Célia Regina:juiza afastada da Zelotes.


Helenita de Hollanda:verdades populares em livro

ARTIGO DA SEMANA

Ditados de Helenita e a juíza retirada da Zelotes

Vitor Hugo Soares

Para escrever sobre o afastamento da juíza Célia Regina Ody Bernardes do comando da Operação Zelotes e das querelas políticas, jurídicas e sociais da semana, no Brasil, percorro as páginas do livro “Como diz o Ditado…”, da médica e pesquisadora Helenita Yolanda Monte de Hollanda. Busco auxílio no saber popular que ela recolheu durante décadas, e agora oferta generosamente aos leitores, em cada uma das quase 500 páginas de uma obra seguramente destinada a ser referencial no gênero e conteúdo.

História bonita e exemplar de uma autora e seu livro. Desde as primeiras lembranças e relações familiares na infância e juventude, em Natal, capital do Rio Grande do Norte, onde Helenita nasceu. Depois, no exercício humanitário da medicina no interior do Nordeste, especialmente na Bahia. Finalmente, durante anos de séria e intensa pesquisa acadêmica, até a publicação desta obra original e inspiradora, recentemente editada pela Assembléia Legislativa da Bahia.

Assim, com grande prazer intelectual, o jornalista se envolveu no labirinto de que fala o médico Carlos Gilberto Widmer, no prefácio, enquanto procurava um adágio, um provérbio, um dito ou gírias matutas, um ditado que o ajudasse no tríplice desafio pessoal e profissional: a exata narrativa do fato jornalístico em si, a justa reflexão sobre o caso e a opinião sem titubeios ou cumplicidades pusilânimes, como requer a notícia do afastamento da juíza Célia Regina do comando da Operação Zelotes, nesta semana de começo de novembro.

E as embrulhadas que ainda seguem nas entrevistas, cheias de curvas e desvios, do ministro da Justiça, Eduardo Cardozo; das notas mal alinhavadas de dirigentes e representantes de órgãos da Justiça Federal; dos pronunciamentos dúbios e pouco convincentes de entidades corporativas (que mal conseguem disfarçar os atrelamentos de interesses diversos, aos donos do poder da vez e a trupe suspeita de envolvimento no caso. A exemplo do empresário Luís Cláudio Lula da Silva, provavelmente o motivo principal de toda essa algazarra e temores.

Principalmente das estranhas e suspeitas entrevistas dos dois juízes que disputam, entre si e entre seus pares, quem vai tocar, a partir de agora, as importantes, graves, delicadas e polêmicas investigações: O juiz titular da 10ª Vara, Vallisney de Souza Oliveira, que repentinamente retorna ao cargo depois de passar um ano no posto de juiz auxiliar no Superior Tribunal de Justiça (STJ); e o primeiro juiz substituto Ricardo Leite, com férias marcadas para os próximos dias que, “ab-ruptamente” (como dizia o saudoso professor Carlos Caetano, nas aulas do Colégio Central da Bahia) também decidiu seguir no batente, o que obriga o afastamento da juíza da 10ª Vara da Justiça Federal e, consequentemente, da condução da Zelotes. “Amaldiçoado seja quem pensar mal destas coisas”, diriam os irônicos e sempre atentos franceses.

Apesar do desfecho previsível e anunciado desta história nada alentadora, mas típica dos tempos temerários que correm no Brasil, o fato desconcerta e causa desconforto, mesmo com todos os mascaramentos utilizados até aqui. Afinal, tudo isso acontece poucos dias depois da magistrada, Mestre em Filosofia, adepta do pensamento de Michel Foucault (com livro publicado sobre o filósofo), ter retirado quase da sepultura e jogado potentes focos de luz em volta das muitas sombras que ainda – e cada vez mais – rondam este escabroso caso. Que levou à prisão advogados e lobistas acusados de manipular decisões do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) e de comprar benesses em medidas provisórias para montadoras de carros.

“A adversidade faz os heróis”. Recolho a verdade popular, com registro de número 1 (em ordem alfabética), no Adagiário do livro de Helenita de Hollanda (página 34). Considero o ditado quase perfeito para ilustrar o caso e a situação da juíza Célia Regina, que agora parece ser castigada por seus superiores (e pelos atuais donos do poder político e jurídico) exatamente por seus méritos: agilidade, competência e coragem. A sociedade observa.

“É melhor ser invejado do que lamentado”. Deparo mais adiante com este outro provérbio, também sob medida para o perfil da juíza deste caso em pauta. Está na página 127 de “Como Diz o Ditado”, da autora, que há décadas mora na Bahia, dedicada ao exercício da medicina social e humanitária nas áreas mais pobres do estado, cuidando da saúde de gente carente de quase tudo, menos da enorme sabedoria compartilhada com a médica e escritora.

