiram na plena posse dos seus sentidos hedonísticos.

– O médico disse que pode tudo, só não pode respirar.

Respirar até pode, só não deve beber, fumar e torcer para o Botafogo. Mas suas roupas e seu telefone celular exalam cheiro de fumaça, como se também fumassem junto com ele.

É um amante da vida! Barravento, Modern Sound, Braseiro, Jobí ou qualquer boteco em que se possa beber um chopp encostado no balcão. A cerveja, insiste, não faz mal.

– É o meu hidratante.

Poucas pessoas cuidaram tão bem da hidratação! Seja qual for a estação do ano, hidratar é preciso.

Tampinha da Guanabara, Filósofo de Bolso, Dustin Hoffman de Copacabana.

Ninguém cresce nunca! Quase sete décadas de experiência não amenizam a ansiedade de debutante. Não pode esperar um segundo, o que dirá até amanhã. Fala pelos cotovelos, escreve pelas cartas e pelos bilhetes deixados de madrugada.

“Maluf foi preso. Beijos.”

Pena que a novidade não é mais atual.

Piloto de carrinho de rolimã na Ladeira dos Aflitos, torcedor de Fórmula 1 até o último domingo. Pior para Rubinho, que mereceu ter a pronúncia do nome ironicamente alterada, por conta das pataquadas na pista. Pena que a tevê não fazia a mesma tradução das conversas pelo rádio entre piloto e equipe.

– Rubino, seu filho de puta, a Ferrari vai pagar o conserto do carro com um cheque de seu pai!

Pelouro, apelido de craque requisitado na época da Cidade da Bahia em preto-e-branco. Branco e preto como o seu Alvinegro da estrela solitária.

Há certas coisas que só acontecem ao Botafogo, diz a antiga máxima de Carlito Rocha, o mítico ex-presidente do clube, que não desgrudava do cachorro Biriba. O Botafogo é um time que já entra em campo vestido de zebra. É fácil ganhar uma aposta dos botafoguenses, eles quase nunca riem por último. Nessa hora, estão mais acostumados ao chororô. Pelo telefone, atirando para todos os lados, é melhor mudar de assunto.

– Lula quer levar o Pão de Açúcar pra São Bernardo do Campo!

O exagero cômico e a blague contra os paulistas são muito anteriores ao nouveau antipetismo.

Em 1968, a trincheira era outra e o perigo iminente. Era preciso estar atento e forte. A banqueta e o três-oitão não eram só metáfora. Se safou pulando o muro da UFRJ, antiga Universidade do Brasil, enquanto os estudantes que não tiveram a mesma sorte foram levados ao campo do Botafogo e espancados pela escória dos belenguins, em um conhecido episódio dos Anos de Chumbo, estopim para a Sexta-Feira Sangrenta do dia seguinte.

Justo no campo do Botafogo! Há coisas que só aconteciam em 1968.

– Andar com esses livros naquela época era pior do que ser pego com cocaína hoje em dia.

Livros escritos por um grande, e hoje lamentavelmente esquecido, “comunista” baiano.

De lá para cá, muita farsa e tragédia. Seis a zero pra um lado, seis a zero pro outro, além de um 6 x 1 de lambuja; Maurício tirando o Botafogo da fila, com um empurrãozinho em Leonardo; Túlio, o artilheiro comediante, marcando gol impedido. E ainda Loco Abreu fazendo a camisa alvinegra virar celeste, além de Seedorf jogando a saideira.

Sepultado com a bandeira do Botafogo, no dia em que o time voltou para a 1a. divisão, os três dias de luto que o clube decretou, em homenagem a Sandra Moreyra, coincidiram de também lhe servirem. Há coisas que só acontecem aos botafoguenses.

Morrer dormindo é a melhor morte, quem vai não sofre nada. Quem fica tem a tarefa e o alento de lembrar. Mas para fazer jus ao que ele sempre foi, o ideal seria que morresse falando. Se bem que, pra quem falava até enquanto dormia, sonhando em alto e bom som, talvez esse tenha sido o desfecho ideal.

Lucas Fróes é jornalista. Sobrinho querido de Silvio Fróes, o botafoguense de fato até dormindo.


Botafoguense de carteirinha.

Be Sociable, Share!

Comentários

luis augusto on 10 dezembro, 2015 at 14:00 #

Já se vê na carteira como eram os datilógrafos da época. O cara tava preso nas maiúsculas, e quando chegou a hora do acento ele deixou, saiu o grave.

Mas não é isso que quero falar. E sim que naqueles tempos da infância era forçoso torcer por um time da terra e ter outro “no Rio”.

O meu era Botafogo, por causa de Garrincha. Vibrei aos montes, anos depois de Mané, com os quatro títulos de 67 e 68. Saindo da adolescência, sofri com a inacreditável perda do campeonato carioca de 71.

Adulto, compreendi que era vítima do bairrismo esportivo sulista alimentado, como até hoje, por uma imprensa em geral rasa, algo deplorável, mesmo tratando-se de esporte, e fui me desligando emocionalmente do Botafogo. Fiquei só com o Vitória, do meu avô Antônio Cypriano Gomes (1874-1960).

Nos anos 90, em A Tarde, caçavam-se um botafoguense e um santista para escreverem sobre uma final de campeonato brasileiro. Alguém de melhor memória lembrou que eu tinha torcido pelo Botafogo e poderia dizer alguma coisa.

Depois de matutar, escrevi considerações semelhantes às presentes e titulei: “Que vença o alvinegro”.

No mais, estou tocado pelo texto de Lucas sobre o talento do tio Sílvio Deolindo Fróes Neto, realmente notável, de quem não traiu a linhagem do avô. Ainda na carteira do clube, nota-se que ele era mesmo contra a ordem estabelecida: o número 4312 da matrícula.


vitor on 10 dezembro, 2015 at 17:55 #

Grande Luis Augusto. Isso mesmo!!!

Mais que uma justa (e merecida) homenagem ao lendário botafoguense de quatro costados, Sílvio Fróes, um belíssimo texto jornalístico de Lucas. De profissional bem informado, que sabe das coisas e sabe escrever com grande sensibilidade e bom humor.Além disso, uma generosa lembrança de outra figura e botafoguense ímpar, Sandra Moreyra. “Botafogo, Botafogo, campeão”…Complete quem souber.


luis augusto on 10 dezembro, 2015 at 19:47 #

“… desde 1910”.

O original era “de 1910”. Com o passar do tempo, como parecia que o time só tinha um título, entrou o “desde”.


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos

  • dezembro 2015
    S T Q Q S S D
    « nov   jan »
     123456
    78910111213
    14151617181920
    21222324252627
    28293031