Sandra Moreyra: Um nome para não esquecer
no jornalismo do Brasil.

DEU NO F5/ DA FOLHA DE S. PAULO

Morreu no início da tarde desta terça-feira (10), aos 61 anos, a jornalista Sandra Moreyra, que trabalhava desde 1982 na TV Globo. Sandra morreu no Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro, vítima de um câncer que combatia há sete anos.

Natural do Rio de Janeiro, Sandra é filha de Sandro Moreyra, um dos mais importantes cronistas esportivos brasileiros, e de Lea de Barros Pinto, professora. Seu avô, Álvaro Moreyra, era escritor, membro da Academia Brasileira de Letras, e dirigiu nos anos 1950, as revistas Fon-Fon e Paratodos. Sandra era irmã da também jornalista Eugenia Moreyra, diretora da GloboNews.

O início de sua carreira foi na mídia impressa, no Jornal do Brasil, em 1975. Depois, trabalhou na TV Bandeirantes (em Salvador )e, em 1982, foi para a TV Manchete como subeditora de um jornal de cultura e entretenimento.

Em 1983, após se mudar para Minas Gerais por conta do trabalho do marido, foi convidada para trabalhar na TV Globo, como repórter. Em 1985, com a eleição e morte de Tancredo Neves, Sandra acompanhou o cortejo fúnebre, em matéria exibida no Jornal Nacional.

No ano seguinte, a jornalista deixou Minas e voltou para o Rio, onde participou da cobertura do Plano Cruzado.

Em setembro de 1987, Sandra foi uma das repórteres destacadas para acompanhar os desdobramentos do acidente radioativo em Goiânia, com Césio 137, que contaminou centenas de pessoas.

Na virada de 1988 para 1989, acompanhou grávida a cobertura do Bateau Mouche que afundou na Baía da Guanabara, matando 55 pessoas. Em depoimento ao site “Memória Globo”, ela disse que telespectadores chegaram a ligar para a emissora e pedir que tirassem a gestante daquela cobertura. “Eu, com o maior barrigão, fazendo flash daquilo. Uma coisa maluca, e a gente nem se tocou”.

Em 1992, realizou reportagens para os principais jornais da rede sobre a Rio-92. No ano seguinte, a jornalista fez uma reportagem que considera marcante em sua trajetória sobre o enterro das vítimas da chacina em Vigário Geral.

Em 1996, foi trabalhar como repórter do Bom Dia Brasil e passou a comandar uma coluna de gastronomia. Três anos depois, trocou o telejornal matinal pela GloboNews, passou a cuidar de parte gerencial e administrativa, ampliando sua experiência em televisão.

Em 2015, Sandra Moreyra coordenou a série Memórias de uma Cidade sobre os 450 anos do Rio de Janeiro. O último Dia das Mães foi celebrado no RJTV com uma crônica de Sandra Moreyra.

A última mensagem pública da jornalista foi no dia 20 de outubro, em uma rede social. “Novamente estou sendo posta à prova. Mais um tratamento pra fazer. Eu amo a vida. E vou em frente”, escreveu.

A jornalista deixa marido, dois filhos e dois netos. A família afirmou que o corpo da jornalista será cremado nesta quarta-feira (11), no cemitério Memorial do Carmo, zona norte do Rio.

Viva Juliette Gréco, saudades de Simone de Beauvoir, principalmente da passagem da escritora e pensadora francesa por Salvador, com Sartre, nos melhores anos da juventude deste editor do BP.

BOA TARDE!!!

(Vitor Hugo Soares)

BOA TARDE

DO EL PAIS

Opinião
Parabéns, atingimos a burrice máxima

Eliane Brum

A fogueira de Simone de Beauvoir a partir da questão do ENEM mostrou que a burrice se tornou um problema estrutural do Brasil. Se não for enfrentada, não há chance. Hordas e hordas de burros que ocupam espaços institucionais, burros que ocupam bancadas de TV, burros pagos por dinheiro público, burros pagos por dinheiro privado, burros em lugares privilegiados, atacaram a filósofa francesa porque o Exame Nacional de Ensino Médio colocou na prova um trecho de uma de suas obras, O Segundo Sexo, começando pela frase célebre: “Uma mulher não nasce mulher, torna-se mulher”. Bastou para os burros levantarem as orelhas e relincharem sua ignorância em volumes constrangedores. Debater com seriedade a burrice nacional é mais urgente do que discutir a crise econômica e o baixo crescimento do país. A burrice está na raiz da crise política mais ampla. A burrice corrompe a vida, a privada e a pública. Dia após dia.

