Luminosa visão em Paulo Afonso


CRÔNICA

Nós sempre teremos Ximbinha

Janio Ferreira Soares

Enquanto em Paris governantes buscam soluções para melhorar o clima do mundo, aqui no sertão a brisa das primeiras manhãs do mês doze sopra o suficiente para enganar o turista que se exercita na longa avenida onde pousavam os aviões da minha infância. Saltitante, mal sabe ele que logo mais o seu corpo vai sentir na pele uma pequena amostra do que o meu constantemente padece desde o dia em que Cecília me expôs à luz desse sol que, se por um lado queima e atormenta quando a pino, por outro deslumbra o mais tosco dos mortais na hora em que calmamente se holandiza e se esvai.

Coisa que gosto é pegar o carro bem cedinho e rodar sem destino pela cidade ainda quieta, apenas começando seus primeiros movimentos. Aí giro o botão do rádio e ele passa pela sanfona de Gonzaga; pelos detalhes de Roberto; pelos falsos milagres de um pastor histérico e pelas primeiras notícias do dia, que, oh, novidade!, são as mesmas de sempre somente acrescidas de mais um novo atentado, de mais escândalos da Lava Jato e de estilosos mocassins italianos implorando exclusão no lamaçal do descaso. Tristes rimas, triste sina.

Dobro a esquerda e vejo algumas pessoas numa fila em frente a um carrinho de tapioca e na sombra de uma mangueira esperando a loja em promoção abrir suas portas. Mais adiante melancias voam nas mãos de dois rapazes que as descarregam de cima da carroceria de um velho Chevrolet, enquanto um terceiro as empilham numa esburacada lona estendida no chão do mercado. Mulheres passam com cestos de verduras nas cabeças, pombos bicam farelos de milho no asfalto e alunos de cabelos ainda molhados seguem lentos e com caras de pouca vontade. Não estivesse a atual conjuntura coalhada de uma pesadíssima galera lesa-tudo, diria até que nessas bandas a vida flui em sua clássica cadência.

Dou mais uma zapeada no rádio e numa estação distante está tocando o tema de Casablanca. Impossível não me lembrar de Rick Blaine (Humphrey Bogartquando, diante da chance de embarcar para a América com sua querida Ilsa (Ingrid Bergman), desiste em cima da hora e, ao ser questionado por ela com a pergunta: “mas e quanto a nós?”, tasca o definitivo e arrasa quarteirão: “nós sempre teremos Paris”.

Em cima dessa expectativa de uma felicidade pós-the end, margeio sem pressa o espelhado rio duplicando garças e faço de conta que tudo o que está acontecendo nesse assombroso ano prestes a partir não passa de um filme de terceira, embalado por uma trilha sonora composta e executada por Joelma e Ximbinha. Aí aproveito o mote e idealizo algumas frases que bem poderiam ter sido ditas por alguns casais que dominaram a cena em 2015.

Dilma para Cunha: “Eu sempre terei Lewandowski”. Cunha para Dilma: “Eu sempre terei um ar de deboche só pra te sacanear”. Maju para Bonner: “Nós sempre teremos Fátima entre nós”. Bumlai para Lula: “Nós sempre teremos espermas de bois para justificar os empréstimos voadores”. Aécio para Luciano Huck: “Nós sempre teremos o Leblon e o aeroporto de vovô para um pouso de emergência quando você voltar do Pantanal”. Edison Lobão para Cerveró: “Nós sempre teremos Pitangui”. Wagner para Fátima: “Nós sempre teremos Andaraí”. Eu para você: “Ainda teremos saco?”. “Play it again, Sam!”.

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 5 dezembro, 2015 at 17:38 #

Grato Janio

Teu texto me devolve o sábado, poesia e humor, nada mais preciso.

Tim Tim!!!!!


vitor on 5 dezembro, 2015 at 18:41 #

Maravilha, Janio!!!. Lindeza de texto, para ler e guardar. A descrição dos três rapazes descarregando o caminhão de melancias na feira de Paulo Afonso é perfeita. No meu caso particular mexeu fundo na alma.As melancias , o velho Chevrolet. Ate a lona furada onde as frutas são empilhadas parece a mesma da minha infância , quando Paulo Afonso era distrito da antiga Santo Antônio da Glória, hoje submersa pelas águas do lago de uma das barragens do São Francisco na expansão da CHESF.

Emoção também de saber que hoje se faz caminhadas (Cooper) na área da velha pista do aeroporto onde vi descer o avião do presidente Café Filho para inaugurar a grande hidrelétrica do Nordeste concebida por Getúlio. Esquecer, quem há de?, escreveria o grande colunista Silvio Lamenha. Bravo!!!


Gilson Nogueira on 5 dezembro, 2015 at 19:14 #

Ao cronista Janio Ferreira Soares, por suas crônicas, um troféu do tamanho da Usina de Paulo Afonso!
Janio, meu caro, você é uma cachoeira de talento. Hoje, ao ler mais uma crônica sua, no Bahia em Pauta, senti, como o grande Vítor e o poeta conterrâneo de Sérgio Ricardo, o bom filho de Marília, Luís Fontana, o borrifar do prazer de quem tem saudade.
Sua contribuição, para tornar mais solar o nosso sábado, é digna de nota, como diziam os antigos. E viva o antigo, que faz falta, a nos trazer a sensação de que a vida, em plenitude, está acima de modismos. Ela mais de coisas simples, dessas que você recorda, quando escreve, e que nos faz mais felizes ao nos conduzir pelos caminhos cotidianos do interior.
Em tempos de mar de roubalheira oceânica, parceiro, é salutar saber de gente que descarrega melancias na feira para sobreviver com honestidade.Um abraço.Você é fera!


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