DO PORTAL DE NOTÍCIAS TERRA BRASIL

Os brasileiros vão poder assistir neste domingo (27) a ocorrência de dois fenômenos simultâneos: o eclipse lunar total e a superlua. A coincidência ocorre uma vez a cada 30 anos.

A astrônoma Patricia Spinelli, do Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast), do Rio de Janeiro, Patricia explica como ocorre coincidência. A superlua acontece porque a órbita da lua, isto é, o caminho que a lua faz ao redor da Terra, não é circular. A órbita é achatada, ou seja, uma elipse.

“E se o caminho é elíptico, isso significa que em algum momento, a lua vai chegar um pouquinho mais perto da Terra”. Ao chegar mais perto, ela permite que se visualize o seu tamanho maior no céu. A superlua ocorre uma vez por ano, como informa Patrícia.

Já os eclipses, segundo a astrônoma, têm uma periodicidade de duas vezes por ano. Neste domingo, o eclipse coincidirá com a proximidade da lua em relação à Terra, devido a um fator geométrico. A superlua pode ser vista à noite em qualquer lugar do planeta, quando o satélite da Terra estiver na fase cheia: “Vamos ver a lua maior, por ela estar mais próxima da Terra”.

O eclipse só acontece quando a lua entra na sombra da Terra: “Mas, para que esse fenômeno seja observado, é preciso que seja à noite. Se for dia, o observador só conseguirá ver o sol e não o eclipse”.

O eclipse lunar total será visto no Brasil porque, quando a lua estiver entrando na sombra da Terra, será noite no país. Patricia Spinelli disse que a ocultação da lua ocorrerá por volta das 23h30 e “esse é o ápice”. O processo completo, porém, começará por volta das 22h, quando a lua passará a entrar na sombra da Terra.

DEU NO BLOG O ANTAGONISTA

Casa Civil quer decidir sobre leniência

Se o plano de Aloizio Mercadante e Jaques Wagner for em frente, teremos um órgão figurativo. Sem o status de ministério, a CGU (Controladoria Geral da União) perderá a paridade hierárquica e, em vez de demandar, vai precisar “pedir a benção” da Casa Civil para praticamente tudo…

Um galinheiro para raposas

Falamos ontem sobre o fatiamento da CGU. A ideia do governo é subordinar a Secretaria Federal de Controle Interno à Casa Civil, enquanto a Corregedoria seria rifada a outro ministério, provavelmente o da Justiça.

Além de desmantelada, se afastaria a “apuração” da “punição”, dificultando a ação coordenada, e uma área extremamente técnica ficaria sob total domínio político. É bom lembrar que 9 entre 10 escândalos de corrupção nos últimos anos nasceram na Casa Civil.

BOM DIA!!!


Marta e Temer neste sábado em São Paulo. / V. C.
(Brazil Photo Press/Folhapress)

DO EL PAIS

Marina Rossi

De São Paulo

Em clima de festa no histórico teatro Tuca em São Paulo, a senadora Marta Suplicy oficializou neste sábado sua união ao PMDB, partido do vice-presidente Michel Temer, que está com um pé fora da base aliada do Governo Dilma Rousseff. Depois de 33 anos de vida política no Partido dos Trabalhadores, a senadora anunciou sua saída da legenda em abril deste ano, após sucessivas críticas à condução da política econômica.

Ao lado dos caciques peemedebistas, Marta proferiu um discurso dando um golpe final no PT: “o Bilhete Único, o Vai e Vem e os CÉUs agora são nossos. É patrimônio do PMDB”, disse, citando seus principais – e mais prestigiados – projetos como prefeita de São Paulo, quando governou a cidade sob a bênção do PT entre os anos 2000 e 2004.

A filiação de Marta ocorre em um momento em que o PMDB consolida seu caminho para um voo solo em 2018. O partido já afirmou que disputará a presidência com uma chapa única nas próximas eleições ao Planalto, depois de 21 anos. A última vez que o partido saiu com candidato próprio à presidência foi em 1994, com o ex-governador paulista, Orestes Quércia, que não chegou a passar para o segundo turno. Para alcançar agora ao Planalto, o PMDB terá de construir suas bases já no ano que vem, quando ocorrem as eleições municipais. E o clima no Tuca deixava claro que Marta Suplicy será a candidata, apesar de ter outro candidato correndo por fora, Gabriel Chalita, atual secretário de Educação da capital.

