CRÔNICA
Defuntos conectados

Janio Ferreira Soares

Se você é completamente dependente do Facebook e vive angustiado com o que poderá acontecer com o seu perfil depois que a morte vier lhe buscar, tranquilize-se. Acaba de ser disponibilizada na rede uma ferramenta que permite ao usuário indicar alguém de sua confiança para continuar alimentando sua página com posts e kkkks, mesmo depois que sua mandíbula estiver exibindo aquele característico sorriso de quem mora a sete palmos do chão.

Com o nome de Contato Herdeiro (ou “legacy contact”, no original), essa espécie de, como direi…, personal médium, terá a nobre missão de prosseguir escrevendo (ou psicografando, aí depende) suas pérolas diárias, aceitando pedidos de amizades e até atualizando fotos que, diante da nova conjuntura, suponho serão compostas basicamente por espelhos refletindo o nada e selfies de invisíveis corpos sarados numa academia lotada de ninguém.

Como não possuo Facebook e nunca me interessei pelo que neguinho fez ou deixou de fazer em suas andanças, não precisarei escolher ninguém para divulgar minhas mensagens póstumas, embora me roce a pele uma leve curiosidade em saber como reagiriam meus supostos seguidores diante das minhas aventuras além-túmulo. Sendo assim, mais uma vez monto na sela das hipóteses e cavalgo pelos campos das conjecturas, não sem antes levantar algumas dúvidas que ora atormentam este velho pangaré manhoso da beira de um quase finado rio.

Será que meu substituto, conhecendo todo o meu passado, recomeçaria minhas postagens a partir do dia em que eu nasci, ou continuaria exatamente da hora em que eu me fui? E se, só de sacanagem, ele começasse a desvirtuar minha história, inventando, sei lá, que eu vivia pelos barzinhos da moda balançando os braços ao som de “por onde eu for quero ser seu par?”. Nesse caso, quem se sentisse ultrajado teria o direito de se defender através de uma conexão disponível em sua nova morada? (Algo do tipo: “#tocandoharpacomgabriel desautoriza fulano a usar meu nome em vão sob a pena de conhecer a fúria da espada do meu anjo parceiro”; ou: “#velhoroqueironopurgatorio esclarece que não curtiu o novo CD de Belo, muito menos os ternos de Pepeu e Elton John no Rock In Rio. Já as pernas de Baby…!”; ou ainda: “#raparigadoinferno comunica a galera que o uísque com Red Bull das profundezas vem com brasa no lugar do gelo e é servido por um cão chupando manga, fã de Wesley Safadão”).

Seja como for, acho que eu escolheria não uma, mas algumas poucas pessoas que me são caras e daria a cada uma a responsabilidade de perpetuar minhas vadiações terrenas de acordo com suas especialidades. Assim, o amigo boêmio continuaria postando fotos de nossas farras, só que com uma cadeira vazia e um copo pela metade; o cinéfilo recomendaria aquele Fellini que não mais verei; o leitor colaria pedaços de algum Graciliano; o audiófilo sapecaria aquela canção do Roberto quando dezembro chegasse; e, de vez em quando, o meu velho amor colocaria umas fotografias amareladas de um tempo que pra nós findou. Curti.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco. Sem conta no Facebook.


Advogados comemoram decisão do Supremo: Kakay no comando

ARTIGO DA SEMANA

Nuvens de suspeitas: STF fatia Lava Jato, Kakay festeja

Vitor Hugo Soares

“Meu mestre e amigo Mário de Andrade tem razão: Pior do que uma baioneta calada é uma baioneta falante”.
(Da coletânea das 100 melhores frases de Ulysses Guimarães, selecionadas por dona Mora Guimarães.Publicada em “Rompendo o Cerco”, livro editado pouco antes do desastre de helicóptero, no qual Ulysses desapareceu e jamais foi encontrado no fundo do mar.)

A frase antológica do doutor Ulysses vem do período das batalhas políticas e sociais contra o regime militar (apoiado desde o começo, em 1964, por poderosos grupos civis no parlamento, no judiciário e na chamada grande imprensa). Ressurgiu na memória esta semana, durante a justificação dos votos na sessão plenária do Supremo Tribunal Federal, que fatiou o processo de investigação e julgamento na Operação Lava Jato, conduzido desde Curitiba, pelo juiz Sérgio Moro, da 13ª Vara Federal do Paraná.

