Paquito: do violão extrai rock, baião e bossa trash
sem perder o mergulho no Porto da Barra (Foto: Sora Maia)


ARTIGO/PERFIL

O jequietcong Paquito

Claudio Leal

Se o oceano subir alguns metros, como os apocalípticos anunciam, a praia do Porto da Barra desaparecerá junto com um homem inadaptável a qualquer outra corrente marítima, a qualquer outra coloração das águas ou mesmo a qualquer outra mistura de corpos na areia. O compositor Paquito é este ser irreversivelmente aclimatado ao Porto, a formosa praia espremida entre duas fortificações coloniais da velha Salvador. Nesse espaço preenchido pelo mar e pela história ele faz a natação diária e se liberta para as canções.

Há poucos meses, no caminho entre o Campo Grande e a Barra, bateu-lhe uma letra de amor queixoso, anotada às pressas em papel minúsculo. Assim tocado pela canção recém-nascida, perguntou-me na balaustrada do Porto: “Você quer ouvir?”. Sempre o ouvimos em seus mergulhos na música popular, seja ela de Caetano Veloso, dos Beatles ou de Dorival Caymmi. Dentro de sua geração, Paquito (agora aos 51 anos) se destaca pelo domínio da linguagem das canções, com um fraseado gaiato e límpido, em seus feitiços de leitor dos poetas-mestres Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto e Carlos Drummond de Andrade. Nele encontramos ainda um criador íntimo da nossa história musical, cuja inteligência crítica se espalhou durante oito anos nos artigos para a revista Terra Magazine, do Portal Terra. Com ele aprendemos a ouvir aquela canção do Roberto e a entender como andamos musicalmente desde o corte traumático de João Gilberto, o ídolo imbatível de Paquito e de Caetano.

Mas não pulou a janela de João para chegar a Noel Rosa. “Meu interesse primordial por Noel veio pelo que ele representa como mito da canção popular: o que Caetano e Chico Buarque passaram a representar já estava preenchido, no paideuma da canção, por Noel”, ele me esclarece. O encontro com o poeta de Vila Isabel levou-o, na sequência, ao encanto de Lamartine Babo, Assis Valente e demais batutas. “Claro que João Gilberto importa pela atitude de, mesmo reinterpretando o passado, conseguir fazer com que amemos as gravações antigas, o jeito especial de se fazer música da turma da canção brasileira dos anos 30 e 40. Caetano, que explicitamente dentro da própria obra comenta a história da canção brasileira, também importa muito. A partir daí, parti pra minhas escolhas: Mario Reis, por exemplo, que não é o preferido nem de João nem de Caetano. Mas é o máximo pra Chico. João oferece, através da escolha do repertório, quase uma alternativa à história oficial da canção: ele gosta de grupos vocais, de Haroldo Barbosa… Ele se fixa também em Orlando Silva, mais popular, mas faz um paideuma bem dele. João ressignifica tudo que toca”.

Algumas de suas piscadelas para a tradição e a modernidade revelam um aggiornamento devorador de mestres distintos, de Juazeiro a Liverpool. Paquito insiste em devolver ao mundo as belezas formadoras. Assim, “Seu Jacinto”, de Noel Rosa, ficou bem à beça no repertório da sua banda de rock Flores do Mal, criada em meados dos anos 80 com Eduardo Luedy, Heyder e Tony. Do violão será capaz de extrair rock, baião, uma insuspeitada veia caipira – e a inventada bossa trash. Expõe essa versatilidade em músicas como “Cansado de sambar” (de Assis Valente), “Decano do rock”, “A porta da rua” e “Como vai o coração”, do CD Falso Baiano (2003). Enquanto a maioria dos compositores se afastava dos estudos poéticos, ele soube decifrar a musicalidade do poema “Brisa”, de Manuel Bandeira. Dentro em pouco a cantora Maria Bethânia regravaria essa parceria repleta de brisa nordestina e, além de tudo, respeitosa com Bandeira, que gostava de ser musicado e não se cansava de exaltar Sinhô e Jayme Ovalle.

Paquito retoma a história. Antes de todos, estava Roberto Carlos, tão remoto em sua memória quanto uma cantiga de roda e uma brincadeira de picula. “O disco Jovem Guarda (1965) é quase um rosebud pra mim. Eu pensava, por conta do título, que ele fosse um policial jovem, um guarda jovem, na minha cabeça de criança”, relembra. “Roberto contém, em seu canto, João Gilberto, e essa influência foi o que possibilitou a ele ser um artista diferenciado, não um mero correspondente aos Beatles. Roberto também é um grande compositor, mas pra mim é o primeiro mestre. Se eu canto o repertório dele, não penso em reinventá-lo, simplesmente canto. É parte de mim mesmo”.