“Um, dois, três, quatro, cinco, mil. Marta e Michel em São Paulo e no Brasil”, gritavam os eleitores da senadora dentro do teatro, puxado pelos organizadores. E a nova candidata levou seus fãs para o Tuca. “Sou apaixonada pela Marta Suplicy”, disse Valdirene Rodrigues de Carvalho. “Quando ela era candidata à prefeitura, eu não tinha dinheiro para comprar uniforme para os meus filhos. Ela prometeu que daria um jeito nisso e, graças a ela, meus filhos puderam ir para a escola como as outras crianças”. Valdirene veio espontaneamente do Jardim Cidade Pirituba, a 13 quilômetros dali, para prestigiar Marta, que, quando prefeita, entregou uniforme escolar gratuitamente aos alunos da rede municipal.

O PMDB, porém, desconversa quando o assunto é eleições municipais. “Nós vamos deixar essa discussão da candidatura para o ano que vem”, afirmou o deputado Baleia Rossi, presidente do diretório estadual do partido. “Claro que ela [Marta] tem esse desejo [de ser candidata à prefeitura], e tem todas as qualidades para ser a nossa candidata, assim como tem o Gabriel Chalita, que já foi candidato, teve quase um milhão de votos”.

Gabriel Chalita, que é presidente do diretório municipal do PMDB, também desconversa sobre uma possível disputa pela candidatura no ano que vem. “Estou feliz com a chegada de Marta. Ela é um grande quadro”, disse. “Mas só vamos discutir eleições no ano que vem”.

Enquanto os peemedebistas saem pela tangente, o cenário, segundo analistas, já está definido. “Pode haver alguma disputa de fundo formal dentro do PMDB, mas acho difícil que ela não seja a candidata”, afirma Rafael Cortez, analista político da Tendências Consultoria. “A candidatura dela, se não é garantida, está bem encaminhada dentro da legenda”. Para ele, esse quadro condiz bastante com a estratégia do PMDB de alçar um voo solo em 2018, se desassociando do PT o máximo possível.

Para o cientista político Claudio Couto, uma possível candidatura de Marta pode se beneficiar da baixa popularidade do atual prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT-SP). “O motivo dela ter saído do PT e ingressado no PMDB, era justamente por ela querer ser candidata à prefeitura”, diz. “Com essa entrada no PMDB, ela tem essa chance. E, em virtude dessa avaliação não muito boa de Haddad, a chance dela aumenta mais ainda”.

Quando Marta deixou a prefeitura de São Paulo, ela contava com a aprovação de 49% dos paulistanos. Mas não se reelegeu. Tentou, sem sucesso, conquistar a classe média e alta, reduto do seu então adversário, José Serra (PSDB-SP), que acabou vencendo as eleições. Apelidada de Martaxa na classe média por ter criado impostos progressivos que isentavam os mais pobres, como a do lixo e a da luz, Marta conquistou um legado na periferia por, fundamentalmente, duas grandes marcas: a criação do Centro Educacional Unificado (CEU), complexo educacional, esportivo e cultural nas periferias, e do Bilhete Único, com o qual usuários podem fazer mais viagens pelo preço de uma.

Se essas realizações a credenciam como uma das mais fortes candidatas à prefeitura, Marta não estará livre de contradições que lhe serão cobradas durante a corrida eleitoral. “A gente quer um Brasil livre da corrupção e das mentiras”, disse, neste sábado. “Estou no PMDB do doutor Michel [Temer] que vai reunificar o país. (…) Michel, conte comigo para reunificar o país”. Sua nova casa, porém, tem oito políticos investigados pela operação Lava Jato. Quatro deles estavam com ela no palco do Tuca neste sábado. “Olha aí o corrupto da Petrobras falando”, disse Gilvan Ramos, da Associação de Moradores do Parque Anhanguera, quando Eduardo Cunha dava as boas vindas à nova companheira. “Tô aqui por causa da Marta. Se não fosse meu respeito por ela, já teria gritado que ele é um corrupto safado”.

Cunha está sendo investigado pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. A procuradoria-geral da República acusa o deputado de ter pressionado o lobista Júlio Camargo a pagar cinco milhões de dólares de propina para garantir que a Samsung, representada por Camargo, construísse dois navios-sondas da Petrobras. A denúncia foi confirmada nesta sexta-feira pelo doleiro Fernando Baiano, que trabalhou para o PMDB, e fechou acordo de delação premiada com os invesgadores da Lava Jato. Se não apresentar defesa consistente, Cunha corre o risco de perder a presidência da Câmara.

