Jose Raimundo no Maranhão (Globo Repórter)


Um Brasil escondido revelado na TV

Maria Aparecida Torneros

Um Brasil quase intocável, nas palavras do apresentador José Raimundo, do Globo Repórter. Vejo a reprise do programa na manhã de sábado no canal Globo News.

Imagens belíssimas de um Maranhão nativo, rico de histórias de gente simples e acolhedora. O encanto do lugar me fascina. Ilhas, aves, peixes, dunas migrantes, carros de boi, bordadeira de trajes típicos para as festas do Boi. Peculiares vivências que vão me induzindo a reacreditar na vitória do bem sobre o mal.

A jovem dona de casa cozinhando o peixe e fazendo o arroz de cuxa, de repente chora quando o repórter pergunta quem lhe ensinou a fazer aquela comida. Ela diz que foi sua mãe que agora mora longe e lembra que aprendeu quando só tinha 10 anos. Seu prazer, ela conta, é saber que vai botar a mesa, as pessoas vão sentar, comer e gostar. Simples assim.

Os homens que vão pescar relatam suas experiências com espontaneidade. Não devem saber o que são contas na Suíça, sobrevivem do amor pela natureza e da adaptação a ela, seguindo seu instinto animal de ser também bicho da terra.

Para mim, um Brasil inofensivo e inocente, puro sem propinas, gratificante na sua sobrevivência pobre e atenciosa com os visitantes.

Esse país imenso ainda tem espaço para populações que preservam recursos naturais e dão um show de integridade.

O tal Maranhão reportado em pedacinhos sensíveis, como se fosse um recorte para amostragem de um povo merecedor de muito respeito.

Nosso Brasil escondido também sobrevive no Alemão, na Rocinha, em Paraisopolis, em todas as periferias sufocadas por sistemas injustos e violentos embates.

Mas a adaptação aos elementos me lembra a viola enluarada , música de protesto cuja letra aponta que a mão que toca um violão se for preciso faz a guerra.

Não quero esquecer do Brasil escondido. Este é o meu verdadeiro berço. Sou uma contadora de histórias que admira sua gente sincera. O programa me tocou a alma. Paraísos de beleza e um povo que cumpre as leis da natureza, dando exemplo raro de dignidade e luta.

Realmente, um mundo especial. Os pássaros vermelhos sobrevoando os manguezais. Os peixes caindo nas redes oferecendo trabalho e renda àquela gente sem grandes ambições. Os sorrisos de homens e mulheres que amam sua terra e sabem que dela garantem o pão de cada dia.

Brasileiros escondidos que podem se orgulhar de ser quem são: a própria luz no fim do túnel. Nem tudo está perdido, concluo, me emociono e até choro porque estava precisando confiar em quem realmente nos representa. Além e acima de poderosos de paletó e gravata, de madames trabalhadas no botox, reencontro a nação sonhada que deve ser referência em termos de mudança de rotas.

Simplifiquemos nossas vidas e sejamos felizes.

Cida Torneros é jornalista e escritora.Mora no Rio de Janeiro, na Vila famosa de Noel e Martinho, onde edita O Blog da Cida.

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Comentários

luis augusto on 8 novembro, 2015 at 6:46 #

“Nem tudo está perdido”. Cida, obrigado pela leveza e poesia.

Talvez um paiseco de nada possa desaparecer. Este, é muito grande para ser desconhecido no mapa-múndi.

Apesar de meus escritos tantas vezes desesperançados, sou pessimista só para as pequenas coisas. Para as verdadeiramente importantes, sou otimista.


luis augusto on 8 novembro, 2015 at 6:51 #

Em tempo: o velho Zé Raimundo. Conheci-o há 35 anos no Palácio Rio Branco, mas calma, nada de alta solenidade. Eu, redator da imprensa da Prefeitura, ele, caixa do Baneb que funcionava no mesmo prédio, além de repórter iniciante na TV Itapoan. De lá para cá, não mudou nada. Nos raríssimos encontros, a mesma simpatia e simplicidade de sempre. Da competência não é preciso falar.


Cida Torneros on 8 novembro, 2015 at 9:23 #

Oi Luís Augusto eu adoro o trabalho dele. Muito sensivel e minha sorte poder ver as reentrâncias maranhenses que ele mostrou. Pra lembrar um velho ditado, esperança é a última que morre. Prefiro acreditar que ainda tem jeito. Esse mundo tá Muito contaminado sim mas há corações cuja simplicidade supera a arrogância dos que tentam roubar descaradamente nosso direito de confiar em dias melhores. Obrigada pelo carinho e sigamos em frente com renovação de fôlego para enfrentar a bizarrice dos poderosos que se acham os reis da cocada preta. Em matéria de cocada ninguém supera a baianada, né ? Ai que saudades eu tenho da Bahia! O Maranhão nunca fui presencialmente mas o José Raimundo me deu esse presente com d.sua aventura por aquelas bandas de litoral preservado. Uma luz nesta fase desanimada em que me encontro. Mas como sou otimista, penso que tudo será depurado depois de cortar na carne tanto maltrato ao povo brasileiro. Nossa. Melhor enfrentar meu domingo e fazer a macarronada que mamãe pediu. Bjs e bom domingão! Cida Torneros


luiz alfredo motta fontana on 8 novembro, 2015 at 10:25 #

José Raimundo conseguiu o inusitado, demonstrou que há vida serena no Maranhão, apesar e além, de Sarney.