Recapitulando alguns espasmos do mais recente surto de burrice. O verbete de Simone de Beauvoir (1908-1986) na Wikipedia, conforme mostrou uma reportagem da BBC, foi invadido para tachar a escritora de “pedófila” e “nazista”. A Câmara de Vereadores de Campinas, no estado de São Paulo, aprovou uma “moção de repúdio” à filósofa. O deputado Marco Feliciano (PSC-SP), da Bancada da Bíblia, descobriu na frase “uma escolha adrede, ardilosa e discrepante do que se tem decidido sobre o que se deve ensinar aos nossos jovens”. Em sua página no Facebook, o promotor de justiça do município paulista de Sorocaba, Jorge Alberto de Oliveira Marum, chamou Beauvoir de “baranga francesa que não toma banho, não usa sutiã e não se depila”. Como o tema da redação do ENEM era “a persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”, houve gente que estudou em colégios caros afirmando que este era um tema de esquerda, e portanto um sinal inequívoco de uma conspiração ideológica por parte do governo federal. Como sugeriu o crítico de cinema Inácio Araújo em seu blog, se defender que a mulher tenha o direito de andar sem ser perturbada, agredida e chutada é tema de esquerda, isso só pode significar que a direita vai muito mal.

A única arma capaz de derrotar a burrice é o pensamento

Está cada vez mais difícil fazer humor no Brasil. Como nada do que foi relatado acima é piada, somos submetidos cotidianamente a uma experiência de perversão. Também não tem sido fácil escrever quando não se é humorista, por que o que se pode dizer, seriamente, diante de uma moção de repúdio à Simone de Beauvoir? Mas é preciso tratar com seriedade, porque talvez não exista nada mais sério do que a boçalidade que atravessa o país. Torna-se urgente, prioritário, fazer um esforço coletivo e enfrentar a burrice com o único instrumento capaz de derrotá-la: o pensamento.

Esta é a potência e a generosidade de um livro lançado pela filósofa Marcia Tiburi, escritora e professora universitária. O título vai direto ao ponto, afinal os tempos são graves demais para papinhos de salão: Como conversar com um fascista – reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro (Record). Nas 194 páginas, Marcia enfrenta as várias faces do cotidiano atual com profundidade, mas de forma acessível a quem não está familiarizado com os conceitos. Faz o mais difícil: escrever simples sem simplificar. É um livro que se pretende para todos, e não para os seus pares. Quem acompanha a trajetória da filósofa conhece a sua coragem. E este é um livro de coragem, já que é tão difícil quanto arriscado escrever sobre o que está em movimento, sem a proteção assegurada pelo distanciamento histórico. Poucos são os intelectuais que se arriscam a sair do conforto de seus feudos para enfrentar o debate público com suas dúvidas. E por isso aqueles que se arriscam de forma honesta, sem ficar arrotando suas certezas e suas credenciais, ou usando-as para massacrar aqueles que já são massacrados, são tão preciosos.

“Eu queria saber por que dialogar é impossível”, conta Marcia Tiburi, sobre a pergunta que a moveu nessa busca. Para enfrentar a ausência do pensamento, a filósofa propõe a resistência pelo diálogo. Este é um esforço de cada um –e de todos. Arriscar-se a deixar o “isolamento em comunidade”, a forma atual da vida social e política, para confrontar o que ela chama de “consumismo da linguagem”. Compreender o confronto atual como um confronto entre direita e esquerda, desenvolvimentistas e ecologistas, governistas e oposicionistas, machistas e feministas é, segundo ela, uma redução. O confronto atual seria mais profundo e também mais dramático: entre os que pensam e os que não pensam.

O exercício que faço, deste parágrafo em diante, é buscar compreender a fogueira em que Simone de Beauvoir foi jogada nos últimos dias, entre outros fatos recentes, a partir das ideias deste livro. Para começar, a seriedade do episódio do ENEM pode ser demonstrada neste trecho tão agudo: “Se levarmos em conta que falar qualquer coisa está muito fácil, que falamos em excesso e falamos coisas desnecessárias, um novo consumismo emerge entre nós, o consumismo da linguagem. O problema é que ele produz, como qualquer consumismo, muito lixo. E o problema de qualquer lixo é que ele não retorna à natureza como se nada tivesse acontecido. Ele altera profundamente nossas vidas em um sentido físico e mental. O que se come, o que se vê, o que se ouve, numa palavra, o que se introjeta, vira corpo, se torna existência”.