Nascido em Jequié, Antonio José Moura Ferreira foi apelidado Paquito pelo amigo Ataualba Meirelles. Mais adiante, o nom de guerre “jequietcong” viria de um relâmpago do poeta Waly Salomão, ao recepcionar o jovem conterrâneo. Fugindo à tendência carnavalizante da música baiana, terminou vitimado pelos demônios de Momo ao fincar residência no meio do circuito do Carnaval de Salvador, vulnerável a todo tipo de ruído e serpentina. Sabedor das inúmeras formas de amar a cidade, oscila da integração ao afastamento. A ele e J. Velloso devemos a produção de álbuns essenciais dos sambistas baianos Batatinha (Diplomacia, prêmio Sharp de melhor disco de samba, em 1999) e Riachão (Humanenochum, indicado ao Grammy latino em 2001), dois trabalhos de reconhecimento de grandezas artísticas em muito semelhantes ao que o poeta Hermínio Bello de Carvalho realizou com bambas cariocas.

Uma solidão, material e espiritual, vez em quando diz alô. “Tenho vontade de tocar com banda e tenho vontade de me bastar. Por ora, eu estou me dedicando a me bastar num palco ou no estúdio”, admite Paquito. Nos últimos anos, seus parceiros são Gerônimo, Chico César, Ronei Jorge, Arto Lindsay, Eduardo Luedy, Carlos Rennó, Capinan e Rogério Duarte (o designer tropicalista é também autor da capa de Falso Baiano), entre outros. Sua intérprete mais doce é Jussara Silveira. Seu último CD, Bossa Trash (2008), envolveu-o numa redoma delicada, de voz e violão. Canta na parceria com Lindsay:

“ninguém à vista que me interesse
nesse momento vivo tão só
espero apenas que você regresse
nenhuma canção que me desperte
da pane do transe do tempo em pó
só a sintonia dessa bossa trash
e a melancolia fabricada em série”.

Contorno a tristeza e reencontro sua alegria no piano de casa, naquele dia em que acordara indisposto. “Você quer ouvir?” – a pergunta anunciadora das obras inéditas. “Como não conheço o piano como conheço o violão, fecho os olhos e vou me deixando guiar pela intuição. Mas uso um e outro pra compor. A primeira canção que fiz ao piano é o ‘Tema de Sissi’, que trata da angústia de criar, do meu sono ruim, do medo de morrer e tem um contraponto na atitude aparentemente indiferente de um animal de estimação”, explica. Perdido e reencontrado, o amor se avizinha das suas músicas, e faz daquelas.

De óculos ovais e pele alvíssima, como uma porcelana sem floreios, Paquito me fala dos caminhos específicos de cada canção: “Eu acho que o conceito de um disco vem a posteriori, é a partir da miscelânea das canções que algo se desenha. No disco que tô fazendo estou aprofundando o que comecei com Bossa Trash, que é a intimidade entre canto e violão. A partir daí, entram a nordestinidade, uma teimosia roqueira e um romantismo que amo cultivar, tudo acrescido da consciência de que agora sou um velho compositor, meio manjado e me defrontando com a proximidade do fim, querendo aproveitar o tempo que me resta, pois amo estar vivo”. Queremos ouvi-lo.

Claudio Leal é jornalista.

Luandê

Cantor: Gilberto Gil

Compositores: Ederaldo Gentil / Capinan

Yê, eu vim de Luanda, yê
Eu vim de Luanda, yê
Meu Luanda

Lá na Bahia
Todo branco tem um nego na famia
Gegê, Bantu ou nagô
Seu doutor, vim de Luanda
Pra namorar a sua fia
Nego amor, nego amor

Ponha rendas na varanda
E a moça na sacristia
Ela já disse que sim
Não precisa de alforria
Antes da abolição
A lição eu já sabia
Na bahia todo branco
Tem um bego na famia

Eu vim de luanda, Yê
Eu vim de Luanda yê
Meu Luanda

O Luar lá de Luanda
Anda nas bandas de cá
Fui Oiá pra sua fia
Ví o mundo clarear
Seu Alvinho e dona Clara
Tem medo de noite virar dia
Vê a sua fia branca
Aumentar mulataria
Yê Quilombos da bahia
Neste mundo, todo mundo
Tem um nego na famia

Eu vim de Luanda yê….
=============
20 de Novembro da Consciência Negra. Celebra, Bahia!!!

