Lula e D`Ávila na entrevista exclusiva: metamorfose…


…e vaiado em Salvador no Dia da Consciência Negra

ARTIGO DA SEMANA
Lula e D’Ávila: Metamorfose na Globo News

Vitor Hugo Soares

A montanha pariu um rato! Ou quase. Eis o sentimento (profissional e pessoalmente falando) deixado pela entrevista exclusiva do ex-presidente Lula, ao jornalista e ex-deputado constituinte Roberto D`Ávila, transmitida no começo da noite de quarta-feira, 18, pelo canal privado de televisão Globo News.

A meia hora de conversa gravada em São Paulo, na sede do Instituto Lula (o entrevistado achou o tempo curto e pediu mais, no ar, aos diretores da emissora, em meio ataques pesados à imprensa em geral e à cobertura diária dos escândalos e da crise do país na era PT em particular), foi o suficiente para o impacto do programa do ponto de vista jornalístico, político e do desnudamento de um mito em seus labirintos atuais, sem achar a saída salvadora.

Sob este ponto de vista, o programa foi quase impecável. Afinal, o apresentador é um notório conhecedor da literatura do País e do continente, hábil entrevistador de alguns de seus maiores nomes. Aprendeu como poucos a lançar iscas para pescar peixes grandes, que não resistem a um elogio ou um afago no ego desmesurado.

De terno e gravatas de grife, é verdade, mas, ainda assim, o Lula desta semana, no canal privado de TV, parecia muito um daqueles egocêntricos e tristes mandachuvas que povoam os romances de Garcia Márquez e de tantos outros autores notáveis do realismo fantástico na literatura da América Latina.

A conversa mostrou, na plenitude, a melancólica metamorfose de um “líder de resultados” (como o entrevistado gosta de ser considerado) a retirar, de público, uma a uma, praticamente todas as máscaras, peles e camuflagens sob as quais, frequentemente, tenta se esconder o antigo dirigente sindical de expressão global, ex-chefe da nação, criador do PT há 12 anos no poder, mentor da atual ocupante do Palácio do Planalto.

O entrevistado, mal (ou bem?) comparando, pareceu também, em certos momentos, um daqueles antigos prestidigitadores de rua – habituais, mas sempre surpreendentes nas praças e becos da Cidade da Bahia, onde ele falou ontem entre vaias e aplausos no Dia da Consciência Negra – que esgotou o estoque de mágicas. Não consegue tirar do bolso da casaca nenhum truque novo. Até os bordões do tipo “nunca se viu antes na historia deste País” são repetitivos, óbvios, batidos. Cansam e irritam, em lugar de provocar a surpresa positiva e o riso de simpatia e apoio do passado.

O ar irritadiço do valente do tempo do “hoje eu não estou bom” gravado nas camisetas das lutas sindicais do ABC, não mais produz efeito favorável. Muito menos o “Lulinha paz e amor”, de tantos palanques de campanhas eleitorais, funciona mais. Tais artifícios perderam força e substância, diante das graves e urgentes questões que cobram respostas verdadeiras, sérias, urgentes e sem os titubeios estranhos ou buracos que permearam a conversa na TV do começo ao fim: Mentiras da campanha para reeleger a companheira Dilma; tenebrosas transações expostas nas operações Lava Jato e Zelotes; sangria corrupta da Petrobras, tesoureiros, ex dirigentes, “velhos e bons amigos e aliados do PT”, gente do círculo mais próximo do governo, na cadeia, sob investigação da Polícia Federal, ou já denunciados em processos judiciais.

Pouco restou de convincente nas respostas de Lula, salvo a ambição de dar prosseguimento ao mando petista nas eleições de 2018. A começar pelas frágeis negativas sobre manobras de bastidores para desgastar o governo da presidente Dilma (a afilhada que ele levou ao posto de mandatária maior do País), ou as articulações submersas para derrubar o ministro Joaquim Levy, da Fazenda, o estorvo maior do momento ao projeto de poder do entrevistado e do PT.

“É preciso comparar”, ensina o garoto sueco Ingemar, sábio personagem do cultuado filme “Minha Vida de Cachorro”, que de tempos em tempos recomendo neste espaço. Para isso é fundamental recorrer à ajuda da memória. Este bem precioso que dá significado à existência, mas cujo valor em geral só começamos à perceber, e a dar importância, quando começamos a perdê-la, como assinala o cineasta espanhol Luís Buñuel, no livro biográfico “Meu Último Suspiro”, ao narrar sobre a amnésia de sua mãe com o passar dos anos, dolorosamente acentuada pelo mal de Alzheimer: “Chegou ao ponto de já não reconhecer seus filhos, não saber quem éramos nós, quem era ela”, conta.

Mesmo no ambiente quase caseiro da conversa, o entrevistado parecia incomodado e tenso, agressivo, “armado” e atirando para todo lado, sem a pontaria de antes. Principalmente contra a imprensa e o amigo -inimigo preferencial de sempre, – o ex-colega de mando Fernando Henrique Cardoso. Sem reconhecer ninguém direito, nem os filhos, a deduzir pela resposta dúbia sobre as acusações da Operação Zelotes, que pesam sobre o caçula Luís Cláudio Lula da Silva. Sagacidade de mágico de rua, ou temor do futuro? Responda quem souber.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail:vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 21 novembro, 2015 at 7:50 #

O mesmo 171, tosco, agressivo, amoral, a mesma ave de rapina.

Nada mudou em Lula, afora o evento do menino que gritou: – o rei está nu!

Não é caso de tratado sócio-político, não é razão para ensaios filosóficos, nem mesmo caso exemplar de fragilidade social.