Vale perguntar. Num país em que a preocupação com a educação é uma flatulência, em que a não educação é a regra, para onde vai o lixo e que tipo de impacto ele produz na tessitura do cotidiano, nos corações e mentes de quem o consome? O que acontece com a fogueira de Simone de Beauvoir num contexto em que aqueles que a jogaram no fogo possivelmente sequer a leram? Que restos dos discursos vazios sobre a filósofa permanecerão na memória de uma população que não tem seus livros na estante e que tipo de eco produzirão?

Como dimensionar a gravidade de um vereador eleito, pago com dinheiro público para legislar e, portanto, para decidir destinos coletivos, dizer que a escolha da frase de Simone de Beauvoir para uma prova do ENEM é algo “demoníaco”, como afirmou Campos Filho (DEM)? E como enfrentá-la com a seriedade necessária?

Com a palavra, o autor da “moção de repúdio”: “Foram buscar lá Simone de Beauvoir, lá pro ano de mil trocentos e pôco…. (…) A grande maioria é favorável à lei da natureza. Homem é homem. Mulher é mulher. (…) Cuidado com essa pulsão, essa pulsão pode levar à cadeia. O senhor pode passar na frente do caixa eletrônico e ter uma pulsão de vontade de roubar e vai preso. Pode ter uma pulsão de vontade de estuprar e vai preso. Então, tomem cuidado com essa pulsão, ah, hoje de manhã sou menina, agora à noite eu sou homem….”.

O vereador nem sequer sabe em que século Simone de Beauvoir nasceu, viveu e produziu pensamento – “mil trocentos e pôco”. Nem sequer tentou compreender o que a frase citada no ENEM significa. Não é engraçado. É a ruína causando mais ruína. O que interessa é fazer barulho, porque o barulho encobre o vazio de ideias. O que importa é perverter a palavra, usando o que sequer tentou entender para enclausurar o pensamento e reafirmar a certeza em nome de uma suposta “lei da natureza” que jamais existiu. A perversão do fascista é a de acusar o outro de manipulação ideológica quando é ele o manipulador. É acusar o outro de impor um pensamento quando é ele que empreende todo os esforços para barrar qualquer pensamento. É impedir o diálogo denunciando o outro pelo ato que ele próprio cometeu. É nessa repetição de boçalidades que seguem os discursos de outros vereadores, invocando clichês bíblicos, lembrando de Sodoma e Gomorra e Adão e Eva, abusando de Deus.

Para perverter a realidade, o fascista conta com o consumismo da linguagem. Trata-se, como aponta Marcia Tiburi, de um vazio repleto de falas prontas. Não é um vazio silencioso, espaço aberto para buscar o outro, o inusitado, o surpreendente. Mas sim um vazio barulhento, abarrotado de clichês, de frases repetidas e repetitivas, usadas para se proteger do pensamento. Os lugares-comuns, neste caso específico a constante invocação de Deus e de leis bíblicas, são usados como um escudo contra a reflexão. Todo o esforço é empreendido para não existir qualquer chance de pensamento, ainda que um bem pequenino.

Neste vazio, a filósofa acredita que os meios tecnológicos e a mídia desempenham um papel crucial. Repete-se o que é dito na TV, no rádio. Fala-se, muito, sem pensar no que se diz. No gesto do mero “compartilhar” sem ler, tão fácil quanto comprar com um clique pela internet, foge-se do pensamento analítico e crítico, trocando-o pelo vazio consumista da linguagem e da ação repetitiva. É assim que a burrice se multiplica em cliques, propagando-se em rede. O título deste artigo é esperançoso, mas não corresponde à realidade: a burrice não tem limites, ela sempre pode atingir patamares ainda mais extremos.

Se não houver limites para a idiotice, resta isolar-se e estocar alimentos

Episódios semelhantes à “moção de repúdio” à Simone de Beauvoir ocorriam esporadicamente em rincões afastados, e logo eram ridicularizados. Hoje, acontecem na Câmara de Vereadores de uma das maiores e mais ricas cidades do estado de São Paulo, no sudeste do Brasil, uma cidade que abriga várias universidades, entre elas a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), uma das mais respeitadas do país. E cadê os intelectuais? Rindo dos burros nas cantinas universitárias? Será? Não era de se esperar mais iniciativas de busca do diálogo, de criação de oportunidades para explicar quem é Simone de Beauvoir e refletir sobre sua obra, ou mesmo a ocupação da Câmara, para produzir reação e movimento que permitisse o conhecimento e combatesse a ignorância?

