CRÔNICA

Os pequenos príncipes de Dilma

Janio Ferreira Soares

Aproveitando que a obra de Saint-Exupéry está nos cinemas, tomo a liberdade de adaptá-la à nossa triste realidade política, constantemente apinhada de reis, rainhas e príncipes, sem falar nas cobras e sapos dos mais variados venenos e coaxares, sempre prontos para atirar-se em botes e linguadas justamente onde moram os ratos e voam os mosquitos.

O que é Brasília senão um asteroide B612, local onde o herói da fábula vive sufocado por baobás gigantes? Sem muito esforço, encontramos em solos planaltinos várias espécies vindas de Alagoas (iguais à que existe na Praça do Skate, em Maceió), Pernambuco (descendentes do que sombreia a Faculdade de Direito do Recife), Rio de Janeiro (com a mesma malemolência do localizado em frente à Central do Brasil) e demais regiões do país, que se enraizaram de tal forma em terras brasilienses que não sobrou nenhum espaço para o desabrochar da tão esperada rosa da esperança.

Levado por pássaros para conhecer outros mundos, se o nosso herói pousasse somente na Praça dos Três Poderes não sentiria nenhuma diferença, pois lá, flanando com seus invisíveis crachás em estufados peitos, estariam todos os personagens que compõem sua aventura.

Homens vaidosos? Além do emplumado tucano que habitou o Palácio do Planalto tempos atrás, seriam precisos uns cinco estádios do porte do Mané Garrincha para acomodá-los. Bêbados? Bem, a conversa que rola pelos bares do sertão é a de que fomos chefiados por pelo menos uns dois das melhores safras, sendo o último proveniente de uma região genuinamente aguardenteira do agreste pernambucano. Homens de negócios? Desculpe, mas aí é quase um pleonasmo nesse balcão persa disfarçado de Distrito. Serpentes? Diga-me o nome de qual ofídio desejas obter o veneno que te direis o endereço da bancada.

Na história original, o narrador é um piloto de avião que cai no deserto e lá encontra um garotinho de cabelos dourados que lhe pede para desenhar um carneiro, cuja finalidade seria comer os baobás que não param de nascer em seu planeta.

Já em Brasília, Dilma, depois de se atolar no Saara que ela mesma projetou, chamou seu pequeno príncipe das trevas e, à função de vice, acrescentou a missão de acalmar o bando de tuaregues salteadores, que cobram altíssimos pedágios em troca de votos. Polido no trato, o principezinho foi mortalmente atingido por balas de pratas disparadas por fogo companheiro e aí deu lugar ao Senhor Raposo, que matreiramente colocou um manto de ovelha sobre seus pelos implantados, tosou o vasto rabo e jurou à atrapalhada mandatária que comeria todas as ervas daninhas que ameaçassem seu esburacado jardim. Em troca, ela só teria que desenhar uma ponte que lhe levasse ao seu Shangrilá particular, onde ninguém é careca, tampouco investigado.

Para o bom e velho final feliz da história, falta apenas combinar com o destemido caçador da toga preta, já que o mesmo tem na sua mira todos os personagens citados acima, menos os tucanos, que voam alto, não deixam rastros e nunca soltam as tiras.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco

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Comentários

Taciano Lemos de Carvalho on 29 agosto, 2015 at 12:26 #

Maravilha!!!


Taciano Lemos de Carvalho on 29 agosto, 2015 at 18:16 #

“O combate às heranças maldita de FHC, desastrosa de Lula e tragicômica de Dilma deixa um único sopro de esperança: quem sabe, em 10 ou 20 anos, as forças progressistas ?? e, principalmente, a esquerda brasileira ?? consigam se reconstruir e reaglutinar.”

http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=11039:2015-08-21-22-22-10&catid=34:manchete


Taciano Lemos de Carvalho on 29 agosto, 2015 at 18:20 #

Corrigindo: No lugar de cada par de interrogação é para existir um travessão.


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