Assim, se a candidata a prefeita agrada a periferia por suas obras, desagrada uma parte do eleitorado paulistano que enxerga incoerência em seu discurso. “O PMDB não é exatamente um lugar pra onde vai alguém que rechaça um partido com problemas de corrupção”, afirma Claudio Couto. “Essa desculpa não cola. A relação da Marta com o PT se devia muito à falta de poder dela dentro do partido, do que por qualquer outro motivo”.

Marta agradeceu a Cunha pela presença durante o lançamento da sua candidatura neste sábado. “Cunha, que é um líder focado e determinado, quero agradecer a sua presença”, disse. O deputado aproveitou sua fala para reafirmar a necessidade de romper com o PT. “Não podemos mais ir a reboque de quem quer que seja. Time que não joga não tem torcida. Chega de usar o PMDB apenas como parte de um processo para dar cobertura congressual para aquilo que a gente não participou. (…) Que o PMDB siga seu exemplo, Marta. Vamos largar o PT”.

Uma bateria de samba encheu o teatro para receber a senadora e a cúpula do partido. “Você pagou com traição a quem sempre te deu a mão”, cantavam. Eleitores de Marta chegavam aos montes nos ônibus e vans bancados pelo PMDB. Uma mesa com lanche grátis e refrigerante os recepcionava no saguão do teatro.

Marta chega ao PMDB faltando apenas uma semana para o fim do prazo de filiação dos políticos interessados em disputar as eleições do ano que vem. Simbolicamente, o ato desde sábado confirma mais um golpe para o PT, o grito de independência do PMDB e da própria Marta, e que as eleições de 2016 já começaram.

set
27


PSOL quer tirar Nilo da cadeira

Absorvido pela dificuldade de definir o destino partidário, para o qual – propala-se – disporia de oito opções, o presidente da Assembleia Legislativa, Marcelo Nilo, tem agora de preocupar-se com ação de inconstitucionalidade movida pelo PSOL no Supremo Tribunal Federal contra sua capacidade de reeleger-se “ininterruptamente” para o cargo.

Nos autos, conforme noticiário distribuído pelo próprio STF, informa-se que a Constituição baiana não tratava da reeleição de deputado para cargo na Mesa Diretora, o que foi proibido por emenda promulgada em 1994. Em 2000, nova emenda autorizou a recondução para o período subsequente, fixando as condições que, muitos anos depois, resultaria na era de eternização de Nilo.

É que a norma passou a ser interpretada “no sentido de que a eleição para o mesmo cargo em legislaturas diferentes não seria considerada recondução”. O PSOL alega que conhece jurisprudência do STF de liberdade da Assembleia para regular o processo sucessório, mas quer “evitar abusos que levem a uma personificação institucional”.

O partido solicita em caráter liminar que se obedeça à Constituição para que os cargos da Mesa no Legislativo comportem uma só reeleição, com efeito retroativo ao presente biênio, o que retiraria Marcelo Nilo da cadeira.

O relator da matéria, ministro Celso de Mello, vê “requisitos para aplicação do procedimento abreviado para julgar diretamente o mérito da ação, dispensando a análise da liminar”.

set
27
Posted on 27-09-2015
Filed Under (Artigos) by vitor on 27-09-2015


Sid, no portal de humor gráfico A Charge Online


PADRE VERMELHO, VERDE…PLURAL.

