Pedra do Arpoador, Rio a 28 graus


CRÔNICA

O pão

Gilson Nogueira

Meio dia na Pedra do Arpoador, Zona Sul da Cidade do Rio de Janeiro. Surfistas evoluem nas ondas pequenas com grande maestria, em mar proibido para banho por conta da correnteza. Gaivotas e atobás voam baixo, sob céu azul e branco, enquanto um helicóptero neurótico sobrevoa a área anunciando que o governo trabalha.

Na areia, o salva-vidas passa e apita para o turista bobão que pretendia desafiar a morte. O cara desiste de querer chegar ao túmulo antes da hora. Pombos ciscam o lixo invisível. E vendedores de caipirinha, saída de praia, biscoito, mate e até pau de selfie enchem o saco em busca de algum dinheiro para garantir o rango. As mulheres mais bem feitas do planeta não desfilam como o fazem no verão. A bola é tocada com classe por amantes do futebol. O Rio tem um Fluminense em cada praia.

Do Posto 5 ao Posto 9, suando pouco, aos 28 graus centígrados da terra da Bossa Nova, caminho felicidade por estar junto de três netinhas maravilhosas. E sigo contente com a possibilidade de mergulhar na água gelada como o chope do antigo Barril 1800, hoje Astor, que freqüentei nos anos 80. Em companhia de familiares, respiro fundo e contemplo a paisagem com os olhos e o coração. Dou-me a sorrir, obedecendo o instante de festa íntima e a curta mensagem pintada de preto por alguém de bem com a vida no canto da mureta da pedra que, um dia, fumou o baseado que Deus mandou. E ao avistar as ilhas Cagarras, o horizonte enigmático embelezando mais o cenário, desperto, de repente, com o chamado de uma das filhas, Paaaïii!!!”,cortando o pensamento repleto de tristeza ante a situação do meu país. E fui almoçar no Delírio Tropical, sem esquecer a realidade de quem não tem um pão para comer. Ipanema é uma mentira!

Gilson Nogueiraé jornalista, colaborador da primeira hora do BP.

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