DEU NO BLOG POR ESCRITO (DO JORNALISTA LUIS AUGUSTO GOMES)

À esquerda resta chorar por causa do PT

Não pensem os militantes e ainda simpatizantes do PT que os verdadeiros democratas deste país, que sofreram as agruras da ditadura e tinham esperança na construção de um Brasil melhor com a redemocratização, sentem-se felizes com a debacle que se abate sobre o partido.

Não é um processo novo: ao longo de sua curta história, em momentos especiais ou mesmo no transcurso comum da rotina, o PT sofreu perdas de quadros importantes, o que chegou, de certa forma, a desfigurá-lo.

Motivos para essa desconstrução gradativa são vários, do legítimo inconformismo com a mudança de orientação ideológica ao desprezo de antigas propostas de governo, passando pela adoção de métodos de ação política que o partido condenava.

A coroação de todo esse desgaste com a imersão na mais espetacular trama de corrupção e desvio do dinheiro público de que se tem notícia não deixa dúvida: trata-se de uma página virada na História do Brasil, que retarda em quantidade ainda indefinida de anos o papel da esquerda no país.

Tentativa de recuperação cheia de tendências

Esta digressão vem a propósito de informações, de fontes diversas, de que o PT, por meio de iniciativas localizadas, procura refazer a imagem, recuperar a identidade perdida, retomar o caminho que por tantos anos empolgou cada vez maiores contingentes até a chegada ao poder.

Tal esforço estaria se manifestando em “tendências” – que é como se chamam os grupos dentro do partido – dispostas a uma revisão de posições ou, pelo menos a uma análise fria da conjuntura.

Liminarmente, discutamos a própria existência de tantas correntes – pelo menos dez –num partido que imaginava interpretar o pensamento e os desejos do povo brasileiro, recusando formar alianças e subscrever avanços institucionais, no entanto fragmentado a um ponto de ter sido essa, sempre, uma sua característica indissociável.

Isto nunca foi seriamente levado em conta, mas os cientistas políticos e os sociólogos ideológicos já poderiam ter visto há muito tempo: um partido que não tem unidade original, sendo na verdade uma federação de grupos numa uma estrutura orgânica, onde poderia desaguar?

Ao contrário, esse fracionamento sempre foi visto como benéfico, porque traduziria a “democracia interna” que geraria o melhor projeto para o país, embora não passasse de uma mescla de interesses eleitorais pessoais e alguns sonhos radicais de que cada núcleo daqueles cresceria e faria prevalecer suas teses.

A realidade a mais de um palmo do nariz

Em meio ao clima de catástrofe reinante, no governo e fora dele, no partido e no ambiente político, surpreende especialmente o fato de mais uma “tendência” estar prestes a surgir, com cisão na corrente Movimento PT para a criação da corrente Avante.

Foi a experiente deputada Maria do Rosário quem veio a público explicitar a vontade de ela, outros três deputados e um senador se afastarem do grupo de apoio ao governo para buscar uma ação “mais à esquerda”, expressão que, isolada, nos tempos atuais, não quer dizer absolutamente nada para a maioria da população.

A mesma interpretação superficial da realidade é feita também por parlamentares baianos, como o deputado federal Valmir Assunção, para quem “há uma ofensiva de grupos direitistas do País contra a política de inserção social do governo e contra os projetos criados”.

Na Assembleia Legislativa não é diferente: os petistas que mais sobem à tribuna para defender o governo federal – Luiza Maia, Bira Corôa, Marcelino Galo – insistem em que há uma conspiração generalizada contra o PT cujo objetivo seria liquidar o “projeto” que o partido teria desenvolvido para a sociedade brasileira.

Movimentos cadentes

Outro tema que precisa ser reduzido à verdadeira dimensão são os “movimentos sociais”, em nome dos quais muitos falam com a convicção de serem instrumentos poderosos.

Refletindo a luta da população em vários segmentos, como a moradia, a saúde, a terra, esses movimentos floresceram ao lado ou à sombra do próprio PT e partidos “de esquerda”.

Foram tão fortes quanto as forças políticas às quais correspondiam ou estavam subordinados, e, a seu exemplo, vêm definhando, mesmo porque, em 12 anos de poder petista, não avançaram nas conquistas prometidas, cujo maior símbolo é a reforma agrária.

A melancólica participação dos “movimentos sociais” na última manifestação em defesa da presidente Dilma Rousseff atesta sua realidade atual: grandes bandeiras, enormes balões, gigantescos carros de som, e a reverberação de sindicalistas bem fornidos e outros apaniguados do poder, que sumiram da luta das categorias nos anos de fausto.

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Comentários

Taciano Lemos de Carvalho on 24 agosto, 2015 at 1:43 #

Luiz Augusto,
Análise perfeita essa feita por você. Realmente à esquerda resta chorar por causa do PT. Por causa do PT e por ter consciência de que mal maior —nem vindo da própria direita— não poderia provocar tanto estrago à esquerda quanto a rendição do partido que um dia foi a esperança para a realização dos sonhos de milhões de brasileiros.

Rendição a tudo de ruim que existe na política brasileira.

Quanto ao número de tendências no partido, no início dos anos 90 havia pelo menos 16. Essas eram as formalmente reconhecidas. Depois houve um processo de enquadramento/expulsão de algumas delas, processo capitaneado pelo hoje mensaleiro condenado José Dirceu.

Temo que essa história de surgimento de uma nova tendência, que traria, claro, no DNA todos os defeitos do atual partido, não passa de mais uma manobra de tentar engabelar mais uma vez os eleitores que votam naqueles que se dizem ser os condutores das bandeiras da esquerda.