Elieser Cesar

Ele nasceu na pequena cidade de Kampen, na Holanda, no dia em que o exército de Adolf Hitler invadiu a Polônia – 1º de setembro de 1939 – deflagrando a Segunda Guerra Mundial que deixaria cerca de 20 milhões de mortos. Mas o destino do pequeno Joop (José em holandês) e de seu irmão gêmeo Huub (diminutivo de Humberto, na mesma língua) seria a defesa da paz e do amor ao próximo. A caridade era um traço familiar. O pai foi membro da Sociedade de São Vicente em Kampen, de assistência a famílias pobres. A mãe morreu no parto. Os gêmeos foram criados com um casal de tios, afastados do mais velho, Jan, até que o pai contraísse novas núpcias. Huumb se tornou professor de Educação Física. Joob estudou Teologia em Viena, na Áustria, e se ordenou padre, em 1969.
Naquele mesmo ano, Joob visitou o Brasil, na companhia de um tio, mudou-se para Itanhém, município do extremo-sul da Bahia e, dois anos depois, já com o nome de José Koopmans, ou simplesmente Padre José, era vigário da paróquia local. Naquela região, atuou por mais de 40 anos na defesa dos direitos humanos e do meio ambiente, até a morte em 3 de junho de 2011, decorrente de um infarto do miocárdio. Além de padre, José Koopmans foi também ambientalista, terapeuta holístico, praticante de esportes radicais e militante político do PT, partido que ajudou a fundar na região e do qual se afastou insatisfeito com a guinada centralizadora da legenda, bem antes dos escândalos que colocaram a agremiação na vala comum das instituições que traíram seus ideais.

Foi ainda um dos mais ardorosos seguidores da Teologia da Libertação. Sua paróquia itinerante foram as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), muito atuantes nos anos 70 e 80 do século passado, no campo e nas periferias das grandes cidades da América Latina. No Brasil, as CEBs foram impulsionadas por católicos como o teólogo Leonardo Boff, Frei Beto. e os bispos Dom Pedro Casaldáliga, em São Fêlix do Araguaia, Dom Hélder Câmara, em Olinda e Recife, e Dom José Rodrigues, o saudoso e combativo bispo de Juazeiro, na Bahia. Elas tiveram papel de vanguarda na organização dos trabalhadores campesinos e urbanos, até serem progressivamente esvaziadas pela onda reacionária que varreu o clero progressista com a ascensão do Papa João Paulo II, para muitos estudiosos, o Papa da reação, pelo destacado papel que desempenhou no esfacelamento das regimes socialistas do Leste Europeu.
Padre José praticou um cristianismo verdadeiramente popular – aquele que segue à risca o mandamento “amai-vos uns aos outros” – distanciando-se do conforto material da igreja para ir ao encontro do seu rebanho carente de bens materiais e sequioso pelo conforto espiritual. Por isso chegou a ser acusado de negligenciar a salvação da alma para se dedicar à satisfação (ainda que mínima) material de seu povo, como se fosse possível a vida espiritual sem o menor conforto e a mais elementar segurança, a não ser no casos dos ascetas, mas, esses são quase santos.

OPÇÃO PREFERENCIAL PELOS POBRES

Como todos que abraçaram a Teologia da Libertação, Padre José fez a opção preferencial pelos pobres, desagradando aos ricos e aos poderosos que o chamavam de “Padre Vermelho”, numa alusão à uma aliança que julgavam impossível, a fé cristã com a militância política de esquerda. José tinha uma virtude eclesiástica pouco comum a um sacerdote incumbido de pregar o evangelho: convivia com amigos céticos, descrentes, agnósticos e mesmo ateus empedernidos sem cair na tentação de fazer proselitismo religioso. Sua catequese era a universal: transformar o homem, enquanto agente ativo da história, para poder transformar a sociedade. No púlpito, na cidade na roça, como um peregrino da fé e da cidadania, o padre concitava os fiéis, os trabalhadores e os camponeses à ação, no sentido sartreano do termo, a tomada de posição contra tudo aquilo que empobrece e ultraja a vida. Sartre costumava dizer se devia lutar contra todo tipo de injustiça, onde quer que ela exista. Foi o que sempre fez Padre José, pastor dos mais pobres.

Em Itanhém, o vigário, com seu grande carisma e seu jeito simples de gringo tabaréu, foi conquistando espaço nas ONGs, nos movimentos sociais e nos sindicatos de trabalhadores. No começo tropeçava no português, mas, aos poucos, foi dominando a língua e granjeando a simpatia dos segmentos mais pobres da população, onde o seu rebanho pastoral se multiplicava. Um dos seus primeiros desafios foi retirar os pelegos do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Itanhém que faziam o jogo dos fazendeiros e dos latifundiários.

