Lula com no comício da UPA argentina:com Cristina e Sciolli

ARTIGO DA SEMANA

Lula com Cristina e a tormenta de Dilma

Vitor Hugo Soares

A quem interessar possa: Contentem-se com as desculpas e as tiradas de humor nas quase inaudíveis catilinárias das entrevistas do tímido (ou matreiro?) ministro Levy. Ou com as falas canhestras dos petistas Nelson Barbosa (Planejamento) e Aloizio Mercadante (Casa Civil). Ou, pior ainda, com as ideias desconexas e atrapalhadas da mandatária Dilma Rousseff.

É o que temos, por enquanto, nesta veloz, mas previsível, chegada à beira do despenhadeiro da economia e da política do País. Ao mesmo tempo, porque desgraça não vem só.

Não contem com a presença ou os discursos e projetos salvacionistas, de ocasião, do ex-presidente Lula, nesta semana azíaga de tormentas e dúvidas, depois da agência de classificação de riscos Standard & Poor’s ter rebaixado a nota e retirado o grau de investimento do Brasil. Um golpe severo, “você queira ou não queira, nêgo, nêga” (como no frevo O Carnaval Chegou, de Caetano Veloso). Sua Excelência, o fato, mexe negativamente na autoestima, com o mesmo grau e força positivos que a propaganda dos governos petistas emprestava às avaliações favoráveis das agências internacionais de risco até esta semana.

A quem ainda não sabe, eu conto: Exatamente na quarta-feira, 9, quando a má notícia chegou por aqui – com o impacto de um soco ou pernada no plexo de um lutador peso pesado da MMA – deixou grogue o Governo Dilma (PT) e os aglomerados políticos em volta – Lula baixava na Argentina. O ex-presidente (aparentemente em ensaios de volta) viajou para mais uma temporada de palanques em campanha eleitoral, palestras com empresários, proselitismos e “arranjos” (a palavra favorita de governantes e políticos do partido no poder no Brasil). Bem ao gosto, igualmente, do peronismo que manda há anos no país vizinho da América do Sul.

Na noite do mesmo dia, Lula foi fotografado, afagado e aplaudido por facções do Justicialismo ligadas ao clã dos Kirchner (rejeitado e condenado duramente, também, por adversários de outras correntes), no comício promovido no município de José C. Paz , a propósito da inauguração de uma espécie de UPA argentina (mini hospital para atendimento de casos de alta complexidade, que Lula criou em seu governo), instalado no coração de um bairro paupérrimo e abandonado pelo poder público nos arredores da Grande Buenos Aires.

Um cenário quase familiar, já se vê. A presidente Cristina Kirchner, seu candidato a sucessor, Daniel Sciolli, e o ex-presidente brasileiro cruzaram feericamente os arredores de Buenos Aires, bem aos moldes das superproduções marqueteiras que vimos recentemente por aqui. Lula e Sciolli de carro, Cristina de helicóptero. Um grande diretor de Hollywood não faria melhor.

“Trata-se de que os pobres não tenham de ir ao hospital, mas o hospital aos pobres”, discursou Lula para milhares de peronistas “inebriados, com suas bandeiras e até com um boneco de Néstor Kirchner de tamanho natural, que brandiam”, registrou o jornal espanhol El Pais. Nem sombra do boneco inflado de Lula por perto.

Amaldiçoado seja quem pensar mal destas coisas, diriam os irônicos franceses.

Mais tarde, do alto do palanque, o líder brasileiro, crivado de problemas e cercado de suspeitas graves em seu país, exibia um evidente ar de despreocupação e contentamento e ego inflado. De verdade, ou por mero jogo de aparências de um ator consumado.

No comício, Lula dedicou loas “ao companheiro Scioll”, mas reservou os maiores e melhores afagos para os Kirchner: “Com Kirchner enterramos a ALCA aqui em Mar del Plata. Aqui criamos a Unasul. É uma pena que Néstor não esteja aqui para ver Cristina, uma mulher realizada e vencedora. A senhora deixa a presidência como uma heroica defensora dos pobres”, disparou Lula.

