DEU NO BLOG POR ESCRITO (DO JORNALISTA LUIS AUGUSTO GOMES)

Josaphat: um governo que jamais chegou

Justamente homenageado em várias instâncias da vida política, jurídica e cultural baiana pelo seu centenário, transcorrido anteontem (28), Josaphat Marinho tinha, no entanto, a natural ambição humana, e no seu caso era chegar ao governo do Estado que tanto o laureara na vida pública.

Iniciando a carreira na UDN, em 1947, como deputado estadual constituinte, em oposição ao período ditatorial do presidente Getúlio Vargas, Jospahat distanciou-se da origem ao ingressar no PL, o antigo Partido Libertador, pelo qual se elegeu senador em 1962.

O golpe militar de 1964, que o colocou na oposição a tantos correligionários do passado, frustrou-lhe a possibilidade de disputar o governo dois anos depois. O novo poder instalou-se duramente na Bahia e impediu sua reeleição em 1970, mesmo havendo duas vagas, conquistadas por Heitor Dias e Rui Santos.

Derrotado, Josaphat permaneceria mais de 20 anos sem mandato, mas sem abandonar a luta difícil contra a ditadura, num tempo em que o pavor esmagava a sociedade e era temerário confiar no colega de escola ou de trabalho para falar de assuntos políticos.

A ditadura denunciada com coragem

Um exemplo memorável de sua atuação foi o discurso, em 1974, em ato promovido na Associação dos Funcionários Públicos, na Rua Carlos Gomes, para agregar a oposição. Entre militantes de todas as idades, preocupados com o que lhes poderia acontecer por estarem ali, Josaphat deu a senha.

Relembrou a reação de um político no período varguista ao ser indagado sobre a natureza do regime. E repetiu a resposta: “Se me mostrarem um copo e disserem que é chapéu, eu direi que é um copo. Se me mostram uma ditadura e perguntam se é democracia, eu digo que é uma ditadura.

E prosseguiu, já aí diante do delírio de gritos e aplausos da plateia: “Podem conceber o mais mavioso dos vocábulos para descrever a truculência que abastarda a nação, e eu resistirei na definição de que é uma ditadura! Ditadura!”

Talvez o carlismo não voltasse com ele

Em 1986, com a redemocratização do país – processo longo, iniciado pela anistia em 1979 e seguido da primeira eleição direta de governador, em 1982 –, Josaphat, então filiado ao PSB, lançou-se candidato ao governo, mas a oposição já estava decidida em torno de Waldir Pires.

Josaphat recebeu o apoio de Antonio Carlos Magalhães, a cujo partido, o PFL, teve de filiar-se tempos depois em razão de a direção nacional do PSB ter determinado o fim da aliança.

A derrota acachapante nas urnas atestou a barca furada em que entrara. ACM sofreu um golpe que já esperava, tanto que aceitou Josaphat como único recurso eleitoral, como tentara um ano antes, com Edvaldo Brito para a Prefeitura de Salvador, conquistada facilmente por Mário Kertész.

Os fatos que se seguiram são sucintamente conhecidos: o vencedor, Waldir Pires, renunciou no meio do mandato para ser o vice na chapa de Ulysses Guimarães na eleição presidencial de 1989, assumindo o governo o vice-governador Nilo Coelho para um desempenho que resultou na volta do carlismo.

Como não podem os olhos ser fechados à história nem o cérebro à imaginação, especula-se da perspectiva de hoje – talvez já de algum tempo – se, ressalvadas a honestidade, a respeitabilidade e a independência de ambos, não teria sido mais proveitosa à Bahia a vitória de Josaphat.

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