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Legistas da polícia recolhem amostras no Café Comptoir Voltaire,
um dos atacados na noite de sexta-feira. / MARIUS BECKER (EFE)

ÓDIO AO LAZER

Antoni Gutiérrez-Rubí

DO EL PAIS

Não querem que dancemos. Que escutemos música. Que nossos beijos se misturem com risadas. Amar. Divertir-se. Curtir a vida. Compartilhar jantares e almoços. Beber. Comer. Ocupar o espaço público. Sentir-se livre. “Os alvos foram cuidadosamente escolhidos”, afirmam os terroristas. Atacaram os símbolos e as pessoas.

Detestam que as mulheres leiam, escrevam, pensem e decidam por si mesmas. Sobre seu corpo, seus afetos e suas vidas. Não querem que as meninas estudem, por isso atiraram em Malala, no Afeganistão, que queria ir à escola. Tiros para castigá-la, para assustá-la, para matá-la.

Querem que fiquemos atemorizados e paralisados. ‘Vocês terão medo até de ir ao mercado’, proclamavam em uma mensagem de vídeo

No comunicado reivindicativo dos assassinos do Estado Islâmico, relacionam o ato terrorista em Paris com o fato de ser a “capital das abominações e da perversão”. Ou seja, em sua demência, os terroristas identificam a cidade como o pecado, como o demônio. E os cidadãos como depravados. As salas de música como templos pagãos.

Os atentados atingem pessoas inocentes em bares e restaurantes, salões de festas, estádios e ruas. Tudo o que caracteriza um modelo de liberdades em um espaço público. Odeiam o lazer. Pelo que ele representa como liberdade e emancipação. O fanático contra o lúdico. Vestem-se de preto porque detestam as cores, a música, a diversidade. Odeiam as risadas. Não querem sorrisos, só caretas. De dor ou de sofrimento.

Agiram de noite. Uma sexta-feira. Justo quando a Cidade-Luz se ilumina com a luz dos gozos e dos prazeres, com as sobras das emoções e dos afetos, com a claridade das artes. Quando a vida parece eterna. Quando a noite protege os amantes, os cúmplices, os amigos. Chegaram de noite, para torná-la eterna, para que não tivéssemos um amanhã, e ganhar sua falsa eternidade com seu incompreensível martírio.

Chamam de “idólatras” as pessoas presentes na sala de espetáculos Bataclan. Seu pecado é admirar seres humanos: músicos, cantores, artistas. Eles os matam por serem pagãos, por exercer a mística da música. Seu ódio é tão incompreensível como perigoso e assassino.

Desrezam-nos. Falam do odor das “ruas malcheirosas de Paris”, que tremem indefesas. Vangloriam-se de sua pureza. De novo associam a cidade e os cidadãos ao demônio e à sua presença pestilenta: “Continuarão sentindo o cheiro da morte por terem estado à frente da cruzada”.

Querem que fiquemos atemorizados e paralisados. “Vocês terão medo até de ir ao mercado”, proclamavam em uma mensagem de vídeo da Al Hayat, a seção mediática dos acólitos do califado. “Deram-nos ordens para combater os infiéis onde quer que estejam. O que esperamos? Há armas e carros disponíveis e os alvos estão prontos para serem atingidos”, indica um dos terroristas. “Até mesmo veneno serve. Envenenemos a água e os alimentos de pelo menos um dos inimigos de Alá”, conclui.

“Paris tremeu sob seus pés”, acrescentam os jihadistas. Assim querem que fiquemos: derrotamos em nossos corações, ânimos e valores. Quietos, imóveis, fechados. Querem destruir o riso e o movimento. Agora, hoje, mais do que nunca é preciso rir entre a dor, o pranto e o desalento. Rir chorando. Para enfrentarmos o ódio com o lazer. A barbárie com a arte. Os pesadelos com sonhos. Para que Paris trema… mas com danças e passos livres, não com medos e sustos.

Hoje choraremos, mas amanhã voltaremos a cantar e a desenhar. Para ganhar a batalha das ideias e dos valores. A autêntica grande batalha.

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Comentários

regina on 16 novembro, 2015 at 11:50 #

As mortes de Paris – Vinicius Torres Freire

Quando a gente vê uma manifestação em Paris, uma “manif”, é muito provável que seja uma passeata que começou na praça da República e acaba na praça da Nação, République-Nation, pelo boulevard Voltaire.

A maioria das pessoas assassinadas na noite de sexta-feira para sábado caiu pelas ruas das redondezas desse caminho de protesto político democrático e de bares simpáticos. Foi pelo boulevard Voltaire que passou parte da massa que gritava contra os massacres de janeiro, entre eles o do “Charlie Hebdo”.

Vai-se diretamente da République à Nation pela avenida que leva o nome de um dos iluministas maiores, Voltaire. É o caminho tradicional de manifestações republicanas ou de esquerda, de sindicatos, de movimentos mais populares.

No mais, as ruas dali são um lugar de festa. Os terroristas atacaram bares e casas de show que ficam em um região, “quartier”, pop-popular jovem, um tanto na moda desde meados dos anos 1990, o Oberkampf.

Não se sabe se os monstros do morticínio escolheram esse lugar de propósito: lugar de “manifs” históricas, perto do “Charlie Hebdo”. Ou se apenas acharam mais fácil matar jovens que se divertiam no começo do final de semana em um lugar mais obscuro, que não é lá muito turístico, no melhor dos casos. Por ali, os terroristas não chamariam muita atenção. A torre Eiffel fica exatamente no polo oposto da cidade, por exemplo.

République-Nation, Oberkampf, Parmentier não são lugares chiques da Paris, enfim. Ficam ali na zona leste, um dia região de fábricas. Nos tempos de disputa política extremada, direita versus esquerda, democratas (ou nem tanto) contra fascistas, o leste era “gauche”, lugar de manifestações mais à esquerda.

Um tanto mais para baixo, fica a praça da Bastilha. Um tanto mais para a direita e para cima, fica o cemitério do Père Lachaise, esse sim turístico, mas fora do caminho mais batido da cidade.

CAPITAL DO TERROR

Chamada de capital de tantas coisas, Paris também é uma capital do terror. Ali se matam inimigos políticos estrangeiros, que migraram ou se exilaram na França –se matam entre eles mesmos. Vez e outra, massacram-se judeus.

Desde os anos 1960, de mais comum houve atentados da parte de argelinos, armênios, palestinos, corsos, bascos e, agora, de “extremistas islâmicos”, diga-se assim, pela falta de nome melhor para essa escória.

Desde o final dos anos 1980, parecia haver um declínio da frequência de ataques. Em meados de 1990, ocorreu um repique do terror, a estreia mais certeira dos “islamistes”, no caso argelinos.

Este colunista morava em Paris quando começou a onda terrorista de 1995-96, de gente ruim amadora e quase sem recursos. Explodiram bombas caseiras nos metrôs que eu tomava todo dia, matando 12 pessoas. Explodiram uma bomba diante da agência do meu banco e numa feira perto da Bastilha (feira de rua, igualzinha às nossas). Minha feira.

O risco de atentados causava mais estranhamento do que medo, ainda mais para quem vem do Brasil (mesmo não tendo morado nas zonas de guerra e terror onde vive muita gente pobre). Perto do massacre deste novembro, era quase “vida brasileira” comum.

Agora, é outra história.

http://horaciocb.blogspot.com/2015/11/as-mortes-de-paris-vinicius-torres.html?m=1


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