O tempo, senhor da razão, dirá qual dos dois ditos se encaixa melhor ao caso, à situação e ao perfil de sua principal personagem. Antes do ponto final destas linhas, porém, mando um Bravo para a juíza Célia Regina (“o tempo só é ruim para quem não sabe esperar”). E o aplauso, acompanhado de forte abraço e agradecimentos à médica escritora, pelos ensinamentos do seu delicioso e notável livro.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Taciano Lemos de Carvalho on 7 novembro, 2015 at 7:37 #

Quatro ditados populares apanhados por aí e que também se encaixam nessa história do Carf e do Filho do Homem (Filho e Homem com iniciais maiúsculas, pois o homem se considera o próprio Deus. Aliás, ele tem certeza que é)

“Tal pai, tal filho.”

“Existem pessoas que nascem sorrindo, vivem fingindo e morrem mentindo.”

Quanto às explicações contraditórias, e fajutas, para a substituição da juíza Célia Regina do comando da Operação Zelotes, como diz o ditado: “Para o bom entendedor meia palavra basta”.

E um quarto ditado: “Apanhado com a mão na botija”. Ou seria “Apanhado com a boca na botija”? Tanto faz, pois o mel da botija é do povo, não dos ladrões.


luiz alfredo motta fontana on 7 novembro, 2015 at 10:16 #

Caro VHS

A crônica jurídica sempre será um tributo ao acaso.

Aprendemos a noção de Justiça como qualidade divina. Esquecemos depois que, exatamente por isso, ela inexiste no mundo laico.

Assim, por acaso, louvamos certas decisões, pelo mesmo motivo, lamentamos outras.

No dizer gauchesco, devemos “saber onde moram as corujas”, caso contrário ficaremos “mais perdidos que cebola em salada de fruta”.

Togas, togados, são apenas investiduras com defeito de origem. Atrelarmos nossas esperanças em suas decisões é “andar como pau de enchente”.


luis augusto on 7 novembro, 2015 at 11:11 #

Caro poeta, na Bahia a gente diz “onde as cobras dormem”.

E me diga o que significa “andar como pau de enchente”, pois acho que o estou fazendo em relação à Justiça.

Abraços, Luís.


luiz alfredo motta fontana on 7 novembro, 2015 at 11:35 #

Caro Luís

Todos que buscam algo no tal judiciário, em nome da quimera chamada Justiça, “andam como pau de enchente”, ou seja sem rumo, levados por enxurradas outras.

Sempre haverá uma resma infinda de laudas, para justificar decisões díspares, morosas, prenhes de erudição vazia, citações em redemoinhos, alternando com ressacas de normas.

Enfim, navegarão, os que a buscam, às cegas, sem rumo, sem leme. Como “paus de enchente”.


Taciano Lemos de Carvalho on 7 novembro, 2015 at 11:54 #

Havia (ou há?) um ditado nas esquinas da Bahia que era ótimo substituto do “andando como pau de enchente”.

“Fulano está como…n’água” ou ainda: “Fulano está como…em redemoinho de curva de rio”


Mariana Soares on 7 novembro, 2015 at 11:56 #

Que maravilha de crônica, meu irmão!
Não obstante o tema ser triste e desolador, embora a gente já esteja acostumado aos desmandos, (ou seria o contrário?) dos nossos governantes e (in) justiça brasileira, vc conseguiu um tom quase musical para seu texto, de beleza e dignidade, típico de quem, não só está atento, mas, sobretudo, não se conforma ou acostuma com o escárnio.
Também tenho o meu ditado para ocasião: “quando quem manda perde a vergonha, quem obedece perde o respeito”.
Estamos no fundo do poço, mas parece que este fundo não tem fundo…
Quando se tira um servidor do seu mister justamente porque ela está fazendo a coisa certo é porque neste fundo há muita sujeira ainda e o cheiro ruim exala e nos enoja, sufoca e nos mata um pouquinho a cada dia.


Cida Torneros on 7 novembro, 2015 at 12:54 #

Caro jornalista amigo Vitor
Seu artigo é primoroso. A Justiça humana , vira e mexe costuma ser “injusta” e as consciências deixam de ser lugares onde os poderosos deveriam pôr as mãos. Mas talvez seja verdade que o tempo é o senhor da razão. A história nos dirá como havemos de levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima. Com dores morais e investigacao implacável parece que o caminho é mesmo um grande exame de consciência para nós em termos de Brasil sonhado e enganado. Parabéns pela fluência e lucidez. Saúde e Paz para você é toda a turma do BP.


luis augusto on 7 novembro, 2015 at 14:15 #

Não seria Helenita uma cópia meio desfocada de Ro-Ró?