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

DEU NO BLOG O ANTAGONISTA

Abril deixará de publicar “Playboy”

O Estadão noticia que “Dentro de um processo de enxugamento de portfólio que já eliminou diversos de seus títulos tradicionais, a Editora Abril está abrindo mão de uma revista que publica sob licença há 40 anos. A última edição da masculina Playboy vai circular em dezembro, segundo comunicado divulgado pela editora nesta quinta-feira”.

O impresso está nu.

nov
20
Posted on 20-11-2015
Filed Under (Artigos) by vitor on 20-11-2015

Mariano, no portal de humor gráfico A Charge Online


Tite levou o Corinthians ao sexto título brasileiro.
/ Daniel Augusto Jr. (Ag. Corinthians)

DO EL PAIS

Gustavo Moniz

De São Paulo

O Corinthians conquistou nesta quinta-feira seu sexto título do Campeonato Brasileiro, depois de empatar em 1 a 1 contra o Vasco da Gama, no estádio São Januário, no Rio de Janeiro na noite de ontem(19). E o fez sem uma liderança fixa em campo, sem um grande artilheiro e depois de perder no meio do ano aquela que era considerada a melhor dupla de ataque do Brasil: Sheik e Guerrero. Ah, sim, e com salários atrasados. Muito atrasados. Foram oito meses de conversas constantes entre dirigentes, comissão técnica e atletas para que a falta de dinheiro não atrapalhasse o desempenho do time. Para conseguir cumprir com as obrigações financeiras, a diretoria se recusou a pagar cerca de 13 milhões de reais a Guerrero e abriu mão do artilheiro no meio da temporada. Mas só pôde fazer isso porque tinha confiança no único responsável por transformar todos esses problemas em vitórias: o técnico Tite. E assim ele fez.

“O segredo é o Tite, não tem muito o que falar. Pelo fato de ele fazer todos os jogadores acreditarem que são importantes, porque são mesmo”, revela o goleiro Cássio. Mais do que dinheiro, Tite deu aos atletas o reconhecimento que eles tanto queriam. E a forma que arrumou para valorizar grande parte dos jogadores do elenco, apesar dos salários atrasados, é, no mínimo, curiosa: ele fez um revezamento entre os capitães do time. Só no Brasileirão, 11 jogadores usaram a faixa no braço. Todos puderam ser líderes, dividindo as responsabilidades que o cargo exige.

Ainda assim, quando for a hora de levantar a taça de campeão brasileiro, o treinador deve deixar o elenco eleger quem deverá erguer o troféu. E o escolhido, provavelmente, será o volante Ralf, que passou parte do Brasileirão na reserva. “O capitão é o Ralf. Pode haver um revezamento da faixa, mas ele é o nosso capitão. Acho que, se a taça vier, ele merece levantar”, falou ao Lance! o meia Renato Augusto. Não se sabe ainda quando a taça será erguida, mas a declaração do camisa 8 mostra um traço raro quando se trata de um time de futebol: a total ausência de vaidade entre os jogadores.

Prova dos benefícios desse ambiente saudável construído por Tite pode ser vista na evolução do atacante Vagner Love na temporada. Criticado pela torcida durante os primeiros meses no clube e com a difícil missão de substituir o ídolo Guerrero na função de artilheiro da equipe, o atacante ganhou nova oportunidade depois da lesão de Luciano, em agosto. A consagração veio contra o Atlético-MG, naquela que foi considerada a ‘final’ do Brasileiro. Na arrancada que deu para superar na velocidade (com extrema facilidade) o zagueiro Edcarlos e marcar o segundo gol da vitória por 3 a 0, Love deixou para trás toda a desconfiança que ainda pairava sobre ele. Não só se tornou o goleador da equipe no campeonato, ao lado de Jadson, com 12 gols, como se destacou na marcação, aspecto pouco comum para um atacante.

“Nunca desaprendi a jogar futebol, mas o que ele (Tite) faz não só comigo, mas com todos os jogadores, é uma coisa diferente. Nos trata como filhos, sabe das nossas necessidades, o que podemos melhorar. Procurar tirar o máximo de cada jogador. Ele sabe do meu valor e do meu potencial e tirou tudo que eu podia tirar de mim dentro do campo. Agora, os resultados tão saindo. Tite é peça fundamental para todos nós, ele consegue nos conquistar de uma tal forma que vamos trabalhar e correr por ele”, diz Love.