Eu, sinceramente, tenho uma opinião sobre essa história de reconstrução da imagem e do do partido.

Acho que para a autêntica esquerda de nada servirá essa reconstrução. Discorde quem quiser, mas esse processo é uma perda de tempo a ser gasto salgando carne podre.


luiz alfredo motta fontana on 24 agosto, 2015 at 3:33 #

Tendências, doce palavra que nada diz, seriam grupelhos no afã de abandonar o navio após sorverem as benesses da lassidão, tentando, assim como se santos fossem, salvarem-se da derrocada?


luiz alfredo motta fontana on 24 agosto, 2015 at 3:40 #

– Como o réu se declara?

– inocente! “Exclusivis”sou tendência Excelência!


Taciano Lemos de Carvalho on 24 agosto, 2015 at 7:30 #

“Mate o homem, mas não erre o nome”.

Perdão, Luís Augusto.


jader on 24 agosto, 2015 at 9:26 #

O Conversa Afiada reproduz irretocável artigo de Ricardo Melo na Fel-lha (ver no ABC do C Af):

OS TRÊS PATÉTICOS

Isolada de sua base histórica, a banca e o empresariado, à tropa do impeachment só resta a debandada

Aécio Neves, Gilmar Mendes e Eduardo Cunha atuam como protagonistas de uma causa falida. Mesmo assim, não perdem uma oportunidade de expor em público sua estreiteza de horizontes. São golpistas declarados. Não importa a lógica, a política, a dialética ou mesmo o senso comum. Suas biografias, já não propriamente admiráveis, dissolvem-se a jato a cada movimento realizado para derrubar um governo eleito.

Presidente do PSDB, o senador mineiro-carioca pouco se incomoda com o ridículo de suas atitudes. Aécio sempre defendeu um programa de arrocho contra os pobres. Gabou-se da coragem de adotar medidas impopulares para “consertar o Brasil”.

Agora sobe em trios elétricos como porta-voz do povo. Critica medidas de ajuste, jura pensar no Brasil e usa qualquer artimanha com uma única finalidade: isolar a presidente. Convoca sabujos para atacar um jornalista que revelou o escândalo do aeroporto construído para atender a ele e à própria família. Maiores informações na página A3 desta Folha publicada ontem (23/08).

Seu ajudante de ordens, ou vice-versa, é o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes. Sintoma da fragilidade do equilíbrio de poderes vigente no Brasil, Mendes emite toda sorte de opiniões fora de autos. Muda de ideia conforme as conveniências. De tão tendencioso e parcial, seu comportamento público seria suficiente para impugná-lo como síndico de prédio. Na democracia à brasileira, pontifica como jurista na mais alta corte do país. Quem quiser que leve a sério.

Mendes endossou as contas da campanha da presidente eleita alguns meses atrás. Coisas do passado. Esqueçam o que ele votou. De repente, detectou problemas insanáveis na mesma contabilidade e ruge ameaçadoramente contra o que ele mesmo aprovou. No meio tempo, acusa o Planalto de comandar um sindicato de ladrões financiado por empreiteiras envolvidas na roubalheira da Petrobras.

Bem, mas as mesmas empresas financiaram a campanha dos outros partidos. O que fazer? Vale lembrar: Mendes até hoje trava o julgamento favorável à proibição do financiamento empresarial de campanhas políticas. Seu pedido de vistas escancara um escândalo jurídico, legal e moral que o STF finge não existir. Ora, isso não vem ao caso, socorreria o juiz paladino Sergio Moro.

E aí aparece Eduardo Cunha, o peemedebista dirigente da Câmara. Terceiro na linha de sucessão presidencial, Cunha encenava comandar um exército invencível. Primeiro humilhou o Planalto na eleição para o comando da Casa. Depois, passou a manobrar o regimento para aprovar o que interessa a aliados nem sempre expostos. Tentou ainda se credenciar como alternativa golpista. Curto circuito total. Pego numa mentira de pelo menos 5 milhões de dólares, a acreditar no procurador geral, Cunha atualmente circula como um zumbi rogando piedade de parlamentares muito mais interessados em salvar a própria pele.

Cambaleante, o trio parece ter recebido a pá de cal com os pronunciamentos dos verdadeiros comandantes da nossa democracia. O mais recente veio do chefe do maior banco privado do país, Roberto Setubal. Presidente do Itaú Unibanco, Setubal afirmou com todas as letras não haver motivos para tirar Dilma do cargo. Tipo ruim com ela, pior sem ela “”que o digam os lucros pornográficos auferidos pela turma financeira.

Sem a banca por trás, abandonada pelo pessoal do dinheiro grosso e encrencada em acusações lançadas contra os adversários, à troupe do impeachment não resta muito mais que baixar o pano.


luis augusto on 24 agosto, 2015 at 10:06 #

Concordo e espero que seja verdade. A dúvida é o que Dilma e o PT farão com o resto de poder que lhes cabe.


luis augusto on 24 agosto, 2015 at 13:52 #

Quanto ao texto de Taciano, é claro que isso é uma manobra para engabelar. Vamos precisar de algumas décadas para repor as coisas no patamar mínimo, mas é improvável que possamos testemunhar.


luis augusto on 24 agosto, 2015 at 13:58 #

Ainda para Taciano: uma beleza a reprodução sobre Getúlio hoje no Gama Livre. Não recebi minha edição impressa da TB, mas você resolveu o problema. Abraços.


Taciano Lemos de Carvalho on 24 agosto, 2015 at 14:10 #

Luís,
Um grande abraço.


jader on 24 agosto, 2015 at 16:50 #

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