CRÔNICA

Gal e seu velho compositor

Janio Ferreira Soares

Rio de Janeiro, metade de outubro de 2015, região da Praia de Ipanema onde ficavam as Dunas da Gal. Patrulhas formadas por policiais caminham atentas aos movimentos, agora não mais em busca de algum vacilo de Macalé, Wally Salomão e companhia, que no início dos 70 faziam valer os versos da canção de Paulo Diniz e viviam pondo um arco-íris nas suas moringas pra ficar lelé da cuca num dia de sol.

Hoje a onda é outra e a preocupação não é mais com os cabeludos inseridos naquele pacato contexto formado pela trilogia chope, amor e curtição. A parada agora diz respeito a garotos que se dizem excluídos da conjuntura e creem que a maçã nas costas dos celulares que eles furtam irá funcionar como uma senha de acesso a alguma refazenda digital, que lhes proporcionará o milagre de anoitecerem tomates na Feira de São Cristóvão e amanhecerem creme de papaia com cassis na borda infinita da piscina do Hotel Fasano ao lado de Riahnna.

Ainda com a sensação dos acordes de Fruta Gogoia passeando pelas curvas do meu velho labirinto, desvio-me das bicicletas cor de Tang e sigo convencido de que o meu rio não é de janeiro, nem das ostras, nem branco, nem preto. Meu rio continua sendo o de Francisco e minha praia, apesar de composta por elementos tão inversos (caatingas, rasos, anuns, vira-latas, chocalhos…), em dias assim, meio nublados, me soa até mais bonita do que essa que ora meus olhos fascina. “Olhe o Mate gelado!”. Encarno um Elomar ligeiro e respondo: “bééé!”.
Depois da bordejada saudosista com claras intenções de me preparar para o deleite, volto ao hotel e confiro a rota até o Aterro do Flamengo, onde a dona das dunas estará lançando seu mais recente CD intitulado Estratosférica, palavra que deveria ser dita bem pausadamente, sílaba por sílaba, toda vez que alguém quisesse definir o desempenho da revigorada baiana em seu novo show.
Acompanhada por um quarteto que lembra o que a escoltava no antológico Gal Fatal, ela esbanja charme, simpatia e outros vocábulos parelhos, tudo devidamente seguido por aquela velha pegada rock que andava meio sumida em meio a cantos inzoneiros e furtivas paixões acontecidas na praça vazia logo após o clarão se extinguir por trás da mão do poeta.
A propósito, um dos grandes momentos do show se dá quando ela canta Sim, Foi Você, acompanhada somente de seu violão e sentada naquela mesma posição em que mostrava suas pernas bronzeadas por um Sol que, à época, também esturricava Deus, o Diabo e as terras de Monte Santo. Emocionada, antes de cantá-la ela revela que essa fora a primeira música que aprendera a tocar ao violão, lhe ensinada justamente pelo seu autor “que deve tá por aqui”. Bingo!
Perto do palco, o antigo compositor baiano que dizia que tudo é divino e maravilhoso observa atento sua baiana belga trinando algumas de suas geniais criações, como se fora aquele velho canário da história, que, sem dar um pio, vale muito mais do que os pupilos que sibilam alegremente seus ensinamentos pelos céus das cidades do interior. De arrepiar.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, no lado baiano do Rio São Francisco.

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