Três anos antes de promover essa revolução no aspecto coletivo da equipe, Tite já havia livrado o Alvinegro de seu maior trauma. Foi campeão da Libertadores e Mundial em 2012, dando fim à sina de perdedor que perseguiu o clube em 101 anos de história quando se falava de torneios internacionais. O que Tite não esperava, porém, é que toda essa identificação com o Corinthians fosse afastá-lo do cargo mais cobiçado do futebol brasileiro, o de técnico da seleção.

“Tite é um cara que tem total condição de assumir a seleção e fazê-la jogar o que jogava há alguns anos”, diz Love

Depois de ver Felipão assumir o lugar de Mano Menezes em 2012, quando já estava entre os favoritos para comandar a equipe na Copa de 2014, Tite levou o maior golpe de sua carreira em julho do ano passado. Pouco depois do fiasco histórico do Brasil no Mundial e da demissão de Scolari, ele aparecia como o candidato mais qualificado para o emprego. Estava desempregado (por opção), tinha acabado de fazer uma reciclagem em grandes clubes da Europa e já gozava da condição de melhor técnico do futebol brasileiro. No entanto, viu a CBF escolher Dunga para o comando da seleção, em uma atitude que contrariou todos os aspectos do jogo, menos o político.

Como técnico do Corinthians durante os dois anos anteriores, Tite se aproximou de Andrés Sanchez, histórico rival político de José Maria Marín e Marco Polo del Nero, respectivamente ex e atual presidentes da CBF. Além disso, conforme mostrou o jornal O Estado de S. Paulo no ano passado, a convocação da seleção brasileira nem sempre depende só de qualidade técnica, mas também de critérios como valor de marketing de cada jogador. Ou seja, ainda que o técnico queira chamar um atleta, ele só pode fazê-lo diante da aprovação de empresas responsáveis por negociar os direitos comerciais dos amistoso da seleção brasileira.

Nesse quadro, se fez necessária a contratação de um treinador aliado de Del Nero e que soubesse muito bem a maneira como funciona a CBF. Dunga foi o escolhido, auxiliado por Gilmar Rinaldi, ex-empresário de jogadores, na condição de coordenador de seleções. A sobreposição dos critérios técnicos por políticos, porém, não vem dando resultados, como era de se esperar. A seleção brasileira caiu de forma vergonhosa na Copa América e hoje ainda depende muito de um jogador, Neymar, para resolver os jogos dentro de campo e também fora, já que foi ele o eleito por Dunga para ser o capitão da equipe. Exatamente o contrário de tudo o que prega o treinador corintiano.

Hoje, a comoção para que Tite assuma o lugar de Dunga é tão grande que até os jogadores do Corinthians fazem coro para que o treinador vá para o comando da seleção. “Tite é excelente treinador, que evoluiu muito nos últimos anos. Temos que respeitar o treinador que está lá, foi uma escolha da CBF. Mas caso Dunga venha a sair, Tite é um cara que tem total condição de assumir a seleção e fazê-la jogar o que jogava há alguns anos”, diz Vagner Love.

O técnico, porém, ainda não se vê no cargo. Diz que só quer concorrer à vaga depois do Mundial de 2018, na Rússia. “Torço, peço e coloco de maneira muito clara que deem todas as condições à essa comissão técnica de trabalhar, porque o ciclo no futebol deve ser respeitado. É o ciclo do Dunga na seleção até o final. Em um outro momento, após a próxima Copa do Mundo, vou estar postulante ao cargo e que se dê todas as condições ao profissional que ali estiver”, falou Tite ao Sportv.

O Corinthians fez um estudo desses últimos anos recheados de títulos para definir qual é a ‘forma Corinthians’ de jogar futebol, segundo o jornalista André Rizek, do Sportv. Toda a formação da base está voltada para revelar jogadores que se enquadrem no método de jogo eficaz que foi formado por Mano Menezes e lapidado em sua forma final por Tite. Ou seja, o maior treinador da história do Alvinegro já está cravado no DNA do clube e de todos os jogadores que serão formados pelo Timão. Neste momento, logo após a conquista de seu sexto título no comando do Alvinegro, vale a reflexão: parece que a moribunda seleção brasileira precisa mais de Tite do que o Corinthians.

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