Barbosa e D`Ávila na Globo News: ideias
e jornalismo de primeira

ARTIGO DA SEMANA

Joaquim Barbosa na TV: Trilhas no país em sobressaltos

Vitor Hugo Soares

No deserto de homens, de ideias e de princípios que o Brasil apresenta, a si mesmo e ao mundo nestes dias de começo de dezembro, prenunciadores de um longo verão de sustos quase diários (a julgar pelos fatos graves e vertiginosos das duas últimas semanas, incluindo a aceitação do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff e seus desdobramentos), eis que algumas trilhas e uma réstia de luz surgem na telinha da TV.

Refiro-me, evidentemente, à entrevista exclusiva do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, dada ao jornalista Roberto D’Ávila no canal privado de televisão Globo News, na quarta-feira, 2, para não esquecer. Ironicamente (ou não?) na data comemorativa do Dia Nacional do Samba, o resistente ente brasileiro que “agoniza mas não morre”, segundo o canto consagrado por Beth Carvalho. O programa foi a grata surpresa no meio do caos e da geleia geral, dos tempos atuais.

O entrevistado, figura polêmica e referência do país na atualidade (desde o processo do Mensalão que ele conduziu no Supremo Tribunal Federal, galvanizando atenções internas e internacionais), bem cotado (o que é raro atualmente) em praticamente todas as pesquisas de opinião pública dos melhores institutos. Só comparável, talvez, a outro juiz exemplar: Sérgio Moro, o condutor da Operação Lava Jato. Não por acaso, ambos firmes e corajosos membros do Judiciário, dedicados ao combate sem tréguas à corrosiva corrupção que grassa, igualmente, nos âmbitos público e privado da vida brasileira, a ponto de transformar-se, ultimamente, na maior preocupação da sociedade brasileira. “O que é extremamente positivo, considera o entrevistado.

Joaquim Barbosa, magistrado voluntariamente aposentado, no domínio pleno de pensamento e ação, que foge aos padrões da trivialidade e obviedade do falar e agir destes dias egocêntricos, interesseiros e pusilânimes: um tipo avesso a salamaleques e tapinhas nas costas, com sangue de verdade correndo nas veias. Inflexível e duro nas questões éticas e de princípios (às vezes explicitamente magoado, amargo mesmo, como se revelou na conversa na Globo News, ao falar de racismo no Brasil e do tratamento que recebeu da imprensa e das corporações em sua passagem pela chefia do STF, da qual diz não sentir saudades.) Mas dotado daquela “santa indignação” que eleva o ser humano, de que fala Nelson Rodrigues em suas crônica e romances.

O ex-presidente da Suprema Corte retorna à telinha “para falar sobre a situação do Brasil”, um ano e meio depois de ter deixado o posto onde poderia ter permanecido por mais tempo legalmente e, em seguida, ter renunciado à magistratura, abandonando a vida pública. Quando, então, deu a entrevista histórica que marcou a inauguração do programa de Roberto D’Ávila no canal privado da Globo.

Instado pelo apresentador (elegante, sóbrio e bom jornalista como sempre) a dizer como vê seu país hoje, Barbosa economiza discurso, mas é perfeito na observação, ainda mais se sabendo que a conversa foi gravada antes dos acontecimentos da quarta-feira:

“Vejo o Brasil como um país que vive a sobressaltos. A cada momento é uma coisa nova. uma estupefação maior para a população”. Perguntado sobre as raízes dessa situação, ele é ainda mais efetivo e vai direto ao ponto. “O que há é o início de uma confrontação do país consigo mesmo. O Brasil não se conhece. O brasileiro não sabe direito como a nação, como o estado brasileiro se formou. Qual é a gênese deste mal estar, dessas descobertas infelizes que nos assaltam praticamente a toda semana. E elas estão, seguramente, nesta maneira trefega como o Brasil se formou… E isso foi formando esse caldo de cultura, de privilégios de patrimonialismo, de clientelismo que estamos vendo agora”.

Mais não digo, nem precisa. Porque a entrevista corre nas redes sociais, nos jornais, nos blogs da internet, e deveria, por seu conteúdo, circular e ser motivo de estudos e debates nas escolas e universidades brasileiras. Antes do ponto final, só o registro de que para Joaquim Barbosa, ao contrário do que muitos pensam ou afirmam, parte das instituições brasileiras não está funcionando. “E a que menos funciona é a Presidência da República”. Em segundo lugar, vem o Congresso, onde o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, age “com a mais completa irresponsabilidade”.