Não demorou a ação social de Padre José começou a dar frutos. Para lhe auxiliar nos trabalhos, ele convocou o compatriota Nicolaas Schoenmaker, o Dr. Nicolau, médico clínico e especialista em Medicina do Trabalho. Os dois trabalharam juntos de 1980 a 1988. Com o apoio de entidades filantrópicas da Áustria, Holanda e Holambra (SP), Padre José e seus seguidores criaram o primeiro Plano Agrícola de Itanhém, ainda década de 70, para fortalecer a agricultura familiar; a Escola Família Agrícola e o Centro Social. Para se aproximar ainda mais da vida do homem do campo, José Koopmans comprou um pedaço de terra no povoado de Centenário, e, nas horas de folga, roçava, capinava e fazia viveiros de mudas. Sua integração com a gente simples era completa, sua fraterna intimidade com o homem do campo, completa, ao ponto do antigo Joob passar a ser chamado de “Zé da Roça”, em Itanhém e cercanias. A professora Nelcida Maria Cearon realça esta simbiose transnacional: “Zé se juntava ao povo. Era um deles, se misturava nos trabalhos, nas rezas, nas ruas, nas feiras, nas praças, sem distinção alguma, nem no jeito de se vestir, nem no jeito de morar”.

Já o Dr. Nicolau., que veio para o Brasil com a esposa Ângela, lembra que Padre José desenvolveu um trabalho muito forte nas CEBs, com cursos bíblicos, de saúde, para professores e de conscientização política. “Ele não tinha preguiça, nem medo, e, cá para nós, gostava de uma boa briga com os poderosos”. Outra virtude do religioso era a lealdade. “Ele nunca faltava a um compromisso. Mesmo com o Jipe ou o Fusca atolando nas péssimas estradas, ele chegava, quando não conluia o percurso a pé”, conta Dr. Nicolau que, em 1988, com o apoio do amigo padre, disputou (e perdeu) a Prefeitura de Itanhém, tendo como candidata a vice a professora Enelita, pelo PT.
Após a eleição, Dr. Nicolau decidiu sair de Itanhém. Em solidariedade ao amigo, o padre mudou-se para Teixeira de Freitas, onde iniciou uma nova luta, desta vez contra a indústria da celulose, que acusava de causar sérios danos ao ecossistema, avançar sobre as terras agricultáveis, para plantar eucalipto, ocupar as pequenas propriedades, provocando o êxodo rural e explorar os trabalhadores. No mesmo município, em 1988, o religioso disputou uma vaga de deputado estadual, pelo PT, e obteve 14 mil votos, insuficiente para a sua eleição.

Na luta contra o monopólio da celulose, Padre José escreveu o livro-denúncia Além do eucalipto: o papel do extremo sul (Salvador: BDA, 1997). O capítulo Para onde irá o Extremo sul?, abriga uma síntese de seu credo social: “Nosso futuro – pois todos somos responsáveis pela casa onde moramos – é a questão da cidadania. O futuro de uma cidade, de uma região, de um país, depende de todos os moradores, de todos cidadãos e cidadãs. Devemos assumir a nossa parte, a nossa responsabilidade. Mas, infelizmente, não aprendemos isso. Fomos educados e formados pensando que só os governantes são os responsáveis por tudo e que ‘eu’ sou responsável apenas pelas coisas que acontecem em minha casa, esquecendo de que ela não é somente o meu lar, mas também a rua onde moro, o bairro, a cidade, o estado, o país, o continente, o mundo….”

Padre José denunciava o aviltamento do homem pelo capital, impessoal e voraz: “A realidade nos mostra que o modelo de desenvolvimento em vigor exclui milhões de seres humanos de terem uma vida digna. A finalidade, o objetivo do desenvolvimento não é mais o ser humano, ou a vida para todos, mas sim o lucro. A ganância da elite, o querer ficar sempre mais rico, o querer ter sempre mais, o nunca está contente com que já se possui e querer acumular sempre mais bem por uma parcela da humanidade, empobrece a vida da massa. Exclui uma multidão de ter uma vida mais humana e faz com que centenas de milhões de seres humanos tenham de ‘sobreviver’ com uma moeda por dia”.

E, dando voz ao ambientalista, prossegue: “Faz a fauna e a flora desapareceram e faz dos rios e dos mares os depósitos do lixo produzido…Assim não dá para continuar. Devemos mudar de rumo, aprendendo em função dos erros do passado”. Neste ponto, Padre José aponta o caminho da salvação da sociedade: “Mudar de rumo significa concretamente olhar, em primeiro lugar, para os excluídos, os nãos abastecidos, os esquecidos. Ou seja, devemos olhar, em primeira instância, para os desempregados, para os pequenos produtos rurais, para as pequenas empresas, para os índios, para os pescadores, para os sem-terra, sem-teto, sem-escola etc”.