Por instantes, a mãe natureza respondeu aos anseios da esperança desiludida, por instantes, até que a velocidade voraz, dos comerciais, nos devolveu ao horror.

Mariana ferida, sob um mar que, de tão óbvio nestes dias, só poderia ser de lama. Não uma lama limpa, mas suja, contaminada, como aquela que verte do Planalto Central, entupindo até mesmo os tais poços de petróleo, que segundo Getúlio seria nossa redenção. Talvez para ele a chance de obter o perdão divino, não merecido, pelo papel imundo com que se houve na entrega de Olga.

Mariana assiste seu passado soterrado por detritos de uma exploração, no mínimo predatória e mutiladora, da natureza. Candidatos a José Raimundo tropeçam em botas enlameadas, tudo pelo amor ao pisão exclusivo.

Autoridades fingem solidariedade, mas, como sempre acontece, quando o vilão é poderoso, calam-se sobre o necessário. Nada dizem em respeito à ausência de medidas suficientes de segurança nas condutas técnicas. Fogem do assunto quando a conversa deriva para a conivência, por omissão, dos que deveriam ter exercido fiscalização.

O Brasil sangrou na TV.

De resto, sangra a cada zoom na realidade.


Cida Torneros on 8 novembro, 2015 at 11:02 #

Caro Luiz Alfredo , o tal capitalismo selvagem que é Império de modus vivendi em quase todo o mundo me fez constatar, há 10 anos, quando trabalhei com gestão ambiental na Superintencia de Rios e Lagoas no governo do Estado do Rio e tive que cursarco MBA da UFRJ nessa área e organizar uma dissertação sobre a tratransposição de Rios para abastecimento de populações que enfrentavam secas. Em 2005 todos os doutores setentoes que nos ministraram aulas previam e afirmavam que governos, empresas e lucros desmedidos protagonizaram a falta de recursos naturais e seriam responsáveis por tragédias incalculáveis. Como uma rede as tais barragens que naquela época visitei algumas eram exigências de autoridades ambientais justamente para proteger os rios de imensas contaminacoes com rejeitos de extração de minérios e afins. A própria CSN de Volta Redonda foi multada diversas vezes pela contaminacao recorrente no Rio Paraíba do Sul que abastece milhões de pessoas, além dos cariocas através do Guandu e é Rio que atende a três Estados Rio, São Paulo e Minas Gerais. Os pactos ambientais acabam minimizando problemas mas a sede de lucros por exemplo com a exportação de minérios faz com que as empresas aumentem os muros das tais barragens e corram cada vez riscos maiores de rompimentos e contaminação . Pior ainda é o que assistimos em Mariana, rompimento e inumação de lama tóxica. Mas são dramas anunciados . Nosso mundo está vendido. O Planeta geme. As leis são parcimoniosas e nós sabemos que os poderes são no fundo coniventes e até desumanos. Duro de se conviver com a luta Lucro versos preservação do meio ambiente. Você tem toda razão . Eu confesso que me sentia muito mal de verificar in loco tantas expectativas negativas e me aposentei. Mas evidentemente que ainda me vejo tocada por essa falta de consciencia e sede de grana que cega o lado humano e apaga o brilho do respeito à vida em geral . Governos impotentes e corruptos aliados a empresários corruptores e insensiveis . Mundo vasto mundo. Como dizia Drummond que é dessa região esburacada pela extração do minério de ferro…Mundo mundo vasto mundo. Se eu me chamasse Raimundo. Seria uma rima mas não uma solução ! Bjs e bom domingo. Cida Torneros


vitor on 8 novembro, 2015 at 11:07 #

Luis Augusto

Perfeito o seu comentário sobre o artigo de Cida e jornalista Jose Raimundo. Conheço Zé mais ou menos da mesma época em que ele dava duro no Baneb e na TV Itapoã e eu de passagem entre A Tarde e o Jornal do Brasil. Depois ele já na Globo, fomos padrinhos do casamento de Raimundo Lima com Miriam, em Feira de Santana. Uma festa inesquecível, onde a amizade pessoal juntou-se ao enorme respeito e admiração profissional que sempre tive por ele. Um cara exatamente assim como você descreve; carregado de humanidade, despido de vaidades e estrelismos do meio onde ele brilha como poucos.Além da competência,há décadas. Um companheiro da melhor qualidade para tomar cerveja e conversar. Do jeito que a gente e toda a Bahia gostam.


Cida Torneros on 8 novembro, 2015 at 11:13 #

Retificando: luta versus ( com u) preservação do meio ambiente..versos só os do Drummond maravilhoso!


luiz alfredo motta fontana on 8 novembro, 2015 at 11:37 #

Perfeito Cida

É nosso retrato, estamos em mãos de predadores. Pior, eles escolhem as normas e nomeiam quem as interpretam.

Não esperemos nada além de um prejuízo contábil já prefixado.


luiz alfredo motta fontana on 9 novembro, 2015 at 13:35 #

Uma curiosidade, que traduziria uma boa pauta para o tal jornalismo investigativo:

Quanto custa um “laudo técnico” que isente os culpados?

Certamente as negociações estão em andamento. Ou não?

Afinal enquanto o crime se esvai rumo ao oceano, Ministério Público e Judiciário permanecem inertes. O noticiário finge ser obra do “espirito santo” o “acidente”.

Tudo se resume à declarações de solidariedade, desde que apenas protocolares.

Triste país, assiste impávido e calado essa atrocidade. Culparão os declives? Amaldiçoarão o relevo que abrigou Drummond?


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