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CRÔNICA

Os perfumes de Vinicius de Moraes

Janio Ferreira Soares

Minha tia Beliquinha, sempre que me via saindo pra pescar nesta época do ano, pausava os bilros de seus rendados, corria até a ribanceira que ia dar no rio e gritava: “cuidado com os ventos de agosto, menino, que eles não carecem assobio! ”. Eu, com uns 7, 8 anos e sem entender muito bem o que sibilações tinham a ver com aragens, apenas sorria e seguia com o anzol no ombro e umas iscas no bolso, sem a mínima ideia de que, além de peixes, naquele tempo eu fisgava o mundo.

E nessa metade de mais um mês oito vergando árvores e provocando velhas e novas rimas com seu nome – a exemplo de cachorro louco, desgosto e, bela novidade, Sérgio Moro (que diferentemente do Raimundo, de Drummond, é rima e parece ser também solução) -, aproveito o mote da poesia e enveredo por um assunto lido por esses dias que fala sobre o lançamento de um perfume em tributo aos 35 anos da morte de Vinicius de Moraes.

Produzido pela Avon e aprovado por seus herdeiros, a fragrância foi elaborada pelo alemão Frank Voelkl (famoso criador das lavandas da cantora Katy Perry e da atriz Sarah Jessica Parker) e terá o sugestivo nome de Doce Balanço. Fã de bossa nova, o perfumista confessou que se inspirou justamente na canção da eterna moça cujo balançado é mais que um poema para “adicionar ginga ao aroma”. Ainda segundo Maria de Moraes, uma das filhas de Vinicius, trata-se de um perfume “fresco, leve e feminino” e, por isso, acredita que ele o aprovaria.

Olha, Maria, como nessa outra bela canção que seu pai fez em parceria com Tom e Chico, eu bem que queria concordar contigo, porém, velho igualmente safado que sou – e diariamente bombardeado por sertanejas fragrâncias das mais variadas procedências e reentrâncias -, peço licença para colocar meu jaleco de couro branco e, qual um abelhudo alquimista, acrescentar certos ingredientes que assim como a beleza, seriam fundamentais para a completa aprovação do sensível olfato do nosso adorável Poetinha. A elas.

Como seria impossível juntar todos os cheiros de suas nove mulheres, resumi-los-ia tão somente numa gotícula do suor do cangote de alguma Carolina, providencialmente colhido bem na hora em que ela estivesse rodopiando ao som do xenhenhém da sanfona de Gonzaga. Em seguida, inspirado nas suas poesias, correria pelas praias da Bahia para capturar cheiros de maresias trazidos pelos alísios ao luar, que, posto que ventos, seriam cuidadosamente engarrafados numa ampola vazia de um legítimo escocês enxugado no leito da mulher amada, cujo seio sempre haverá de iluminar a cegueira dos homens.

Por fim, adicionaria aromas do franguinho de leite regado na cerveja e dos quindins e papos de anjos feitos pelo seu avô, misturaria tudo numa garrafa meada de um bom uísque e aí procuraria a melhor forma de enviá-la para sua aprovação.

Assim, de supetão, entendo que a maneira mais adequada seria pelas mãos frescas da maré cheia quando elas viessem coçar meus pés com seus dedos de água. Que falta, meu velho Oxalá!

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

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