Depois apela para a união que, segundo o surrado, mas inquestionável jargão, faz a força: “Juntos, com todos esses setores, temos de tentar salvar e recuperar as nossas irmãs e irmãos mais atingidos e ameaçados pelo atual modelo [ de desenvolvimento] cruel, como também a fauna e a flora, os rios, os riachos, as cachoeirinhas, o mar e o solo”. Do contrário, “com o futuro já comprometido, não teremos futuro”.
Padre José recusava a pecha de “profeta”: “Não sou profeta no sentido de prever ou anunciar as coisas que acontecerão, aliás, esse é um conceito errado de profeta. Quero apenas anotar alguns pensamentos que, quem sabe, poderão ser úteis e levados em conta ao construirmos o nossos futuro’. Seguia, pois, como no poema de Carlos Drummond de Andrade,de mãos dadas com todos, pois, para ele, como para o poeta mineiro, o tempo era sua matéria, “o tempo presente, os homens presentes, a vida presente”.

Um episódio demonstra a solidariedade, o senso de justiça e a disposição cristã de perdoar que regiam as ações do religioso. Um recém-nascido fora encontrado no lixo. Descoberta, a mãe virara objeto de opróbrio na cidade. Na missa, Padre José aproveitou a pregação para falar do preconceito vigente contra a mãe solteira, questionou as condições da pobre mulher para criar o filho, a educação que ela recebera, as armas de que dispunha para lutar contra a fome, a miséria e o limbo em que se transforma a sua existência. Falou para uma plateia silenciosa e só faltou arrematar: “Quem, dentre vós não tiver pecado, que atire a primeira pedra”.
“O silêncio tomou conta da igreja e acredito que, como eu, muitas pessoas devem se recordar daquela pregação, não como um simples discurso, mas como uma lição de justiça e humanidade”, relembra, muitos anos depois, a professora Enelita de Souza Freitas, mestre em Literatura de Língua Portuguesa pela Universidade Católica de Minas Gerais – PUC-MG e ex-docente da Universidade do Estado da Bahia (UNEB).

LIVRO RESGATA A TRAJETÓRIA DO PADRE DOS EXCLUÍDOS

A trajetória humanista do religioso é resgatada no livro Padre José, um homem singular e plural, organizado por Enelita, juntamente com as professoras Helânia Thomazine Porto, Maria Mavanier Assis Siquara e Nelcida Maria Cearon, numa justa homenagem ao padre holandês que se naturalizou brasileiro e, por quatro décadas, incensou de fé e coragem boa parte do extremo-sul da Bahia. Publicado pela Frama Editora, o livro traz artigos e depoimentos sobre José Koopmans e até poemas a ele dedicados. Em seu depoimento, o poeta e jornalista Almir Zarfeg, de Teixeira de Freitas, recorda a primeira lição de Padre José: “Se você pretende mudar alguma coisa à sua volta, modifique a si primeiro, pois, você não conseguirá mudar alguém, enquanto não mudar a si mesmo”.

Já a arterapeuta Jeane Thomazine Baltar pinça outro habilidade do religioso, a de realizar intervenções com técnicas de abordagem holística, como a Radiestesia (para avaliações do campo energético), e Radiônica (método parafísico de diagnóstico e tratamento0 e o emprego de Florais de Bach (uso de algumas flores silvestres para tratar desequilíbrios nos níveis vibratórios, mentais, emocionais e físicos).
O médico veterinário Carlos Augusto Pinheiro Chagas ressalta o discurso político do padre: “Um de seus pensamentos políticos é o de que importa fazer com o povo e não para o povo. Quem faz para o povo coloca interesses que não são os do povo e este precisa desenvolver uma consciência crítica, visando o bem próprio e a construção de uma sociedade justa e solidária”. E, depois, como se houvesse se dado conta de algo que parecia impossível, comenta: “Pela primeira vez em minha vida, fui amigo íntimo de um padre”. E o padre José , acrescentaríamos, foi amigo íntimo de todo um povo, a gente pobre e simples do extremo-sul da Bahia, na qual personificou todo o seu mais amplo rebando: o próximo que soube (oh, difícil missão!) amar como a si mesmo.

Elieser Cesar é jornalista, escritor, poeta e professor universitário.

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