No nosso sistema político, a Presidência é o centro de gravidade. O presidente é o catalisador de todas as ações, ele se comunica diretamente com a Nação, este é o seu papel mais importante. Isso não acontece no Brasil. A presidente Dilma só se comunica com os seus, com os amigos, com o seu tutor”. Na mosca! E desce o pano até o próximo capítulo ou o desfecho desta história nada exemplar. Bravo Joaquim Barbosa! Parabéns (mais uma vez) Roberto D”Ávila

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor-soares1@terra.com.br

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 5 dezembro, 2015 at 8:23 #

Caro VHS

Porque hoje é sábado o BP é obrigatório, porque sábado é hoje, o artigo da semana é a própria pauta.

Mas, este sábado, salvo melhor juízo, o famoso e surrado “smj”, produz imperfeições.

Barbosa é magistrado?

Ministros do STF são todos magistrados? Nem sempre, quando oriundos do MP ou da OAB, “estão magistrados”, fato temporário, embora significante.

Barbosa é oriundo do MP.

Aqui seu curriculum publicado no site do STF:

——————————-

MINISTRO JOAQUIM BARBOSA
Antes de sua nomeação para o Supremo Tribunal Federal, o Ministro
Joaquim Barbosa exerceu vários cargos na Administração Pública Federal. Foi membro
do Ministério Público Federal de 1984 a 2003, com atuação em Brasília (1984-1993) e
no Rio de Janeiro (1993-2003); foi Chefe da Consultoria Jurídica do Ministério da
Saúde (1985-88); foi Advogado do Serviço Federal de Processamento de DadosSERPRO
(1979-84); foi Oficial de Chancelaria do Ministério das Relações Exteriores
(1976-1979), tendo servido na Embaixada do Brasil em Helsinki, Finlândia; foi
compositor gráfico do Centro Gráfico do Senado Federal.
Paralelamente ao exercício de cargos no serviço público, manteve
estreitas ligações com o mundo acadêmico. É Doutor e Mestre em Direito Público pela
Universidade de Paris-II (Panthéon-Assas), onde cumpriu extenso programa de
doutoramento de 1988 a 1992, o qual resultou na obtenção de três diplomas de pósgraduação.
Cumpriu também o programa de Mestrado em Direito e Estado da
Universidade de Brasília (1980-82), que lhe valeu o diploma de Especialista em Direito
e Estado por essa Universidade.
É Professor licenciado da Faculdade de Direito da Universidade do
Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde ensinou as disciplinas de Direito Constitucional
e Direito Administrativo. Foi Visiting Scholar (1999-2000) no Human Rights Institute
da Columbia University School of Law, New York, e na University of California Los
Angeles School of Law (2002-2003).
É assíduo conferencista, tanto no Brasil quanto no exterior. Foi
bolsista do CNPq (1988-92), da Ford Foundation (1999-2000) e da Fundação Fullbright
(2002-2003).
É autor das obras “La Cour Suprême dans le Système Politique
Brésilien”, publicada na França em 1994 pela Librairie Générale de Droit et de
Jurisprudence (LGDJ), na coleção “Bibliothèque Constitutionnelle et de Science
Politique”; “Ação Afirmativa & Princípio Constitucional da Igualdade. O Direito como
Instrumento de Transformação Social. A Experiência dos EUA”, publicado pela Editora
Renovar, Rio de Janeiro, 2001; e de inúmeros artigos de doutrina.
Nasceu em Paracatu, MG, onde fez os estudos primários no Grupo
Escolar Dom Serafim Gomes Jardim e no Colégio Estadual Antonio Carlos. Cursou o
segundo grau no Colégio Elefante Branco, de Brasília. Fez também estudos
complementares de línguas estrangeiras no Brasil, na Inglaterra, nos Estados Unidos,
na Áustria e na Alemanha.

——————————–

Pois é, nada consta como exemplo do exercício da magistratura, privativo dos que prestaram o devido concurso, até ser ungido à toga pelo “namorado” de Rose.

Aqui o grande senão, afinal indicações podem ser apenas caprichos, isso explica Toffoli, com suas reprovações anteriores para a magistratura.

Acreditar que sempre os melhores de suas corporações são aquinhoados não sobrevive à singela reflexão. Basta lembrar que o baiano J.J. Calmon de Passos, jamais foi indicado, mesmo sendo, provavelmente, o grande e inatacável destaque da história do MP.

J.J. Calmon de Passos não foi capricho de algum governante de plantão em busca de elogios à escolha inédita.

Assim, só para recompor meu sábado, ouso dizer, com as devidas vênias de estilo, Barbosa esteve magistrado, por capricho lulista.

Tim Tim!

E tempo, Moro é magistrado!


ISA on 5 dezembro, 2015 at 13:02 #

A análise feita por VHS é perfeita. Conseguiu sintetizar o pensamento dos que pensam em construir uma Nação e pedir a Deus que surjam verdadeiros estadistas. Acho que existem alguns poucos, como por exp FHC, que não votei nele mas agora reconheço sua importância, neste panorama tão degradante. Parabéns VHS pela sua lucidez


Jader martins on 5 dezembro, 2015 at 17:05 #

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