Agora falando sério: querido Vitor, quem dera morássemos no mesmo prédio, e pudéssemos desfrutar de milhares de cervejas em comum.

Todos os fatores, lamentavelmente constatamos, convidam à distância: trânsito, segurança, velhice, comodismo, quem sabe a desconfiança de que nossas conversas não poderão mais mudar o mundo.

Eu poderia perguntar olho no olho dessa grande figura humana: não seria Vasiliney o nome do magistrado em tela?

E vibrar pela citação do professor Carlos Caetano (não foi “do meu tempo”), do Central, por onde também passei, pois, de fato, e isto os antigos revisores da Assembleia cultuam (eu, não, que só tenho 18 anos na Casa, produto que sou do antepenúltimo concurso por lá, em 1996), não existe “abrupto” com o “br” soando como em “bronca” ou, claro, “Brasil”.

É ab-rupto, foneticamente separadas as partes. Abraços, e nosso recente encontro, em ambiente amplo e expansivo, apenas reavivou, como se ainda tivéssemos tempo a perder, a vontade de vê-lo com toda calma e tranquilidade.

Registrando a tradução baiana de Taciano – acho que o original é “bosta n’água” –, saudemos o provérbio incorporado por Mariana: “Quando quem manda perde a vergonha quem obedece perde o respeito”. Perfeito, tristemente, para o Brasil.


vitor on 7 novembro, 2015 at 15:16 #

Grande Luis!!!
Ao ver a emoção escorrendo no rosto do marido, Margarida acaba de abrir uma cerveja japonesa, de nome estranho, mas muito boa, com lágrimas escorrendo na garrafa, como você pedia à sua Naná(queridissima amiga) quando saia d\ redação para casa. Celebremos então a amizade, o que ainda resta de melhor na Bahia e no Brasil de tantas decepções e desencontros. Tim Tim!!!


luiz alfredo motta fontana on 7 novembro, 2015 at 15:20 #

Luís

Não restou um chapéu branco, os que antes usavam preto, cooptaram, travestiram, estão, agora, todos usando cinza.

Aqui e acolá, tenta-se encontrar a redenção num despacho mais desassombrado, numa ousadia qualquer, até mesmo num editorial, com data de vencimento, até a próxima edição.

Tudo turva, tudo cheira mal, respirar sem aderir, é ato de fé e coragem, em cada esquina, para além da memória de antes, uma cilada, uma ilusão, um equívoco, destes bem intencionados, milita rente ao despudor.

Acreditar em final feliz, pode até ser profissão de fé, mas apenas doura a pílula.

O sonho, como foi dito e cantado em verso e prosa, acabou, sobrevivemos a ele, é verdade. O preço? O pesadelo cínico de saber que além da ficção, o real é lama fétida.

Laudas serão exaradas, em primeiras, segundas, terceiras e supremas instâncias, para que, como proferiu Tancredi, em o Leopardo, tudo permaneça exatamente como antes. Sempre haverá uma promoção, uma indicação, uma cadeira vetusta a ser ocupada, além de nossas velhas e cansadas esperanças.

Por sorte, o malte ainda existe, o copo baixo em cristal o oferece, o gelo reluz em aroma.

Um brinde, despido de amargura, fraterno em uma mesa idealizada sob o céu de Caymmi.

Tim Tim!


luiz alfredo motta fontana on 7 novembro, 2015 at 16:58 #

Vitor e Luís, ao fundo a brisa, a mesa na paz do último bar, ouvir Maysa cantando Edu e Vinicius, dá sabor ao brinde!!!

https://www.youtube.com/watch?v=A4ojkO76T0k


Nivaldo Luis Pereira de Miranda Monte on 8 novembro, 2015 at 14:45 #

Quando vamos nos levantar contra esse estado de coisas insustentável? Precisamos começar a fazer alguma coisa, precisamos protestar, exigir que usem o dinheiro público, que é composto da quantidade enorme de impostos que pagamos, em benefício do cidadão brasileiro e não contra ele. O cidadão brasileiro precisa se preocupar menos com novelas e futebol, instrumentos de manipulação que deram certo no Brasil, e atentar mais para os seus próprios problemas, para a sua vida. Precisamos parar de fazer vista grossa para quem está nos enganando e roubando, precisamos aprender a votar melhor, a não esquecer o que os políticos aprontaram em seus mandatos anteriores, para não votar mais neles. Depende de nós, somos nós que colocamos esses senhores corruptos no poder.

A vida poderia ser bem melhor se as pessoas se entendessem.

Se, em vez de haver corrupção entre os políticos, houvesse participação deles nas comunidades que representam.

A corrupção é como o câncer: quanto maior a demora em estabelecer o diagnóstico e iniciar o tratamento, menores são as chances de cura


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