Talvez o polêmico livro Submisssão (Alfaguara), do francês Michel Houellebecq, possa ter alguma ressonância maior por aqui. Nele, só para lembrar, o protagonista é um acadêmico desencantado que se depara com a vitória de um partido islâmico nas eleições da França. Depois de assistir ao desenrolar dos acontecimentos pela TV, já que não se sente motivado a participar de nenhum debate que não seja sobre a sua própria tese acadêmica (ou nem mesmo sobre ela), se choca com o resultado eleitoral. É o protagonista que não protagoniza –ou só protagoniza por omissão (ou submissão). Aos poucos, os novos donos do poder lhe acenam não só com a manutenção dos privilégios, mas com uma considerável ampliação dos privilégios. E ele, afinal, conclui que aderir pode não ser tão ruim assim.

Os burros estão por toda parte e muitos deles estudaram nas melhores escolas e, o pior, muitos ensinam nas melhores escolas. A “moção de repúdio” à Simone de Beauvoir foi aprovada pela Câmara de Campinas por 25 votos a cinco. Assim, os burros são a maioria. É preciso enfrentá-los com pensamento, fazer a resistência pelo diálogo. Ou, como diz Marcia Tiburi: “Sem pensamento não há diálogo possível nem emancipação em nível algum. Se não houver limites para a idiotice, resta isolar-se e estocar alimentos”.


Simone diante do espelho e a burrice
cega do promotor: “baranga?”

O promotor e professor universitário que reduziu Simone de Beauvoir a “uma baranga”, ao comentar a questão do ENEM em sua página no Facebook, fez o seguinte comentário: “Exame Nacional-Socialista da Doutrinação Sub-Marxista. Aprendam jovens: mulher não nasce mulher, nasce uma baranga francesa que não toma banho, não usa sutiã e não se depila. Só depois é pervertida pelo capitalismo opressor e se torna mulher que toma banho, usa sutiã e se depila”. Depois da repercussão negativa, o que incluiu uma nota de repúdio por parte da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Jorge Alberto de Oliveira Marum apagou os posts e defendeu-se, em outra postagem, alegando que pretendia ter sido irônico: “Ironia, para quem não sabe, é uma figura de linguagem que consiste em afirmar o contrário do que se pensa”. Interprete-se.

A burrice, tanto como categoria cognitiva quanto moral, venceu

“Distorcer é poder” é o título de um dos capítulos do livro em que a filósofa enfrenta a prática amplamente difundida de esvaziar as palavras pela distorção. Como transformar a vítima em culpada, como se faz rotineiramente com as mulheres no falso debate do aborto, por exemplo, ou no tratamento do estupro. Ou distorcer para que aquele que detém os privilégios pareça ser o que têm seus direitos ameaçados: o branco, por exemplo, quando se apresenta como prejudicado pelo sistema de cotas raciais que busca reparar injustiças históricas cometidas contra os negros, ocultando assim que sempre foi o privilegiado; ou quando se invoca um suposto “orgulho heterossexual” na tentativa de mascarar a violência contra os homossexuais, alegando que querem privilégios, quando todos sabem que a heterossexualidade jamais foi contestada ou atacada, nem em sua expressão nem em seus direitos. E também é por essa conversão que os manifestantes de junho de 2013 foram tachados de “vândalos” por parte da mídia e, hoje, uma lei em discussão no Congresso ameaça converter quem protesta em “terrorista”.

A própria “democracia” pode ser vista a partir da prática da distorção, já que há aquela, mais difundida, que é vendida pelo mercado. “De um lado, há uma democracia que deve parecer como realizada, contra outra democracia, que está na ordem do desejo e do sonho e que não teria preço”. O capitalismo sequestra a democracia também como palavra, que passa a ser consumida, junto com outras: felicidade, ética, liberdade, oportunidade, mérito. Palavras que a filósofa chama de “mágicas”, invocadas a serviço do ocultamento da opressão. “Antidemocrático, o capitalismo precisaria ocultar sua única democracia verdadeira: a partilha da miséria e, hoje em dia, cada vez mais, a matabilidade”, afirma Marcia Tiburi.

