nov
22

CRÔNICA
A língua { e a árvore)

Gilson Nogueira

Capeliiiiiinnnnhááá!!! Assim, caprichando na voz fanhosa ( se não for desse jeito, não vende), o vendedor do picolé mais famoso da Cidade da Bahia, produto mais falsificado que boneca Barbie por estas bandas, berço da brisa mais gostosa do mundo, corta o silêncio da tarde calma de novembro. Ele está tentando vender seu “peixe”. Da janela do meu apartamento, observo que, salvo um porteiro ou outro, ninguém compra o que o batalhador de cada dia carrega em sua caixa de isopor , na cor branca, pendurada no ombro. É a dureza geral do povão, admito, até na hora de aliviar a sede.
No embalo do passado, que resiste pouco aos empurrões do futuro, surgem o amolador e sua gaita de plástico. O homem faz o brinquedo deslizar nos lábios procurando alguma cliente disposta a descer do seu conforto, quando não manda a empregada, para dar aquela caprichada na tesourinha predileta ou naquela faca velha de cabo de madeira que faz a diferença na cozinha na hora de cortar a carne de sol.
Na guerra entre o passado e o presente, os sorvetes vendidos nos mercadinhos de bairro e as Tramontinas que cortam até pensamento levam corações nostálgicos a relembrar memoráveis torneios de futebol em um campo da Graça que já recebeu a seleção brasileira, times de outros estados e equipes centenárias da capital do berimbau, na disputa do troféu de campeão do Estado da Bahia.
O futebol era inocente, havia o drible e a bola de couro deslizava no gramado como se fosse uma caneta nas mãos de Jorge Amado.No instante em que lembro a bicicleta com o pé trocado que o monstro Neymar tentou transformar em gol, no Estádio Octávio Mangabeira, a Fonte Nova, na vitória do Brasil, por 3 x 0, contra o Peru, ecoa o som do triângulo do mercador de taboca.
Certamente, um sujeito alto, lembrando aquele carregando um bacalhau do tamanho do Elevador Lacerda, nas costas, ainda visto no rótulo da garrafa do óleo de fígado de bacalhau da Emulsão de Scott.Dentro da lata de, no mínimo, um metro, com a delícia das crianças do meu tempo lá dentro, o tocador do triângulo da taboca cruza a esquina e segue em defesa do seu sustento.
Para quem não é de apreciar hábitos cotidianos da metrópole, no trânsito das novidades e dos absurdos colossais, como a destruição do canteiro central da Avenida Paralela para a passagem de um metrô burro, Salvador poderá causar espanto. “O que é isso???”, pergunta o turista deslumbrado.
Fica a lembrança de Neymar fagueiro, domingo passado, em Ilha de Maré, curtindo a Baía de Todos os Santos, antes da partida que deixou a pátria de chuteiras em terceiro lugar na tabela de classificação das Eliminatórias da América do Sul para a Copa do Mundo, de 2018, na Rússia, e, hoje, na foto, estampada no Correio, de boné branco, ao lado de uma bailarina do Faustão, dando língua. Para quem, bicho, você, que é ídolo da meninada, faz a brincadeira?
PS Após colocar o ponto final na crônica, um vento forte derruba uma árvore quase centenária defronte ao Hospital Santo Amaro.Que horror!!! Faltou conservação, Prefeitura?

Gilson Nogueira é jornalista, colaborador da primeira hora do BP

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