A sentença produziu fato jornalístico relevante no Brasil, com repercussão internacional. Seguramente, afirmo – pela experiência acumulada em décadas de redação em tempos de crises brabas ou de maré mansa e céu de brigadeiro na política e na economia – com apelo suficiente para ficar assinalado como um dos momentos mais estranhos, nebulosos e suspeitos da historia da corte suprema do País em décadas. Ou séculos, talvez, mesmo incluindo o tempo cavernoso da baioneta calada.

Para o jornalista, tudo se deu de repente, não mais que de repente. Ao simples clicar do controle remoto, que liga o aparelho de TV sintonizado no canal aberto da TV Justiça, no começo da tarde de quarta-feira, 23. No ar, em transmissão aberta para todas as regiões do território nacional, a sessão presidida em parte pelo visivelmente pressuroso ministro Ricardo Lewandowski (alegou outro compromisso no mesmo horário da crucial decisão), e encerrada, mais às carreiras ainda, pela ministra Carmen Lúcia.

“Honi-soit qui mal y pense” (amaldiçoado seja aquele que pensar mal dessas coisas), diriam os irônicos franceses.

O fato é que o STF, por maioria de votos dos membros da sua atual formação (com jeito e sotaque adquiridos nos 13 anos de mando federal dos governos petistas (de Luís Inácio Lula da Silva a Dilma Roussef ), decidiu pelo fatiamento (ou mutilação se preferirem) da maior investigação de corrupção não só da história do Brasil, mas em escala mundial atualmente.

Isso permite que parte dos inquéritos da Lava Jato seja retirado das mãos do juiz paranaense, atualmente saudado com júbilo e aclamado em todo lugar por onde passa ou fala. O episódio é de amplo conhecimento público, mas vale repetir aqui, para contextualizar um caso no qual as razões de fundo seguem nebulosas: Foi uma repentina decisão (que ocupou todo o tempo da plenária), a partir do caso ligado à senadora Gleisi Hoffmann, do PT do Paraná, ex-ministra do peito da presidente Dilma em seu primeiro mandato. Estrela petista no Senado.

A votação representa, de saída, uma derrota para os procuradores (a começar pelo Procurador-Geral, Rodrigo Janot) e para Moro, defensores da tese de que os crimes investigados em Curitiba são costela de um mesmo esqueleto, de um esquema que se ramifica em diversas frentes e órgãos do poder público, em conluio mal escondido ou escancarado com poderosas empresas (e seus donos) no setor privado.

O resultado da sessão de quarta-feira no STF, no entanto, foi saudada e vivamente comemorada (ainda nas dependências da Suprema Corte), pelos advogados dos acusados (vários deles já presos), que desde o começo da Lava Jato agridem o juiz Sérgio Moro e o acusam “por supostamente agir em sintonia com a Polícia Federal e o Mininistério Público e conduzir o processo com mão de ferro”, como registrou o jornal espanhol El Pais, em reportagem sobre a sessão do Supremo.

À frente dos festejos ruidosos, o notório Kakay, advogado de defesa de vários endinheirados acusados de atividades corruptas, corruptoras e criminosas no Petrolão (assim como antes, no Mensalão, diga-se).

Voz praticamente solitária na sessão, o polêmico e explosivo ministro Gilmar Mendes foi direto ao ponto (ao emitir seu voto e em aparte contundente ao ministro Celso de Mello). Usou mira de precisão em seus disparos verbais: “No fundo, o que se espera (e corre na boca e na mente da sociedade no Brasil e no exterior) é que os processos saiam de Curitiba, e não tenham a devida sequência em outros lugares. É bom que se diga, em português claro!”, arrematou Mendes.

E cai o pano, lentamente, sobre o palco do Supremo Tribunal Federal.

Em Salvador, a Cidade da Bahia, no dizer de Gregório de Matos e Jorge Amado, fui praticamente conduzido para dentro do insólito cenário da sessão em Brasília, através das imagens e do áudio da TV Justiça. O inesperado que, jornalisticamente falando, em geral escancara armações até então submersas nos desvãos das tramoias dos bastidores e dos intestinos de um governo, de uma nação e da sua justiça.