No dia seguinte, em palestra em Buenos Aires, o líder brasileiro desdenhou solenemente a decisão de rebaixamento da nota de investimento no Brasil pela agência de risco. E, indiretamente, lançou farpas para a afilhada no Brasil: “Aos primeiros sintomas de uma crise começam a falar de cortes, de reduzir salários. Todas as medidas que, levadas a cabo nos anos 90, conduziram países ao empobrecimento”. E avisou, em seguida, que vai passar o resto da semana com a companheira Cristina, em campanha na Argentina.

“Sorete”, como dizia o saudoso Walmir Palma, maior e mais legendário repórter policial do centenário jornal A Tarde, das delegacias e dos melhores pontos de boemia e boa conversa da Cidade da Bahia antes da Internet , WhatsApp e telefone celular. No ar e no jeito do ex-presidente, um toque nada sutil, igualmente, do refrão da famosa canção da gaúcha Luka: “Tô nem aí”.

Ao fundo, em Buenos Aires, escuta-se o tango “Cambalache”.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 12 setembro, 2015 at 4:06 #

Quando lhe restar somente um tango argentino, e “nada más”!

O “antes nunca visto”, o dileto “namorado” de Rose, sobreviverá ao “agosto” de Dilma?

O aparente excesso de zelo da PF, posto que Luís Inácio é hoje cidadão comum, solicitando aval do STF para que o mesmo seja ouvido, tem mais efeito desmoralizante, do que o constrangimento que a medida garante.

Ao provocar o STF, a PF busca colocar, a nu, a fragilidade do ex-sindicalista.

Não cabe nenhuma alternativa ao STF, que não a anuência ao pedido. De resto dispensável.

Assim, Luís Inácio sentirá, na plenitude, a solidão dos apeados do poder. Já não era sem tempo.

Que dirá a Rose?


Janio on 12 setembro, 2015 at 8:39 #

Meu velho poeta Fontana, como boa companheira (ou comparsa, a escolha é livre), Rose nada dirá, apenas dançará La Cumparsita, tendo como par um Pixuleco trôpego e inflável em sus braços numa cela à meia-luz de um pardieiro qualquer.
Tim Tim ao nosso mestre Vitor, que, tenho pra mim, ainda é parente de outro mestre (o Jonas), que continua morando dentro da baleia e da canção do também genial Zé Rodrix – neste exato instante acariciando meu ouvido com seu velho Rock`n Roll.


jader on 12 setembro, 2015 at 8:54 #

Outro ponto de vista :
http://tijolaco.com.br/blog/?p=29548


Taciano Lemos de Carvalho on 12 setembro, 2015 at 9:09 #

Já foi Tijolaço. Depois da morte de Brizola virou pedregulho. Aliás, com a partida do Gaúcho, o partido virou pó de mané.


luis augusto on 13 setembro, 2015 at 7:03 #

E não nos esqueçamos, Taciano, de que Brizola morreu rompido com o primeiro governo Lula.

Entrei na página enviada por Jader e me assustei com o fato de um brizolista como Fernando Brito ainda relacionar Getúlio Vargas com isso que está aí.

Getúlio morreu com o mesmo patrimônio com que chegara ao poder, 24 anos antes, e criou a Petrobras, não tentou destruí-la.


Taciano Lemos de Carvalho on 13 setembro, 2015 at 11:17 #

Brizolista? Lupi e Manuel Dias também se diziam (e se dizem até hoje) brizolistas.

Veja no que acabou o PDT. Ou alguém acha que aquele partido do Brizola ainda existe? Acabou!!


luiz alfredo motta fontana on 13 setembro, 2015 at 11:32 #

O partido de Brizola, o PTB acabou em 1965, fulminado pelo AI-2.

Ivete Vargas, com apoio do ardiloso Golbery, apropriou-se da sigla em seu ressurgimento em 1980, restou ao Brizola a ficção do PDT.

Um dia, talvez, alguém escreverá, como um golpe militar esteriliza a alma de uma nação. Não temos partidos, só nos restou o fundo partidário, haja submissão.


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