CRÔNICA

Gal Costa: a voz, uma vida

Marlon Marcos

Pensar nos 70 anos de Gal Costa é imaginar a força da canção brasileira embalada por uma das vozes mais lindas que o mundo conheceu no século XX. A voz da minha infância e da minha adolescência, condutora dos poemas de Caetano Veloso, reinventora da MPB, atirada numa sede de modernidade que a sufocou várias vezes, mas ela, nascida para cantar, nunca sucumbiu aos seus equívocos, e soergueu-se sempre, altaneira, à luz da voz mais raramente doce do nosso cancioneiro. Mãe da afinação. Trajetória que a eterniza e que a lança entre as maiores cantoras brasileiras de todos os tempos e nos qualifica, perante o mundo, como geradores de uma das vozes que podem representar a beleza do cantar feminino na história da humanidade.
Penso na Gal de Mãe cantando hoje, neste instante, Jabitacá em seu expressivo CD Estratosférica, à maneira da auto revolução de uma voz que perdeu o brilho de antes, sem perder a força do talento de cantora na mulher de 70 anos. Falar de Gal é acionar memórias e falar no presente da história deslumbrante que sua geração anos 60 escreveu na cultura brasileira.
Que coisa acordar num país onde cantam Gal Costa, Maria Bethânia, Nana Caymmi… Onde os olhos e os ouvidos alcançam a influência profunda que a filha de dona Mariah causou em dezenas de cantoras que apareceram depois dela: Fafá de Belém, Marisa Monte, Jussara Silveira, Claudia Cunha, referendando as mais importantes. Aliás, ouço a grande Claudia Cunha, estourada na Bahia, indo para o centro do Brasil se expressar, e ao se revelar, ela, Claudia Cunha desenha, em grandeza estética, os ensinamentos musicais de Gal que a fizeram, aos 70, ainda arrebatar plateias espalhadas pelo mundo.
Como não lembrar desta mulher e não se sentir representado? Como não agradecer a sua trajetória artística e a sua voz que ilumina os recantos escuros do nosso tempo e sereniza os tormentos que nos impedem de sonhar.
Gal é a voz numa vida. Poesia sonora que aquece. Emissões paisagens conquistas. O Brasil que precisa ser celebrado. Grandeza.
Minha alma derretida quando ouço, daquela voz:
“Mesmo com todas as coisas esquecidas entre nós
Até no apagar das velhas rendas coloridas, eu te amo
Nos nomes escritos no chão
Nos riscos de vidro na pedra”,
Isso agorinha, quando ela faz 70 anos e chega para cantar no Teatro Castro Alves, em sua cidade… E a gente se molha e chora; chora de alegria porque a beleza persegue a história musical dos baianos.
Parabéns, nossa Gal Costa!
Marlon Marcos é poeta, jornalista e antropólogo

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