Quando se invade o verbete de Simone de Beauvoir na Wikipedia é também disso que se trata: distorcer e replicar até virar “verdade”. Aliena-se os fatos de seu contexto histórico para produzir rótulos. Assim, após o ENEM, a filósofa foi tachada de “pedófila” e de “nazista”. Ambas as afirmações já foram retiradas da página pelo responsável, avisando que a manteria fechada até “que o furor acabasse e as pessoas perdessem o interesse em danificar o artigo”. Entre as dezenas de distorções do verbete, segundo a matéria da BBC, um usuário disse que a filósofa havia escrito um “livro de estupro”. Outro informou que Beauvoir era uma “antifeminista”. Um terceiro disse ainda que ela era “muito conhecida por seu comodismo e pela luta na justiça por uma lei que proibia o trabalho das mulheres fora de casa”.

Se a linguagem nos tornou seres políticos, a destruição da linguagem nos tornará o quê?

As distorções servem à reprodutibilidade da burrice. Ao converter a filósofa no que é interpretado como o mais monstruoso – “pedófila” e “nazista” – o objetivo é tornar impossível refletir sobre o que ela escreveu: “uma mulher não nasce mulher, torna-se mulher”. A ampla distorção das palavras serve, de novo, ao vazio do pensamento. Pede-se aos burros que a repliquem à exaustão em cliques histéricos. A linguagem, como escreve Marcia Tiburi, tem sido rebaixada à distribuição da violência – também pelos meios de comunicação e pelas redes sociais. “Vivemos no império da canalhice, onde a burrice, tanto como categoria cognitiva quanto moral, venceu”, afirma. “Ela se transformou no todo do poder.”

Aderir é viver. Esta parece ser a frase deste momento de orgulho da ignorância e exaltação da burrice. Aqui, a pergunta se impõe: “se a linguagem nos tornou seres políticos, a destruição da linguagem nos tornará o quê?”.

Na semana passada, foi divulgado na página da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República um estudo que reuniu pesquisadores de diversas instituições, apresentado como o mais completo já feito no Brasil sobre os efeitos da mudança climática. Refletir seriamente sobre a mudança climática é urgente, mas há muito menos pensamento e ação do que o momento exigiria, apesar de estarmos às vésperas da Conferência do Clima em Paris. Assim, a divulgação de um estudo com as conclusões a que se chegou poderia ser uma oportunidade excelente para promover participação e diálogo. Mas, entre as tantas previsões que apontaram para um possível drama climático daqui a 25 anos, em 2040 – doenças, calor extremo, falta d’água e de energia etc –, uma foi destacada por diferentes veículos da imprensa: a possível perda de uma área imobiliária avaliada em R$ 109 bilhões no Rio de Janeiro, devido à elevação do nível do mar causada pelo aquecimento global.

Não as perdas humanas, não a corrosão da vida, não o aniquilamento dos mais pobres e dos mais frágeis. Não. O que se destaca é aquilo que se monetariza, é a perda do patrimônio material, no caso imobiliário. O que merece título é o cifrão. O episódio evoca um dos capítulos mais interessantes de Como conversar com um fascista: “O capitalismo é a redução da vida ao plano econômico. (…) O pensamento está minado pela lógica do ‘rendimento’. Viver torna-se uma questão apenas econômica. A economia torna-se uma forma de vida administrada com regras próprias, tais como o consumo, o endividamento, a segurança pela qual se pode pagar. Tudo isso é sistêmico e, ao mesmo tempo, algo histérico. (…) As palavras funcionam como estigmas ou como dogmas que sustentam ideias orientadoras de práticas”. Se a ordem do discurso capitalista é basicamente teológica, é porque ele funciona como uma religião no âmbito das escrituras e das pregações (em geral no púlpito tecnológico da televisão)”. Se depois de tanto calarmos sobre a mudança climática, falarmos dela a partir da lógica monetária, estamos todos (mais) perdidos.

Precisamos resistir em nome de um diálogo que torne o ódio impotente

Mas é em outro episódio destes últimos dias que a perversão do Brasil atual se revelou em toda a sua monstruosidade: a Divisão de Homicídios da Polícia Civil do Rio de Janeiro concluiu em inquérito que o policial que matou um menino de dez anos agiu em “legítima defesa”. Eduardo de Jesus brincava na porta da sua casa, numa das favelas do Complexo do Alemão, quando teve a cabeça atingida por um tiro de fuzil. Sua mãe encontrou parte do seu cérebro na sala. O inquérito isentou de qualquer responsabilidade os policiais envolvidos, por estarem supostamente em confronto com narcotraficantes. Eles teriam apenas “errado” o tiro.

