CRÔNICA

O sapato do menino sírio

Janio Ferreira Soares

Confesso que minha intenção era escrever algo sobre a recente perseguição que a nave Soyuz fez em busca da Estação Espacial Internacional para deixar alguns astronautas por lá, mas a imagem cinza do São Francisco bem na hora em que os dois pontos de luz cruzavam o entardecer do sertão, logo me fez lembrar das águas do Mar Mediterrâneo roçando a face pálida do pequeno Aylan. Aí eu perdi o pique.

Mais tarde, tentei relaxar vendo um jogo na TV, mas a todo instante o uniforme rubro-negro de um dos times desviava meu pensamento para as tonalidades quase semelhantes às da roupa que vestia seu frágil corpinho, coitado, ali, sozinho, completamente desmoronado na areia, como se atingido por uma dessas inexplicáveis penalidades máximas que a chuteira da insensatez de vez em quando comete na canela da gente. “Goool da Alemanha! ”.

Angustiado, resolvi então dormir, mas admito que naquela noite não consegui sequer vislumbrar a pontinha do fio do novelo de lã das ovelhas que tecem a madorna. É tanto que me levantei várias vezes e fiquei andando meio sem rumo pelo quintal, ora procurando vestígios da Soyuz e da Estação Espacial (mesmo sabendo que naquela hora a luz do sol, já no outro lado do mundo, não mais refletia suas carcaças), ora ouvindo a BBC de Londres num velho rádio de antena torta, quem sabe na esperança de confortar meu dorido coração ouvindo os versos de The Long and Winding Road, vindos diretamente da região onde eles foram gerados. Mas no lugar da voz de Paul, a única canção que rasgou a longa madrugada foi a do respeitoso silêncio do tempo, vez ou outra quebrado pelo triste lamento de uma Mãe da Lua pousada solenemente numa velha estaca de uma cerca nas proximidades de meu jardim.

Falando em mãe, nos mais de 30 dias em que eu acompanhei a minha num quarto de um hospital, ela não se cansava de relembrar fatos da minha infância, certamente para aliviar minha visível dor diante de sua iminente partida. E uma das últimas que ela me contou antes de ser entubada, foi a de quando eu tinha 3, 4 anos e ela me presenteou com um lindo par de sapatos. Aí, num domingo de roupa nova e piquenique na beira do rio, eu me afastei um pouco dela e quando voltei estava apenas com um pé calçado. Depois de muita procura, finalmente confessei que havia jogado o outro num longo canal que levava a água do rio para irrigar coqueiros e mangueiras de um sítio distante. Nesse mesmo dia, um pouco antes de dormir, ela me perguntou se eu ainda tinha o pé que ela guardou e depois me deu. “Claro que tenho, Cecília, e hoje ele mora comigo na gaveta reservada aos pirlimpimpins”, devo ter respondido, ou tive a impressão de.

Lembrei dessa história porque assim que eu vi a imagem de Aylan sendo levado nos braços do policial, a primeira coisa que me chamou a atenção foi justamente o seu sapatinho, bem semelhante ao meu. Pena que o dele vai ficar para sempre guardado na gaveta onde mora a imensa dor de seu pai e numa triste foto, que, espero, tenha a força de transformar a crueza do mundo.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

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