Quando o pano cai e os protagonistas deixam o palco, fica a amarga sensação de que muita coisa foi dita, ou simplesmente sugerida (os significativos diálogos e ares nas trocas de afagos e salamaleques entre os ministros Toffoli e Lewandowaki, por exemplo), mas faltou ainda muito por dizer e ser esclarecido. Esperemos então as próximas representações judiciais deste drama nacional. Ou, quem sabe, o despertar definitivo da imprensa para o desafio de cavar mais fundo na investigação de fatos e informações cruciais desta trama de interesses e cumplicidades mal disfarçadas. O tempo, senhor da razão, dirá. A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

Parabéns e muitas felicidade, grande artista do Brasil!
Feliz Bahia que tem uma filha como você!
VIVA O 26 DE SETEMBRO DE 2015.
BOM DIA!
(Vitor Hugo Soares)

set
26

DEU NO BLOG POR ESCRITO (DO JORNALISTA LUIS AUGUSTO GOMES)

OPINIÃO

O país que jamais dá o passo adiante

O ex-presidente Fernando Collor penitencia-se por ter votado em Dilma. “Eu errei na minha avaliação. Ela realmente não estava preparada”.

Até pela sinceridade que parece propor na declaração, Collor comporta uma dúvida cujo esclarecimento poderia contribuir para o aprendizado da juventude e, portanto, para o futuro da nação.

É saber se ele próprio se sentia “preparado” em 1989, quando caiu de paraquedas na primeira eleição presidencial pós-ditadura, desbancando o líder histórico Leonel Brizola e, depois, o emergente Lula.

Um “fenômeno” inacreditavelmente alimentado pelos resquícios do regime à base da ilusão da “modernidade”, sustentado por computação gráfica, que se aproveitou do hiato de dez anos de esterilidade entre a anistia e o pleito.

O Brasil é assim. Nunca está “preparado” para a mudança mais efetiva, desde a Independência, passando pela Abolição, República e eventos menos solenes ao longo do século XX.

Pintam com tintas de heroísmo certas passagens, na verdade mais merecedoras das marcas da covardia e da vergonha. Collor foi uma das caras dessa anomalia histórica congênita.

set
26
Posted on 26-09-2015
Filed Under (Artigos) by vitor on 26-09-2015


Passofundo, no portal de humor gráfico A Charge Online

CRÔNICA

Gal Costa: a voz, uma vida

Marlon Marcos

Pensar nos 70 anos de Gal Costa é imaginar a força da canção brasileira embalada por uma das vozes mais lindas que o mundo conheceu no século XX. A voz da minha infância e da minha adolescência, condutora dos poemas de Caetano Veloso, reinventora da MPB, atirada numa sede de modernidade que a sufocou várias vezes, mas ela, nascida para cantar, nunca sucumbiu aos seus equívocos, e soergueu-se sempre, altaneira, à luz da voz mais raramente doce do nosso cancioneiro. Mãe da afinação. Trajetória que a eterniza e que a lança entre as maiores cantoras brasileiras de todos os tempos e nos qualifica, perante o mundo, como geradores de uma das vozes que podem representar a beleza do cantar feminino na história da humanidade.
Penso na Gal de Mãe cantando hoje, neste instante, Jabitacá em seu expressivo CD Estratosférica, à maneira da auto revolução de uma voz que perdeu o brilho de antes, sem perder a força do talento de cantora na mulher de 70 anos. Falar de Gal é acionar memórias e falar no presente da história deslumbrante que sua geração anos 60 escreveu na cultura brasileira.
Que coisa acordar num país onde cantam Gal Costa, Maria Bethânia, Nana Caymmi… Onde os olhos e os ouvidos alcançam a influência profunda que a filha de dona Mariah causou em dezenas de cantoras que apareceram depois dela: Fafá de Belém, Marisa Monte, Jussara Silveira, Claudia Cunha, referendando as mais importantes. Aliás, ouço a grande Claudia Cunha, estourada na Bahia, indo para o centro do Brasil se expressar, e ao se revelar, ela, Claudia Cunha desenha, em grandeza estética, os ensinamentos musicais de Gal que a fizeram, aos 70, ainda arrebatar plateias espalhadas pelo mundo.
Como não lembrar desta mulher e não se sentir representado? Como não agradecer a sua trajetória artística e a sua voz que ilumina os recantos escuros do nosso tempo e sereniza os tormentos que nos impedem de sonhar.
Gal é a voz numa vida. Poesia sonora que aquece. Emissões paisagens conquistas. O Brasil que precisa ser celebrado. Grandeza.
Minha alma derretida quando ouço, daquela voz:
“Mesmo com todas as coisas esquecidas entre nós
Até no apagar das velhas rendas coloridas, eu te amo
Nos nomes escritos no chão
Nos riscos de vidro na pedra”,
Isso agorinha, quando ela faz 70 anos e chega para cantar no Teatro Castro Alves, em sua cidade… E a gente se molha e chora; chora de alegria porque a beleza persegue a história musical dos baianos.
Parabéns, nossa Gal Costa!
Marlon Marcos é poeta, jornalista e antropólogo

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