Eduardo estava a cinco metros do policial que o matou. Terezinha de Jesus, a mãe do menino, afirma que não havia tiroteio naquele dia. “Eu parti para cima do policial. Gritei que tinha matado meu filho e ele me respondeu, com seu fuzil na minha cabeça, que igual que tinha matado ele poderia também me matar, porque o menino era filho de bandido. Nunca vou esquecer aquilo. Posso estar em qualquer lugar do mundo, que nunca esquecerei a cara daquele policial”. Ao ser informada por jornalistas que a polícia concluiu que seu filho foi morto em legítima defesa, Terezinha disse que sentia vontade “de quebrar tudo”.

Quando a perversão supera tal limite é porque estamos quase no ponto de não retorno. “Não acabaremos com o ódio pregando o amor”, diz Marcia Tiburi. “Mas agindo em nome de um diálogo que não apenas mostre que o ódio é impotente, mas que o torne impotente.”

Em Como conversar com um fascista, a filósofa defende a necessidade de começar a tentar falar de outro modo. O diálogo não como salvação, mas como experimento, como ativismo filosófico para enfrentar a antipolítica. A política, lembra a autora, “é laço amoroso entre pessoas que podem falar e se escutar não porque sejam iguais, mas porque deixaram de lado suas carapaças de ódio e quebraram o muro de cimento onde suas subjetividades estão enterradas”.

Num país de antipolítica e antieducação generalizada como o Brasil é preciso se mover. É urgente aprender a conversar com um fascista, mesmo que pareça impossível. Expor ao outro aquele que não suporta a diferença. Revelar suas contradições e confrontá-lo pelo diálogo é um ato de resistência. Enfrentar a burrice com a única arma que ela teme: o pensamento.

É isso ou não vai adiantar nem estocar alimentos.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes – o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebru

DEU NO BLOG POR ESCRITO (DO JORNALISTA LUIS AUGUSTO GOMES)

OPINIÃO

Barragens simbolizam o país: lama pra todo lado

Quanto mais passam os dias e se aprofundam as reportagens sobre o rompimento de barragens de rejeitos minerais em Minas Gerais, mais a nação se assombra ante nova demonstração de falta quase absoluta de governo no país.

O que teria sido, no primeiro momento, “apenas” a supressão de um pequeno distrito na distante, embora histórica, Mariana, revela-se progressivamente uma catástrofe ambiental e social sem precedentes.

Tendo à frente a consequência principal de mortes ainda não precisamente contabilizadas, a tragédia pode ser resumida na marcha incontrolável de milhões de toneladas de lama podre por 400 quilômetros do território brasileiro em direção ao litoral.

No caminho, a imposição do transtorno à vida de milhões de pessoas, incluindo a destruição de extensas áreas de agricultura e a poluição de rios e outros mananciais, o que significa uma crise gigantesca e repentina no abastecimento de água de dezenas de municípios.

Perguntar onde está, neste grave momento, a líder putativa da nação, democraticamente eleita que foi pela maioria absoluta da população brasileira, é, com o perdão da imagem, chover no molhado, pois ela está onde sempre esteve: buscando fórmulas de agarrar-se ao poder conquistado à base de prestidigitação.

A presidente Dilma Rousseff limitou-se a uma reação burocrática à desgraça de toda uma região. Nem deu as caras na televisão. “Pelas redes sociais”, diz a imprensa, “lamentou” a fétida descarga e “solidarizou-se” com as vítimas e suas famílias. A bem da verdade, faltou somente o sobrevoo da área sinistrada.

Nenhuma palavra sobre a empresa exploradora dos minérios, tecnicamente responsável pelas barragens, muito menos quanto à indenização dos prejudicados, item que, em qualquer sociedade digna desse nome, seria o segundo a ser tratado, depois do socorro, que também parece tardar.

Não engana ninguém o anúncio de “ações emergenciais”, liberação de FGTS dos pobres sobreviventes ou mobilização de “autoridades” para adotar as “medidas cabíveis”. O povo, mais uma vez, sozinho pagará suas despesas e chorará suas mágoas. A sujeira em que se encontra, resta o consolo, pode ser removida com água e rodo.

Um banho vocal de Jeanne Moreau, em Léonce,especial, como a França!

BOM DIA!!!

(Gilson Nogueira)

DEU NO BLOG O ANTAGONISTA

O “autointerrogatório” da PF

Os peritos da Polícia Federal Audrey Jones, Raphael Borges e Jefferson Ribeiro parece que se inspiraram em Marcelo Odebrecht e fizeram também uma espécie de autointerrogatório ao final do laudo de análise financeira das transações do Grupo Odebrecht.

