Como o lixo pode varrer a si próprio?

A prisão do senador Delcídio Amaral (PT), líder do governo no Senado, abre necessariamente uma discussão no Brasil – sobre a impossibilidade de o país superar de forma efetiva a crise de múltiplas vertentes que o afeta se esse trabalho tiver de ser feito pela atual elite dirigente.

Já vivemos uma situação esdrúxula, difícil de explicar, como temos visto, a jornalistas estrangeiros que aqui trabalham como correspondentes, em que os presidentes das duas Casas do Congresso estão denunciados por repetidos crimes e não cumprem o dever elementar de se afastar dos cargos pela lisura da apuração.

Centenas de outros parlamentares, aos quais cabe fazer as leis, fiscalizar o Poder Executivo e elaborar o orçamento da União, estão enredadas em ilícitos de toda natureza, da lavagem de dinheiro ao homicídio, sem falar em transgressões “mais simples” da Constituição, como a da proibição de que sejam sócios de emissoras de rádio e TV.

O próprio episódio Delcídio atesta a falta de idoneidade dos quadros políticos para levar adiante a tarefa de governar: as primeiras informações dão conta de dificuldade de substituí-lo na liderança, pois outros senadores petistas com estofo para a função, como Humberto Costa e Gleisi Hoffmann, estão igualmente envolvidos na Lava-Jato.

É um novelo que, quanto mais se desenrola, mais torna indispensável que as chamadas forças vivas que ainda sobram à nação tomem uma atitude original e decisiva na busca da refundação do Estado brasileiro, sem a qual é imprevisível o extremo de instabilidade a que poderemos chegar.

Chegará a vez de Dilma no cardápio

A lâmina da desintegração penetra de forma quase letal no governo da presidente Dilma Rousseff, que vê seu representante direto na Câmara Alta atrás das grades.

Não havendo culpa pessoal de Dilma, restar-lhe-ia a completa inépcia, por delegar o poder da voz presidencial a alguém que nem a sua própria pode usar para defender-se – antes proferiu-a para tentar calar outras vozes a custa de gorda mesada.

Mas também disso Dilma não deve ser a culpada. Na sua posição de laranja, esse foi um líder que ele teve de engolir pelas circunstâncias.

O fato a torna mais enfraquecida e tudo caminha para um quadro em que, resolvida a questão Eduardo Cunha, ela passará a prato do dia.

A esperança escarnecida pelos cínicos

Para ficar, se não na história, pelo menos na crônica da corrupção contemporânea, o pronunciamento da ministra Carmen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, indignada com mais este caso:

“Houve um tempo em que pensamos que a esperança tinha vencido o medo. Com a Ação Penal 470 ( processo do mensalão), vimos que o cinismo venceu a esperança. Agora, vemos que o escárnio venceu o cinismo, mas os criminosos não passarão por cima da Constituição”.

Vale recordar que o senador Delcídio foi o presidente da CPMI dos Correios, que desaguou nas investigações do mensalão, dez anos atrás.

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Comentários

Rosane Santana on 26 novembro, 2015 at 5:41 #

Por que partidarizar? Por que haveríamos de crer que a corrupção estrutural no Brasil atinge somente o PT ( frise-se nunca fui, nem sou petista) e seus representantes? O PT está numa posição de vidraça, porque está no poder. Mas acreditar que o Brasil pode ser refundado pela turma do PMDB, PSDB, DEM etc., Luís, e’ como acreditar em boitatá. Qualquer um que vier substituir Dilma, agora ou em 2018, estará submetido às forças transformadoras que vêm varrendo o mundo há duas décadas, com a revolução digital. Sociólogos renomados, como Giddens e Castells, e outros de menor destaque, previram, há duas décadas, que a corrupção ficará a nu. Quando menos evoluído o país, quanto mais patrimonialista o Estado, mais casos escabrosos estarão sendo revelados. A imprensa perdeu o monopólio da informação, os jornais que, em conluio com as elites políticas e econômicas controlavam o que devia sair, estão desmoronando. Note-se que, na origem da descoberta de cada escândalo, está um moderno dispositivo digital. No caso Delcidio, uma gravação do filho de Cervero’ feita por um telefone celular, se não estou enganada. Adiante, no futuro, quando chegar ao poder, sera a vez da oposição. Quantos casos de corrupção não escondem a elite política paulista, mineira e baiana, essa tríade central na construcao do Estado brasileiro?


Taciano Lemos de Carvalho on 26 novembro, 2015 at 7:02 #

Análise perfeita, Luís Augusto.

Mas, particularmente, acho que tem muita jaca por aí que ao ser descoberta e balançada prefere se passar por laranja. A queda é menos traumática, machuca menos.

E tem uns e outros também que saem com discurso tentando convencer o Brasil que não viu nada, nem sabe o que é jaca, muito menos laranja. Laranja? Que diabo é isso?


Taciano Lemos de Carvalho on 26 novembro, 2015 at 7:08 #

Delcídio foi o primeiro. Que venha Renan e alguns outros. Ou não?


jader on 26 novembro, 2015 at 7:49 #

Taciano Lemos de Carvalho on 26 novembro, 2015 at 8:26 #

O que, certamente, responderia Lula ao ser questionado sobre a prisão do senador Delcídio, o grande Líder do Governo de Dilma?

