CRÔNICA

Uma codorna no pôster da Playboy

Janio Ferreira Soares

Quando eu tinha uns 10 anos encontrei numa mala do meu tio Lindemar um exemplar da Playboy americana cuidadosamente guardado entre meias, camisas e uma calça de linho branca. Na capa, uma loira com os seios nus sorria pra mim como se dissesse: “ei, seu fedelho abelhudo, a partir de hoje eu dividirei o produtivo latifúndio de suas mãos com bolinhas de gude, petecas e as cordas de seu estimado violão tentando solar alguma canção que toca na difusora da praça”.

Nervoso e excitado pela descoberta de que as mulheres dos catecismos de Carlos Zéfiro poderiam ganhar formas tão reais, certifiquei-me não haver ninguém por perto e aí nasceu uma longa relação, por vezes chegando a ares de lua de mel quando meu tio, então prefeito de Glória, viajava à capital baiana para rápidos contatos políticos e planejados saracoteios mundanos – levando consigo (propositadamente, desconfio) a mala estepe. Segue o bonde.

Anos depois, já em Paulo Afonso, conheci a Distribuidora Sedução, o primeiro dos muitos templos sagrados que ainda hoje entorpecem esta velha e bandoleira alma cada vez mais carente de alfarrábios, acetatos, fotogramas e periódicos. E foi justamente em meio a sargentos tainhas, fotonovelas e monteiros lobatos que eu me deparei com as primeiras edições de Fiesta, Lui, Privé, Ele e Ela, Status e A Revista do Homem, que, contrariando a genética, só depois que envelheceu virou Playboy.

Lembro-me da minha enorme expectativa a cada lançamento, não só pelas moças despidas, mas também (sério) pelas entrevistas, artigos e crônicas de craques como Ivan Lessa, Millôr e afins, sem falar nas preciosas dicas de como preparar um perfeito Bloody Mary para curar ressacas, ou como incrementar uma receita de omelete visando a maravilhar sua companheira no café da manhã.

A propósito, com a recente informação de que a edição americana não mais exibirá fotos de mulheres nuas em suas páginas – e diante da possibilidade da publicação brasileira seguir pelo mesmo caminho -, me ocorreu de matutar prováveis alternativas às dezenas de musas que motivaram a imaginação de tantos garotos que, como eu, amavam os Beatles e os Stones, mas também as brunas, cotrofes, luizas e lumas, e não deu outra.

Diante da enxurrada de programas gastronômicos na TV (agora, inclusive, com crianças disputando receitas e chorando desesperadas por não conseguirem o ponto certo da massa do empadão), nada mais apropriado do que a Playboy estampar no pôster central um belo risoto de codorna trufada, logicamente fotografado pelas lentes de Duran e prefaciado por um desses chefs tatuados, que aí descreveria os predicados da codorninha como se ela fora uma espécie de Lídia Brondi desses estranhos tempos.
Quanto a sobremesa, certamente ela estará estampada na seção “Doces que Amamos”. Nela, uma porção de quindins bem amarelinhos apareceriam pegando um bronze no Caribe. Já na capa, um azeitado e úmido carpaccio com um alcaparrão no centro, se insinuará como um precioso manjar pra se comer rezando. Delicie-se.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, no lado baiano do Rio São Francisco.

Be Sociable, Share!
Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos

  • novembro 2015
    S T Q Q S S D
    « out   dez »
     1
    2345678
    9101112131415
    16171819202122
    23242526272829
    30