Parte das respostas, O Antagonista já noticiou, mas foi editada por questões de espaço. O questionário vale como ensinamento para MO, que não deve mais tripudiar da Força Tarefa da Lava Jato.

Eis o “autointerrogatório”:

– Qual o valor dos contratos firmados por empresas do Grupo Odebrecht e consórcios dos quais tenham participado junto a Petrobras no período de 2004 a 2014?

As empresas do Grupo Odebrecht firmaram contratos com a Petrobras no valor de R$ 35.590.880.834,72, ou seja, aproximadamente 16,6% do montante atualizado dos contratos objeto de investigação. Deste montante, constatou-se que R$ 17.113.982.147,16 foram firmados por contratação direta , R$9.272.725.307,78 com partes relacionadas e R$ 9.204.173.379,77 mediante a realização de consórcios com outras empresas.

– Com base nas informações disponíveis no bojo dos inquéritos da Operação Lavajato, é possível identificar transações financeiras entre tais empresas/consórcios e agentes públicos, partidos políticos ou quaisquer pessoas físicas ou jurídicas ligadas aos mesmos?

Sim. Foram constatadas transações financeiras envolvendo agentes públicos e partidos políticos, bem como empresas e/ou pessoas físicas a eles ligados. Lançamentos contábeis envolvendo pagamentos a ex-agentes políticos, foram identificados pagamentos realizados ao Instituto Fernando Henrique Cardoso no montante de pelo menos R$975.000,00, a instituições vinculadas ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no valor de R$ 3.973.237,90 entre 2011 e 2014. Também foram encontrados pagamentos feitos a diversos candidatos, constatando-se que o candidato que recebeu o maior aporte de recursos oriundos dos cofres do Grupo Odebrecht foi a candidata Dilma Rousseff, beneficiária de R$ 8.250.000,00, seguida do candidato Aécio Neves. O partido político que foi beneficiado com maior volume de recursos foi o PT, seguido do PMDB.

– Há pagamentos do Grupo Odebrecht e consórcios em favor de empresas ou operadores apontados na Operação Lava Jato como tendo promovido a transferência dissimulada de recursos e/ou lavagem de capitais? Se positiva a resposta ao quesito anterior, é possível identificar os destinatários finais dos recursos empregados em tais pagamentos?

Foi possível identificar transações envolvendo as seguintes empresas investigadas por operacionalizarem pagamentos indevidos e lavagem de capitais: Arxo Industrial, DF Patrimonial, Jamp Engenheiros, Legend Associados, PEM Engenharia, Riomarine, Navemar, Auguri e Eagle Consultoria. Também foram identificadas offshores.

nov
10
Posted on 10-11-2015
Filed Under (Artigos) by vitor on 10-11-2015


Miguel, no Jornal do Comércio (PE)


Sede da Petrobras no Rio:petroleiros em greve

DO EL PAIS

María Martín

Do Rio de Janeiro

O Rio de Janeiro não conseguiu escapar da maldição do petróleo. A queda de cerca de 50% do preço do barril do tipo Brent em menos de um ano e a crise desatada na Petrobras após a Operação Lava Jato escancararam que nem o Brasil, nem muito menos o Rio, de onde sai 80% da produção nacional, eram imunes aos vai-e-vens do setor, na época de bonança e euforia, parecia que ia resolver os problemas do país.

De um lado, a crise econômica nacional e a redução do plano de investimentos da Petrobras, o menor desde 2008, minguaram a cadeia produtiva do gás e do petróleo, responsável por um terço do PIB do Rio. Isso gerou desemprego e faz cair a arrecadação do ICMS. O imposto sobre operações relativas à circulação de mercadorias e prestações de serviços é a principal fonte de arrecadação nas contas do Estado e sofreu uma queda brusca de 9,7% no primeiro semestre de 2015. Do outro lado, com o preço do barril no nível mínimo, os municípios, que dependem em alguns casos em até 60% dos royalties, viram suas receitas se irem pelo ralo. “O Rio de Janeiro foi o Estado que mais perdeu receitas em 2015”, segundo reconheceu seu governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) em setembro.