—Delcídio? Que Delcídio?


luiz alfredo motta fontana on 26 novembro, 2015 at 9:04 #

Já que é para rememorar

Delcídio, em seu passado tucano, alçou a diretoria Internacional da Lamabrás por obra e graça de FHC, após ser Ministro de Itamar Franco.

Aécio e esposa hospedaram-se no Waldorf Astoria com as diária bancadas (doce trocadilho) pelo banqueiro André Esteves.


luiz alfredo motta fontana on 26 novembro, 2015 at 9:29 #

Ao mais, fica uma estranheza.

Especula-se que a reação inédita do STF, determinando a prisão do “senador em exercício,” teve como inspiração a citação de ministros na gravação. Nomeada como bravata, a citação dos togados teria provocado a ordem de prisão.

A estranheza, justifica-se,em decorrência de outro fato, afinal, ao contrário de mera bravata, Dilma reuniu-se com Lewandowski em Portugal, reunião que só veio à lume por terem sido flagrados em mesa farta. Especulou-se, à exaustão, que o mote da reunião, teria sido, tal qual a bravata de Delcídio, os caminhos do Petrolão.

Não consta nenhuma nota de repúdio, muito menos ordens de prisão, por parte da Vetusta Corte, ora indignada.


jader on 26 novembro, 2015 at 10:09 #

Taciano Lemos de Carvalho on 26 novembro, 2015 at 10:26 #

Parla, Delcídio! Parla, Delcídio!

Parla numa colaboração premiada, Delcídio!

Faz alguma coisa de útil pelo país. Pelo menos ‘umazinha’. Vai! Vai! Vai!


vitor on 26 novembro, 2015 at 11:13 #

Bem lembrado, poeta de Marília. Bem lembrado. Sem memória não somos nada, já dizia Buñuel. E ainda teve o jantar no Alvorada, no Dia do Pendura, com a presença de Lewandowski e outrs “grandes” da advocacia e da justiça no país. Lembra? Depois do encontro em Portugal.


luis augusto on 26 novembro, 2015 at 13:02 #

Poeta, eu bebo para esquecer, mas creio que não é seu caso. Quanto mais bebe (suponho), mais se lembra.


regina on 26 novembro, 2015 at 13:31 #

Hehehehe….. Boa Luis (com s) o poeta é impar!!! E isso que se diz “distraido”!!!
Precisava dar uma risada hoje….
Cuidem-se!!!


luiz alfredo motta fontana on 26 novembro, 2015 at 13:40 #

Tim Tim!!!

Ao menos o malte exala poesia!!!

Já o lembrar requer mais gelo!


luiz alfredo motta fontana on 26 novembro, 2015 at 14:57 #

Caro VHS

A memória é vingativa, a buscamos sempre, quase que em desespero, para afirmarmos o que somos, para que os velhos sonhos ainda façam algum sentido.

Ela falha, titubeia, nos abandona por vezes, mas retorna, e por diversão, nos judia.

A memória, quando deseja, parece aquela bedel dos antigos ginásios, sempre atenta aos nossos deslizes, sempre pronta a nos encaminhar à diretoria.

Como enfrentar a lembrança do Rio doce? Como esquecer aquelas estradas, morros, montanhas, carreadores, drummondianos?

Como conviver com a ideia que não estarei aqui quando, caso os deuses conspirem, o Rio Doce voltar a ser o que nasceu para ser, um rio doce, poético, fértil, calmo, mineiro? Que conheci nos idos anos 70.

VHS, o caminho deste poeta, hoje é composto, queira ou não, mais de memórias do que horizontes a serem descobertos.

Até seria triste, poderia assemelhar um lamento a mais, um desconforto senil, um vício adquirido.

Mas, com os personagens vis que nos rodeiam, com seus enredos toscos, com suas torpezas explícitas, é quase conforto estar livre do porvir.

Luís, o que importa é bebericar. Esquecendo ou não. Tem mais poesia na mesa de um bar do que em todos o gabinetes desta república tíbia.

Regina, ria, ria sempre, ria como se a risada fosse uma daquelas marés de Iemanjá, livre, solta, redentora.


Carlos Volney on 26 novembro, 2015 at 22:05 #

Caro Luís, mais uma vez você nos brinda com uma análise antológica de nossa indigitada realidade política.
Eu fico a me perguntar, há salvação para Pindorama??
Com os quadros e líderes (?) a militar em nossa política, duvido muito.
Quando vejo um FHC posar de estadista e ser paparicado por nossa imprensa, estarreço-me com tanta seletividade na indignação.
Por que ninguém fala – muito menos a Justiça – sobre o mensalão mineiro, o metrô de SP, etc??
Parece que a condição sine qua non para que o processo ande e haja prisões é que os investigados pertençam ou sejam ligados ao PT.
Mas deixo claro que não defendo nenhum dos que estão aí processados e presos, pelo contrário.
Mantenho minha avaliação de que o PT encarna bem o personagem da fábula – pregou castidade a vida inteira para depois virar o dono do prostíbulo.


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