DO EL PAIS

Carlos E. Cué

De Buenos Aires

Daniel Scioli, o candidato da situação apoiado por Cristina Kirchner, anunciou neste domingo, dia 25 de outubro, que venceu o primeiro turno, mas admitiu implicitamente que deve enfrentar outra votação. Em um comício no estádio Luna Park, de Buenos Aires, já convocou os indecisos e atacou seu rival liberal, Mauricio Macri, qualificando-o de “candidato do ajuste”. É a primeira vez que Scioli critica tão abertamente seu amigo Macri. No Luna Park respirava-se um clima de grande frustração, apesar de se esperar que a diferença entre seu candidato e o segundo seja muito clara, de até nove pontos percentuais.

Scioli se posicionava no domingo à noite como vencedor das eleições na Argentina, segundo os dados das primeiras pesquisas, mas tinha dificuldade para evitar um incerto segundo turno. Os primeiros dados de que os partidos dispunham, de confiabilidade limitada, indicavam que Macri estava muito perto de conseguir seu objetivo de forçar um segundo turno. Para Scioli e seu principal apoiador, o Governo de Kirchner, seria um grande e inesperado fracasso.

A Argentina já não é a mesma de 2011, quando Cristina Kirchner conquistou sua reeleição com 54% dos votos, sem oposição. Agora se luta voto a voto e a incerteza prossegue até o fim de uma longa noite eleitoral. Essa é a principal novidade destas eleições: pela primeira vez desde que o kirchnerismo chegou ao poder, há uma oposição forte e o vencedor terá de fazer acordos. A maioria de que o kirchnerismo se valeu nos últimos anos já não será possível, pelo menos segundo os dados que as primeiras pesquisas indicavam.

De 2012 em diante, a economia se manteve parada e em 2014 uma forte desvalorização do peso resultou, pela primeira vez desde que o kirchnerismo está no poder, em inflação, que atualmente chega a 25% e superou os reajustes salariais.

Também se multiplicaram os casos de corrupção, e até o vice-presidente da Argentina, Amado Boudou, foi processado em dois casos por vários crimes. Os escândalos afetaram inclusive a família da presidenta, com o caso Hotesur.

No entanto, a chefe de Estado mantém sua popularidade acima dos 40%, sobretudo porque muitos eleitores comparam o estado atual de seu país com o da crise de 2001, antes de o kirchnerismo chegar ao poder, com 57% de pobreza de 25% de desemprego.

Essa boa imagem de Cristina Kirchner, somada a uma economia em crise mas que graças a uma grande injeção de liquidez e de gastos públicos este ano não chega a se naufragar, levava todos os pesquisadores e analistas políticos a presumir nas últimas semanas que Scioli conseguiria ganhar no primeiro turno. Essas mesmas análises destacavam que Macri, filho de um dos empresários mais ricos do país e com imagem de liberal, teria um limite de votos que o impediria de ultrapassar os 30% de que necessitava para forçar um segundo turno. A resistência de Sergio Massa, o peronista dissidente que chegou com muita força até o dia das eleições, fazia pensar que Scioli venceria no primeiro turno. No entanto, as pesquisas de boca de urna, cuja publicação é proibida na Argentina até três horas depois do fechamento dos colégios, indicavam que a diferença entre Scioli e Macri era de menos de 10 pontos, o que forçaria um segundo turno.

O peronismo já não arrasa como em 2011, quando Cristina Kirchner obteve 54% dos votos

Scioli, um candidato muito mais de centro do que os Kirchner, que em teoria deveria cobrir um espaço maior do que eles, não teria assim conseguido o resultado esperado. Apesar de que, se no final conseguisse a vitória em primeiro turno, mesmo que por alguns décimos, todas essas dúvidas seriam dissipadas e ele passaria a concentrar todo o poder.

“Estamos votando em um país normal”, destacou a presidenta depois de votar em Santa Cruz, a província onde começou o kircherismo e onde ontem também se travava uma batalha pela conservação do poder, com Alicia Kirchner, irmã de Nestor, como candidata a governadora.

Diferentemente das primárias de voto obrigatório de agosto passado, desta vez praticamente não houve denúncias de irregularidades. Naquela oportunidade, em algumas escolas a oposição se queixou do roubo de cédulas nas cabines de votação. Desta vez, nada disso ocorreu. As eleições foram definidas como “as mais controladas da história”, e os partidos recrutaram um exército de interventores para evitar qualquer tipo de fraude.

Era um dia de votação especial porque Los Pumas, a seleção de rúgbi, estava jogando, e no final perdeu para a Austrália. Os dois principais candidatos trataram de surfar na onda do esporte. Scioli expressou seu desejo de que seu país fosse reflexo do espírito dos Pumas. “Os Pumas são uma expressão do que deve ser o país. Que nos contagiemos pelo espírito dos Pumas. Eu digo isso como esportista. Eu acredito nesses valores. Viram quanta torcida há pelos Pumas? Essa é a garra que temos que ter.”

Macri também aderiu à ideia. “Vejo muita alegria na rua, hoje pode ser um dia histórico. Os argentinos votam por continuar igual ou mudar, esperemos que votem pela mudança”, disse Macri e contou que veria a partida em família. “Eles são um exemplo, é a Argentina que queremos, todos unidos e olhando para a frente”, concluiu.

Sergio Massa, que segundo as pesquisas tinha conseguido resistir aos pedidos de voto útil lançados por Macri para conseguir apoios, também parecia eufórico: “Para além do resultado, para além das questões políticas, tomara que comece uma nova fase na Argentina a partir da decisão das pessoas”. Massa foi o único que falou de pequenas fraudes: “Acabaram de me avisar que tivemos um pequeno incidente de roubo de cédulas, hoje todos os argentinos temos a responsabilidade de cuidar do voto das pessoas”, afirmou.

Mais de 32 milhões de argentinos foram convocados às urnas para escolher o presidente que os governará até 2019. O voto é obrigatório no país para cidadãos de 18 a 69 anos, e opcional para os de 16, 17 e acima de 70. Os argentinos também escolhem 45 deputados do Parlamento do Mercosul (Parlasur) e a metade da Câmara dos Deputados. Em oito províncias, um terço do Senado nacional será renovado. Em 11 se vota para governador, deputados provinciais, prefeitos e conselheiros, com disputas especialmente simbólicas em Santa Cruz e na poderosa província de Buenos Aires.

rna

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