Os responsáveis pelas contas do Estado exageraram as previsões otimistas de receita deste ano e as contas não fecham. O Governo não nega o erro e também não esconde sua preocupação, a tal ponto que até o secretario da Fazenda, Júlio Bueno, reconheceu que o 13º salário dos servidores públicos não está garantido. Segundo a assessoria de imprensa da Fazenda, “a previsão inicial de queda de receitas foi de 30%, mas foi feita tendo como base um Brent de 62 dólares”, mas com o barril em torno dos 50 dólares, os royalties e participações especiais, compensações pela extração de recursos naturais e segunda fonte de receita do Rio, “podem experimentar este ano uma queda de 62% com relação ao ano passado”. No total, a perda da economia do Estado do Rio em 2015, por causa da crise do setor de óleo e gás e a queda nos preços do petróleo, estaria em torno de 11 bilhões de reais – três bilhões pela redução do preço do barril, e 8 bilhões pela perda de arrecadação pelo não crescimento do Rio de Janeiro. É 13,4% do orçamento total de 81,9 bilhões nesse ano.
Alta no desemprego

O desemprego é outra das preocupações em um Estado em que no começo do ano, e sustentada pelos investimentos das Olimpíadas, a taxa se mantinha abaixo da média nacional. Mas o cenário mudou. De janeiro a setembro de 2015 o Rio de Janeiro perdeu 114.191 empregos, resultado da diferença entre novas admissões e demissões, segundo dados levantados pelo economista Mauro Osório, especialista no mercado de trabalho fluminense. “Rio mostrou um desempenho pior que o resto do país e é claro que a principal influência é a crise da Petrobras, mas se deve ressaltar que a empresa já está em processo de recuperação. Estamos falando de que 17,35% as vagas perdidas no país foram aqui no Rio”, explica Osório. As áreas de construção e manutenção da indústria naval e a indústria extrativa mineral no Rio perderam no total 8.711 trabalhadores.

Gustavo de Oliveira Barbosa, presidente do Rio Previdência, o fundo estatal de onde saem as pensões e aposentadorias dos funcionários públicos do Estado, enfrenta também uma enorme dor de cabeça. Desde 2007 boa parte do fluxo de caixa do fundo vem dos royalties da exploração de petróleo e gás natural. Com a queda do preço do barril, chave para o cálculo das compensações, porém, o rombo disparou. Para garantir os pagamentos desse ano, Oliveira fez uma manobra de emergência. O presidente usou Depósitos Judiciários, valores de terceiros relacionados a ações judiciais que ficam depositados em uma conta para garantir que as sentenças sejam cumpridas, para cobrir um buraco de 6,5 bilhões. Trata-se de 41,6% da folha de pagamento, um valor ao que não poderá mais recorrer em 2016.

A previsão é que no ano que vem o fundo, cuja folha de pagamento ascenderá a 17,8 bilhões, também apresente déficit. Mesmo acreditando em uma recuperação das receitas, Oliveira está se apoiando no aluguel de imóveis e na captação de capital em operações no mercado financeiro para compensar as quedas causadas pelo petróleo. Calcula-se, no entanto, que a diferença entre a receita e as despesas vai ser de 4,7 bilhões que deverão obrigatoriamente, ser pagos, por lei, pelo combalido Tesouro do Estado. Os dados são do relatório da CPI da Petrobras da Assembleia Legislativa, que investigou durante sete meses os prejuízos causados pela “má gestão da petroleira” na economia fluminense. “Quando falta dinheiro é difícil escolher de onde cortar e o pessoal costuma ser sempre o último, mas há risco de que de que não se possa pagar o décimo terceiro”, afirma o presidente da Comissão de Tributação, Controle e Arrecadação Estadual, deputado estadual Luiz Paulo Corrêa da Rocha (PSDB).
Petrobras em greve

A Petrobras enfrenta grave problema de caixa e reconheceu a falta de recursos para completar grandes projetos prometidos como o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), um dos empreendimentos em que houve pagamento de propina e participação de um cartel de fornecedores, segundo os depoimentos dos delatores da Operação Lava Jato.

O balanço da Petrobras de 22 de abril de 2015, conforme citado no relatório da CPI da Petrobras no Rio, apontou que 6,2 bilhões de reais foram perdidos para a corrupção e que a empresa apresentou uma perda de 44 bilhões de seus ativos devido à má gestão.

Ao corte bilionário de investimentos e ao enfrentamento de suas dívidas com o dólar em alta, soma-se agora a greve dos seus funcionários em todas as unidades da estatal. Eles querem acabar com o plano de venda de ativos da estatal, que está se desfazendo de parte do seu patrimônio para fazer receita, e o fim das demissões.

Mobilizados desde a madrugada da segunda-feira (2), os trabalhadores estão reduzindo a produção diária de petróleo em entre 178.000 e 115.000 barris por dia. A companhia reconheceu perdas de entre 13% e 5,5% da produção durante a paralisação que já se estende por uma semana.

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