Lula é apenas o que é, tosco, bizarro, sobretudo parasita, nocivo por natureza.

É o mesmo Lula que a Bahia acolheu e sufragou, o mesmo que impôs Dilma e transformou a Base de Aratu em estalagem promíscua. O mesmo que embala Wagner.

Nada mudou, exceto o menino gritando: – o rei está nu!

Fosse outro o tempo, Rose teria recebido D`Ávila oferecendo um suco de pitanga, superfaturado, é claro, enquanto o “namorado” brigava com o nó da gravata.

Nada mudou, tudo permanece igual, especialmente a paquidérmica demora das autoridades de plantão. Lula ainda mantém ficha limpa.

O que mais dizer?

Apenas um pequeno adendo no grito do menino:

– O rei está nu, mas impune!!!


Mariana Soares on 21 novembro, 2015 at 10:09 #

Roberto D’Ávila foi quem brilhou nesta entrevista, só ele e ninguém mais…
Lula? Esperneou…aborreceu-se…e deu seu showzinho de cinismo…a hora dele tá chegando…a Papuda lhe espera, junto com seus filhos, de braços abertos…


luis augusto on 21 novembro, 2015 at 13:13 #

Em momento desesperançado, Poeta, fico pensando: se é tão difícil pegar Eduardo Cunha, quanto mais Lula.

Mas vamos em frente, Mariana, que não seja a Papuda, pelo menos o banimento da política.

E, caro Vítor, peço licença para informar: estou enfrentando o terceiro dia fora do ar com o Por Escrito, por problemas de provedor, que estão sendo resolvidos etapa a etapa, uma chatice.

Ainda quanto a Lula, foi em comentário anterior no espaço de comentários deste mesmo BP que expressei curta opinião sobre a entrevista.


vitor on 21 novembro, 2015 at 16:15 #

Luis
Torço para que os problemas com 0 servidor se resolvam logo. Por Escrito faz falta. Muita falta. BP solidário. É só falar, ou mandar o texto pelo e-mail, e a gente edita com a marca do PE. Grande abraço.


Taciano Lemos de Carvalho on 21 novembro, 2015 at 16:58 #

Se tiver de ser encarcerado, até que receberemos elle na Papuda. Mas talvez seja melhor na Penitenciária de São Venceslau, em São Paulo. Ficará junto da companheirada. Ou aí em Pedra Preta, na Bahia.

“Sem reconhecer ninguém direito, nem os filhos, a deduzir pela resposta dúbia sobre as acusações da Operação Zelotes, que pesam sobre o caçula Luís Cláudio Lula da Silva”

Como se diz por aí: “A situação está de vaca não conhecer bezerro.” Se vaca não conhece, muito menos Lula, que sempre disse que não sabia, não viu, não lhe contaram nada.


Taciano Lemos de Carvalho on 21 novembro, 2015 at 17:04 #

Quanto a Roberto D’Ávila e Lula, basta comparar a diferença entre o desempenho do jornalista como vice-governador do Rio, na época de Brizola, e os oito anos de Lula nos governos geradores do Mensalão e do petrolão.


luiz alfredo motta fontana on 21 novembro, 2015 at 17:46 #

Caro Luís

Cunha, ao que parece, ao menos em escaninhos do PGR, é boi de piranha.
Havia uma lista do Janot, tomou chá de sumiço, a recondução, ao que parece teve efeito paralisante.

Os mais crédulos dirão, não é só Cunha, Collor também padece.

E os outros?


josé valverde on 22 novembro, 2015 at 5:58 #

Excelente.


luis augusto on 22 novembro, 2015 at 7:21 #

Vitor, tenho uns textinhos que já estavam prontos, justamente sobre a questão Cunha, mas estou deixando para quando restabelecer o blog, porque esse problema me deu um bloqueio, um desinteresse por escrever, uma espécie de autocensura enquanto o blog não voltar. Mas agradeço muito sua oferta. Grande abraço também.

Taciano, me lembrei de quando “Serra viu a vaca”, lembra? Este, sim, não conhecia a dita. Tem também a vaca com bronquite de Dilma.

E Fontana: vai escapar tudo pelo ladrão (êpa!!!).


Chico Bruno on 22 novembro, 2015 at 8:38 #

Grande texto sobre uma metamorfose ambulante planejada.


Taciano Lemos de Carvalho on 22 novembro, 2015 at 11:10 #

É verdade, Luís Augusto.

Serra até que enfim viu a vaca. Deve ter achado, inicialmente, que seria uma cabra.

O problema é que a vaca, com ele, foi pro brejo. Teria acontecido isso por uma rajada de vento que naquele tempo ainda não era estocado por Dilma? Naqueles tempos o vento vivia solto por aí.

Ou a vaca foi pro brejo por ter se espantado com o cachorro que existe em cada criança de Dilma?

Ô país dos animais.


Rosa Maria Carvalho Darcie on 22 novembro, 2015 at 11:18 #

Brilhante, sempre brilhante mesmo, é o nosso grande jornalista Vitor Hugo. Com que grandeza e elegância consegue descrever o “papo furado” do maior bandido que nossa nação já teve como presidente.


vitor on 22 novembro, 2015 at 12:08 #

Rosa Darcie

Muito bom encontrar você navegando por estas bandas do Bahia em Pauta. Tapete vermelho para um Carvalho muito especial, entre vários que conheço e admiro. Apareça!!!


Jorge Roriz on 22 novembro, 2015 at 14:56 #

Vitor, parabéns. Um raio X da decadência de Lula. O ex rei, está nu. As bravatas não possuem mais efeito na população ( nem mesmo na menos esclarecida)


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